Volta ao Mundo em Livros: Armênia – Burning Orchards

Algumas vezes, as críticas feitas a um romance são o que me fazem ter vontade de lê-lo. Quando estava escolhendo um romance para a Armênia, li a recomendação da Camila Navarro do Viaggiando sobre Burning Orchards, de Gurgen Mahari, e ela conta sobre a controvérsia e censura que o livro sofreu. Ele também é meu livro para o Desafio Viaggiando, na categoria de um livro sobre um genocídio.
O livro se passa em Van, uma cidade antiga do Cáucaso, durante cerca de cinco anos no início do século XX. Ela era conhecida como o berço da civilização armênia. Já da sinopse, eu sabia que o livro culminava na Resistência de Van, contando sobre o cerco otomano à cidade e os massacres cometidos pelos otomanos. O contexto é do genocídio armênio, uma campanha sistemática para acabar com minorias cristãs vivendo na Anatólia, principalmente os armênios, com massacres, estupros e deportações forçadas. O próprio autor é um sobrevivente. Ele escapou de Van em 1915, quando ele tinha doze anos, e viveu em um orfanato até conseguir reencontrar a mãe, que também tinha sobrevivido.
A maior parte do livro fala dos anos antes do genocídio, e faz um panorama da vida em Van como o autor a lembra. Então ele tem personagens turcos, que eram cerca de um terço da população, curdos, tem armênios que querem a independência, armênios que não ligam para política, pessoas com opiniões políticas em todos os lados do espectro. E isso é muito controverso, porque depois de um evento tão trágico, a maioria das obras caiu no simplismo de retratar os armênios sempre como vítimas ou como resistência heróica. Mesmo falhas que não tem a ver com política, como um personagem central que se sente atraído pela viúva do irmão, foram motivos para o autor ser acusado de “falta de patriotismo”. Mostrar que tinha gente com falhas e qualidade mais humanas é bem mais complexo, mas é justamente o que torna o livro interessante.

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A história me lembrou muito a dessa estátua de Rodin, que vi em Paris: ele foi contratado para retratar os burgueses de Calais, um grupo de homens que se ofereceram para serem executados em troca do rei Eduardo II da Inglaterra poupar o resto da cidade, e foi criticado por mostrar velhos descalços ao invés de heróis reluzentes. Esse povo não via sessão da tarde e não entende que coragem significa mais quando você é uma pessoa de verdade e tem medo?

Por outro lado, ele tem uma visão muito irônica dos revolucionários que queriam a independência da Armênia. Em um momento, um deles diz que eles não são massacrados porque querem a independência, mas que eles querem a independência para pararem de ser massacrados. Mas em vários outros momentos ele mostra atitudes como provocações, como se eles tiverem causado o genocídio ao incomodarem as autoridades. Tendo em vista que hoje em dia muitos historiadores acreditam que a campanha genocida tinha sido planejada bem antes dos incidentes em Van, entendo porque essa parte é controversa e vista como victim-blaming.
A maioria do que eu li sobre o livro antes focava na sua representação do genocídio. Eu li o livro esperando isso como culminação, até pelo título – a gente começa sabendo que os pomares vão ser queimados. Mas ele é um livro de quase 600 páginas e esses são eventos do final, então acho que também pode ser lido como um romance sobre a vida em Van, sobre a cultura e modos de vida das populações armênias. Não tem como não pensar na história que aconteceu depois – até porque quando fui pesquisar Van descobri que ela hoje em dia fica na Turquia. Mas o livro conta mais sobre a Armênia do que o genocídio.

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