Mestrado no exterior: como eu estudei para o GRE por conta própria e gastando pouco (e o resultado)

Esse post é parte de uma série que estou planejando sobre meu mestrado na Universidade de Bologna, na Itália. Se o tema te interessa, eles estão saindo lentamente mas estão saindo.

A parte mais importante do processo seletivo para minha bolsa em Bologna foi o GRE. Ele é um exame frequentemente pedido em processos de pós graduação que testa o candidato em raciocínio verbal (em inglês), raciocínio quantitativo (requer conhecimentos básicos de matemática) e escrita analítica (também em inglês).
A prova pode ser feita a cada 21 dias e no máximo 5 vezes por ano. Inscrever-se na prova custa 200 dólares.

Onde ele é aceito?

O GRE costuma ser muito importante em universidades de língua inglesa, principalmente nos Estados Unidos, mas também é aceito em várias universidades ao redor do mundo, tanto para admissão quanto para programas de bolsas. Há uma lista parcial de universidades que pedem o GRE no site oficial.

As partes do GRE

Na primeira parte do teste, devemos fazer duas redações. A primeira se chama “Issue Task” em que o candidato deve fazer um pequeno ensaio argumentando sobre o tema proposto. Não importa a posição escolhida, mas a capacidade de estruturar um texto defendendo a opinião. A segunda redação se chama “Argument Task” e o candidato deve analisar um memorando em que um problema é apresentado e uma solução é proposta. O candidato deve encontrar as falhas lógicas e presunções feitas pelo autor do memorando e concluir se a solução vai atingir o objetivo esperado ou não (spoiler alert: sempre é não). O candidato tem meia hora para fazer cada uma.
A segunda parte é de raciocínio verbal, e dura 30 minutos, com 20 questões. São questões de múltipla escolha, com uma ou mais respostas certas. Se ela tem múltiplas respostas, você tem que acertar todas para conseguir os pontos da questão.
A terceira parte é de raciocínio quantitativo e dura 35 minutos, com 20 questões. Novamente há questões com múltiplas respostas. A matemática necessária para resolver as questões é a que a gente aprende no ensino médio.
A quarta e a quinta partes são novamente de raciocínio verbal e quantitativo, com o mesmo tempo. A diferença é que o nível de dificuldade das questões é baseada na performance do candidato na primeira parte. Se você for mal, vai receber questões fáceis e sua nota máxima vai diminuir. Se você for bem, vai receber questões difíceis, mas cada uma terá um valor maior. Então se essa parte for bem mais difícil que a primeira, isso é um bom sinal.
A sexta parte é de raciocínio verbal ou quantitativo, e tem uma pegadinha. Alguma dessas partes na verdade foi um teste, uma forma de avaliar a dificuldade de questões novas, mas você não sabe qual, e deve fazer todas com seriedade. Tem alguns sites online que dizem ensinar a descobrir a parte falsa para não perder tempo com ela, mas eu não arriscaria.

Então organizei uma rotina para estudar para o GRE entre 30 e 40 dias.

 

A minha rotina de estudos:

Para melhorar o inglês

Da primeira vez em que fiz um simulado para o GRE, pensei “eu fiz 8,5 no IELTS, não preciso estudar inglês”. Aí fui mal nos simulados e percebi que não era bem assim. O GRE é cheio de macetes, e requer um vocabulário alto, tanto no prova de raciocínio verbal quanto nas redações. Para tirar uma nota boa, é bom estudar para ele especificamente, e pegar o jeito de fazer as questões.
Para melhorar o vocabulário, não tem jeito, o melhor modo é ler muito e ler bem. Eu gosto de ler as notícias em sites como o da New Yorker ou The Economist, revistas conhecidas pelo nível da escrita. Ou então ficar nos clássicos, ler Dickens, Jane Austen, Fitzgerald, Faulkner, Nabokov. Se você tem esses hábitos, têm uma vantagem enorme, então se você tá lendo isso porque pensa em talvez tentar o GRE um dia, comece agora!
Se você tem pouco tempo, ainda assim recomendo ler 30 minutos dessas revistas todos os dias, anotando as palavras que você não conhece. Sei mais ou menos não conta, deduzi o significado não conta, se você não sabe definir a palavra na ponta da língua, procure e anote, porque nas questões da prova ela vai aparecer sem contexto. Acho melhor que flashcards, porque a gente se acostuma a ver as palavras usadas naturalmente. Também é sempre bom lembrar das raízes gregas e latinas.

 

Para lembrar a matemática do ensino médio

Eu me considerava muito boa em matemática no Ensino Médio, mas isso foi há uma década, tô desde então em faculdades de humanas, e tinha muito que eu não lembrava. Eu no primeiro simulado tava basicamente olhando para a tela e pensando “média e mediana? Tinha isso mesmo. E essa questão é semelhança de triângulos, como era aquele negócio de lado e de ângulo?”
Aí lembrei de como eu aprendia melhor na escola. Meus professores sempre me fizeram deduzir todas as fórmulas, e quando comecei a fazer isso de novo fui pegando a matéria bem mais rápido. Acho uma estratégia interessante para quem tá afastada da área como eu, lembrar que métodos costumavam funcionar.
O que eu mais recomendo é fazer a revisão em inglês. Não dá para estudar matemática até e chegar na hora e ficar na dúvida por causa do vocabulário. A organização que prepara o GRE fez uma lista de vídeos da Khan Academy que são úteis para a prova.

