Crime e Castigo: um romance de Petersburgo

“Ao cair da tarde em um início de julho, calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.”

Meu passeio começa pela travessa S., que é a rua Stolyarny. Existem duas locações possíveis para a Casa de Raskolnikov. Uma delas fica bem na esquina, e tem até um auto-relevo mostrando o autor e uma plaquinha que diz Casa de Raskolikov, além de dizer: “O destino trágico das pessoas dessa área de São Petersburgo foi a fundação dos sermões apaixonados sobre a bondade de Dostoiévski para a humanidade”.

A Casa de Raskolnikov Dostoievski Crime e Castigo Petersburgo

A maioria dos prédios de Petersburgo tem entrada livre para o pátio, mas esse fechou por causa da quantidade de tours que passavam por lá. Ainda assim, você vê professores e guias tocando nos apartamentos e pedindo para entrar.
Mas existe uma controvérsia, com alguns dos fãs de Dostoiévski dizendo que a casa do estudante provavelmente era mais adiante, no número 9.

Crime e Castigo Dostoievski casa de Raskolnikov

Como fala a citação em cima, as casas são perto de uma ponte, ou seja, perto de um canal. E é uma das partes mais charmosas do canal Griboiedov, muito mais que o centro histórico. E tem uma parte minha que só de ouvir essas palavras já pensa “que lindo”. Eu olho o mapa: não estamos longe da casa do milionário Nabokov, ou do palácio Iusupov, onde morava uma das famílias mais ricas da Rússia nas vésperas da revolução. É difícil olhar para esse lugar e pensar no quarto claustrofóbico em que Raskolnikov, meio febril, criava suas teorias.

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Cantinho charmoso do Griboiedov

Tenho que me lembrar que o canal Griboiedov era conhecido pelo cheiro fétido e pelo lixo boiando, é que os prédios construídos com quartos para alugar, uma novidade, alugavam cada espaço, desde grandes apartamentos para a burguesia, com entrada para a rua, até sótãos e porões para estudantes pobres, com entrada para o pátio. Petersburgo tinha uma diversidade dentro desses prédios que faria inveja aos construtores de Brasília. E é o quarto de Raskolnikov que tento imaginar do portão. Esse é um prédio quase em frente ao Museu Dostoiévski, e essa é a entrada para a rua. Andando pelo prédio dá para ver o luxo das escadarias, que costumavam ter lareiras em cada andar.

Petersburgo entrada de luxo de uma casa 3
Entrada de luxo do predio

Petersburgo entrada de luxo de uma casa 2

Eu dou a volta ao redor do prédio e encontro a “entrada negra”, como era chamada a entrada no pátio que dava acesso aos quartos mais baratos.

Petersburgo entrada negra no patio

“… o verdadeiro soberano, a quem tudo é permitido, esmaga Toulon, faz uma carnificina em Paris, esquece um exército no Egito, sacrifica meio milhão de homens na campanha da Rússia e se safa com um calembur em Vilna; e ao morrer é transformado em ídolo – logo, tudo lhe é permitido. Não, pelo visto esses homens não são de carne, são de bronze!”

Mas voltando à rua de Raskolnikov, ela também costumava ser cheia de tavernas, como aquela em que ele encontrou Marmeladov ou onde ouviu estudantes falando que a vida da velha usurária não valia nada. De lá parti para a casa dela.
No caminho, uma placa me mostra a casa onde Dostoiévski escreveu Crime e Castigo. Dostoiévski morou em mais de vinte apartamentos pela cidade, a maioria perto da Praça Sennaia ou da Igreja de Vladimir, onde fica hoje em dia o seu museu apartamento. Agora é ele que imagino febril, nunca morando em um lugar por mais de três anos, andando pela cidade e escolhendo os prédios em que viveriam seus personagens.

Casa Dostoiévski crime e castigo placa Petersburgo

Raskolnikov chegou a contar os passos que o separavam da casa da usuária quando andava febril por Petersburgo: 730. Entre quem vem aqui seguir seus passos, é uma piada, ninguém consegue fazer o caminho em tão poucos. Eu me lembrei que Raskolnikov era alto e estava nervoso, mas mesmo assim. Depois me lembrei da lenda de que Dostoiévski contou os próprios passos e dividiu por dois.
Aliona Ivanovna morava no canal Griboiedov, número 104. 1374 passos, e eu começo a dar credibilidade à história de que o escritor dividiu seus passos por dois. O apartamento dela seria o 74, no terceiro andar.

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Casa da velha usurária em Petersburgo

“Aqui vemos sonhos tirados de livros, aqui vemos um coração exasperado por teorias; aqui vemos a decisão de dar o primeiro passo, mas uma decisão de uma espécie particular – ele tomou a decisão, mas foi como se tivesse caído de uma montanha ou despencado de um campanário, e chegou ao crime como se não houvesse caminhado com as próprias pernas. Esqueceu-se de fechar a porta após entrar e matou, matou duas pessoas, apoiado na teoria. Matou, mas não conseguiu se apoderar do dinheiro, e o que agarrou meteu debaixo de uma pedra. Achou pouca a aflição que suportou sentado atrás da porta enquanto tentavam arrebentá-la e puxavam o cordão da sineta -, não, depois foi ao apartamento, já vazio, meio delirando, relembrar aquela sineta, sentiu a necessidade de voltar a experimentar aquele frio na espinha… Bem, mas isso, suponhamos, aconteceu durante a doença, no entanto veja mais uma coisa: matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí com um anjo pálido.”

A delegacia de polícia fica logo adiante, no número 67.

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Delegacia de polícia da Petersburgo de Dostoiévski

A Casa da Sonia é no número 73, embora parecesse bem diferente na época, quando tinha apenas 3 andares e era pintada de verde. Hoje ela é amarela.

Petersburgo crime e castigo Dostoievski casa de Sonia Marmeladova

Continuo para a Praça Sennaia, o centro da Petersburgo de Dostoiévski. Na época, era o lugar que ele chamou de o baixo ventre da cidade, onde moravam operários e camponeses recém-chegados em porões e quartinhos claustrofóbicos como o de Raskolnikov. Durante as comemorações do tricentenário da cidade, a praça foi modernizada, mas ao redor dela ainda é possível encontrar vestígios da atmosfera descrita nos trabalhos de Dostoiévski. Ela é mais suja que a maior parte da cidade, mais cheia de lixo no chão, de vendedores em banquinhas. Meus amigos russos que tem minha idade ainda lembram de ouvir falar como essa praça era perigosa, “cheia de imigrantes”.

 

Minha peregrinação acabou cedo – os lugares de Crime e Castigo são muito próximos. Mas as peregrinações continuam. Em breve vou postar o passeio que fiz pelos lugares da vida dele, incluindo a visita ao museu.

Todas as citações de Crime e Castigo do post são da edição da editora 34, tradução direta do russo de Paulo Bezerra.

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