O convento de Novodevichi: cinco séculos conectado com a história e a cultura da Rússia

Falar que Novodevichi era um convento é só o início da história. Quando ele foi construído, ele também era parte do sistema de defesa da cidade. Isso não era incomum no século XVI, mas ele é o único convento-fortaleza que ainda existe em Moscou. E ele ficou para sempre associado à história política e cultural da Rússia.

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Por muito tempo, ele foi um lugar para onde mulheres nobres eram mandadas, nem sempre por vontade própria. Quando o tsar Fiódor III morreu, uma luta começou entre os que achavam que o trono deveria ir para seu irmão Ivan, uma pessoa com deficiência, e os partidários do seu irmão mais novo, Pedro, de dez anos. A revolta chegou ao ponto que os Streltsy, os guardas armados do tsar, tomaram o Kremlin e exigiram que Ivan fosse coroado tsar. Um acordo foi feito pelo qual os dois irmãos seriam co-tsars, com Sofia Alekseievna, filha do primeiro casamento do tsar Aleksei, como regente. Por sete anos, ela teve poder absoluto, o que era inédito. A maioria das mulheres em Moscou vivia confinada no Tarem, o último andar da casa, e andavam cobertas de véus em público. Mas ela tinha sido educada com os irmãos, e conseguiu convencer os nobres de que ela era a única pessoa intelectualmente capaz de governar um reino na família. Um de seus atos mais famosos na época foi justamente uma enorme renovação do convento de Novodevichi.

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Depois, Pedro assumiu o trono, aos 17 anos, e trancou a irmã no Convento de Novodevichi, com medo de sua ambição e influência. Alguns anos depois os Streltsi tentaram colocá-la no poder novamente, mas foram enforcados debaixo das janelas dela. Ela era mantida na seclusão mais extrema, e outras freiras só podiam vê-la durante a páscoa.

E ela nem foi a única familiar que ele prendeu nesse convento: a sua primeira esposa, Eudoxia Lopukhina, teve o mesmo destino. Como vingança, ela amaldiçoou o plano megalomaníaco dele de construir uma nova capital para a Rússia no meio de um pântano, dizendo “Petersburgo ficará vazia!”. Não pegou, mas contribuiu para a reputação de Petersburgo como um lugar anti-natural e contrário a deus.

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Sofia Alekseevna, em pintura de Ilia Repin hoje na Galeria Tretiakov. Crédito: wikicommons

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Outro visitante involuntário ilustre teria sido Napoleão. Ele invadiu a Rússia esperando uma vitória fácil, mas encontrou técnicas de terra arrasada. Os russos chegaram a destruir a maior parte de Moscou para que ele não pudesse abastecer seu exército lá e fosse obrigado a bater em retirada. Ele teria dito que não partiria da cidade até ver Novodevichi queimar, mas uma freira teria extinguido os fusíveis e salvo o convento. Muitos condicionais nessa história, mas quem gosta de história não vai se decepcionar por lá: alguns prédios são dedicados a uma exposição sobre a invasão Napoleônica e o incêndio de Moscou.

Também é onde Pierre quase foi executado em Guerra e Paz onde Levin encontrou Kitty pela primeira vez em Anna Karenina, patinando no laguinho em frente. Tolstói morava lá perto, e era um lugar que ele gostava de visitar.

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Incêndio de Moscou pintado em uma das paredes

Durante a Revolução, ele foi transformado em um museu dedicado à Emancipação Feminina (juro que todo o humor que os bolcheviques tinham, usaram para decidir o que igrejas importantes deviam virar). Depois ele virou parte do Museu Nacional, e alguns prédios lá dentro foram usados como apartamentos. Hoje ele voltou a ter freiras, mas algumas das igrejas nunca foram reconsagradas e muitas funcionam como museus. Hoje ele é um Patrimônio da Unesco, reconhecido como um dos melhores exemplos do “Barroco de Moscou”.

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O Cemitério do lado também era um lugar de prestígio, principalmente depois que alguns heróis das guerras napoleônicas foram enterrados lá. Um dos primeiros homens célebres russos a ser enterrados lá foi Anton Tchékhov. Depois se seguiram Stanilavski, que dirigiu tantas peças suas no teatro e inventou o método que deu origem ao method acting, e vários atores da companhia, levando uma pequena parte do cemitério a ficar conhecida como O Jardim das Cerejeiras.

Moscou cemiterio Novodevichi jardim das cerejeiras

Depois Gógol foi re-enterrado lá, seguido por Maiakóvski, Bulgákov (e como qualquer lugar relacionado a Bulgakov, tem peregrinações), Shostakovitch e Prokofiev, entre outros.

O cantor de ópera Chaliapin e Bulgakov, enterrado com a esposa

Na época soviética, além desses autores, ele ficou conhecido como lugar de repouso para pessoas que faleceram na Grande Guerra Patriótica (como é conhecida a Segunda Guerra por lá) e por cosmonautas. O único lugar com mais prestígio para ser enterrado era nas muralhas do Kremlin. A estátua mais famosa é a Pavel Beliaiev, comandante da visão em que um homem andou no espaço pela primeira vez na história.

Moscou cemiterio Novodevichi cosmonauta beliaev

Por todas as associações políticas, históricas e culturais, era um lugar que eu não queria perder, mesmo se ele estava em reformas, como dá para ver nas férias. Foi o problema de ir para a Rússia um pouco antes da copa, de que tudo estava em reformas. Mas ainda deu para ver a maioria das igrejas por dentro, e tá na minha lista de lugares para rever em Moscou.

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