Para o drill

Fazer muitas questões é sempre boa prática, especialmente se você cronometrar, pensando nos tempos disponíveis durante o GRE. Eu usei dois livros, o oficial da ETS e o da Kaplan. Eu usei versões de anos passados, porque a prova não muda muito e já tinha gasto muito com a prova.
Também fiz muitas redações no computador. No site da GRE eles disponibilizam todas as possibilidades de redações, tanto para a Issue Task e para a Argument Task. Usei o bloco de notas por ser o app que mais parece o usado pelo GRE, e por não ter recursos que não terei na prova, como autocorrect. Usei um software gratuito para corrigi-las que tem fama de dar notas parecidas com o GRE. Para mim, funcionou. Também existem ferramentas pagas em que você recebe dicas sobre a redação, não usei porque só o GRE já foi uma fortuna. Mas para quem tem mais dificuldade com redação, pode ser uma boa.

Preparando para a maratona

O GRE é uma maratona. A prova dura em torno de quatro horas, com quatro intervalos de um minuto (!) e um intervalo de dez minutos no meio (!). Das primeiras vezes em que eu fiz simulados, nem terminei a prova e fui muito melhor no início, porque no final estava exausta. Imagina na prova de verdade, em que o final pode ter questões bem mais difíceis. Mas depois de praticar muito, ficou bem mais fácil e no dia eu terminei a prova (faltando 20 segundos na segunda parte de matemática) me sentindo melhor. Uma das melhores funcionalidades dos simulados é que eles te permitem marcar uma questão e pular, fazer todas as fáceis, e depois voltar nas difíceis, assim como na prova.
A gente não pode entrar com nada na salinha da prova além do documento de identidade, papel e lápis fornecidos pelo lugar de prova. Se você quer tomar um gole de água, comer um lanche ou usar um colírio, tem que deixá-los do lado de fora, ir lá e passar pelo detector de metais para voltar, o que demora 2-3 minutos. Essa parte acho que dificulta a prova de forma desnecessária, e não sei se foi só onde eu fiz a prova, no ICBEU de BH, mas é bom já saber para evitar o stress e praticar da forma mais próxima da situação real da prova.
Vários sites disponibilizam simulados gratuitos que têm o mesmo formato do GRE, levando o mesmo tempo e usando o mesmo software. Super recomendo fazer alguns completos e sem pausas, com todas as partes, inclusive as redações, mesmo que a maioria dos sites ofereça correções dessa parte. A pontuação é dada em uma escala entre 130 e 170. A nota é baseada em um percentual, ou seja, quão melhor ou pior que a média dos candidatos você foi. Ela também é medida de forma diferente nas duas provas, então um 170 em raciocínio verbal (V) te coloca no 1% de melhores notas, enquanto a mesma nota em raciocínio quantitativo (Q) te coloca nos 3% de melhores notas. Estou colocando os simulados que fiz na ordem que fiz e com minha nota, para servir de referência.
Princeton Review – Tem fama nos fóruns que eu li de ser o mais fácil, então foi o primeiro que fiz, para começar a ter uma noção do que precisava estudar.
Fiz 157V/156Q.
Manhattan Prep – Ele faz uma análise da performance ao final e explica as questões erradas. Ele mostra o tempo que você levou para fazer cada questão, e sua porcentagem de sucesso por conteúdo.
Fiz 158V/158Q.
Kaplan – além de livros e aulas, eles têm vários eventos gratuitos, inclusive o simulado. Eles são disponibilizados algumas vezes por mês, mas não se engane, é sempre o mesmo. No final, ele te dá uma análise sobre sua performance e explica as questões erradas. Ele mostra o tempo que você levou para fazer cada questão, e sua porcentagem de sucesso por conteúdo. Também é o único em que fui melhor na parte quantitativa do que na verbal, e vi que isso acontece com muita gente.
Fiz 163V/164Q.
PowerPrep da ETS – A ETS é a empresa que faz o GRE, e o simulado deles é considerado o mais acurado. A maioria das pessoas vai um pouco melhor no exame de verdade do que lá, mas é o melhor indicador. Eles têm dois testes que podem ser baixados a qualquer momento, mas o grande problema é que só funcionam em Windows. Eles também falam quais questões que você errou, mas não como, então é bom procurar no Google.
ETS 1: 165V/162Q
ETS 2: 166V/160Q
Meu resultado no GRE: 170V (melhor que 99% dos candidatos)
164Q (melhor do que 86% dos candidatos)
5,0 nas redações (melhor do que 92% dos candidatos).

 

Os Resultados

Alguns programas tem notas de corte, outros tem um percentual, em outros ainda não há nenhum dos dois e o GRE não é uma parte tão importante do processo. Tem programas de humanas onde as notas de exatas não importam muito, e vice-versa. É sempre bom olhar o que o seu programa pede ou as médias dos anos anteriores, se possível. No meu caso, era mais difícil porque a bolsa vai para as maiores notas, então a meta era fazer a maior nota possível.
Assim que você termina, já tem os resultados para as provas de raciocínio verbal e quantitativo, e as redações são corrigidas entre 10 e 15 dias.
Quando a prova termina, você tem a opção de enviar os resultados para até quatro universidades ou cancelar as notas. Se você quiser mandar as notas depois, elas estão disponíveis por cinco anos, mas existem taxas para enviá-las oficialmente.

Essas são minhas dicas e as ferramentas que usei, espero que sejam úteis para quem vai tentar o GRE.

2 comentários

  1. Cecilia

    Oi, muito obrigada pelas dicas! Muito completas, práticas, e adorei saber a sua nota para comparar. E parabéns! Vi muitas dicas quando procurei online pelo GRE, e nunca vi ninguém que fez nem perto da sua nota! Fechar a prova de inglês?!?! Muito foda!

    1. Julia Boechat

      Oi, Cecília, muito obrigada pelo comentário! O problema com a minha bolsa é a gente não ter uma nota de referência, ter que fazer o máximo possível, mas fiquei feliz que consegui ir bem. Valeu.

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