O Memorial do Genocídio Armênio em Yerevan

O Genocídio Armênio é o primeiro evento que eu aconselharia as pessoas a pesquisarem antes de viajarem para a Armênia. Ele é fundamental para entender muito da história recente do país, seja o fechamento da fronteira com a Turquia, que se recusa a chamar o que aconteceu de genocídio, ou até porque nós brasileiros agora podemos entrar sem visto lá, depois que o governo brasileiro reconheceu o genocídio. Ou porque a maioria dos armênios com que eu conversei tinha uma visão muito pró-soviética, dizendo que os russos os salvaram, enquanto nos outros países do Cáucaso a questão era bem mais controversa. Por isso, no meu primeiro dia no país, fui visitar o Memorial do Genocídio.

Aviso de gatilho: o post tem duas fotos sensíveis, que mostram os resultados da violência. Ele também fala dos crimes que foram cometidos durante o genocídio.

Armênia yerevan memorial genocídio entrada

A visita começou pelo Memorial, atravessando o jardim em que líderes de países que reconhecem o genocídio plantam árvores. Depois fui ao Monumento, que tem doze lajes inclinadas, representando as doze províncias do reino histórico da Armênia, que foram perdidas durante o Genocídio e a Primeira Guerra. 

Armênia yerevan memorial genocídio interior

Armênia yerevan memorial genocídio 2

Depois fui visitar o Museu mesmo, que conta a história em mais detalhes. A história é muito complexa, e começa com o fato de que pessoas que se reconheciam como armênios, falavam a língua e eram cristãos começaram o século XX espalhados em vários países. A maioria deles estava dividida entre o Império Otomano e o Império Russo. Os armênios que viviam no Império Otomano tinham menos direitos do que populações muçulmanas, pagavam mais impostos, não podiam testemunhar na corte contra um muçulmano e não podiam possuir armas, entre outras limitações. Intelectuais e figuras religiosas armênias também denunciaram ao mundo situações de conversões forçadas, estupros em massa, incêndio das suas igrejas e assassinatos. Por causa desses relatos, a chamada “questão armênia” começou a ser amplamente discutida na França, na Inglaterra e na Rússia, com esses três países pressionando o sultão Abdul Hamid II do Império Otomano. Apesar disso, os abusos continuaram, com os massacres hamidianos entre 1894 e 1896.

Armênia yerevan memorial genocídio museu

Por mais que o sultão fosse inefetivo, a situação dos armênios no Império Otomano só piorou quando ele foi retirado do poder por um golpe militar em 1908. No ano seguinte, em 1909, um massacre matou entre 20 e 30 mil armênios na província de Adana. Pouco depois, eclodiu a Primeira Guerra Mundial, e milhares de armênios foram recrutados no exército otomano. A maioria deles foi colocada em batalhões de trabalho, desarmados, e muitos foram massacrados. Para muitos armênios, a intenção era de matar todos os homens jovens, para depois matar o resto da população mais facilmente. A cidade de Van tentou oferecer quinhentos soldados e pagar uma multa em dinheiro, para ganhar tempo, mas um incidente aconteceu em que uma mulher armênia foi assediada pelas tropas otomanas, e dois homens que tentaram defendê-la foram mortos. Logo a cidade foi sitiada pelas tropas, e passou um mês assim até ser libertada por soldados russos. A maioria dos locais conseguiu fugir para o Império Russo. Essa história também foi contada em Burning Orchards, o livro do projeto Volta ao Mundo em Livros que li antes de visitar a Armênia.

Enquanto isso, em Istambul, 250 intelectuais e líderes de comunidade armênios foram presos. A maioria deles foi deportada e assassinada. O governo começou a organizar Marchas da Morte para o deserto da Síria. Populações inteiras foram forçadas a andar quase sem comida, e a maioria deles morreu no caminho. Testemunhas da época falam das estradas cheias de cadáveres esqueléticos, e de como mulheres e meninas eram estupradas e vendidas como escravas pelos soldados. Franz Gunther, um funcionário do Deutsche Bank que estava lá para supervisionar a construção de uma estrada, enviou fotografias das estradas para seus diretores, e hoje elas são parte do acervo do museu. Essa parte no museu é especialmente pesada, tem vários relatos pessoais, e vi várias pessoas chorando enquanto liam. 

Armênia yerevan memorial genocídio marchas morte
Imagens das Marchas da Morte no Museu
Armênia yerevan memorial genocídio rota marchas morte campos concentração
mapa das marchas da morte

Os armênios que sobreviveram às marchas foram levados para campos de concentração na Síria, onde eles passaram por fome, e muitos foram queimados vivos ou afogados. Enquanto isso, as propriedades que pertenciam a eles foram confiscadas na Turquia. Igrejas e patrimônios históricos foram destruídos. 

Armênia yerevan memorial genocídio patrimonio destruido
Igreja na atual Turquia, destruída pelo governo
Armênia yerevan memorial genocídio museu patrimonio armenio
Muitos manuscritos também foram queimados durante o Genocídio, que também foi um ataque à Cultura Armênia
Armênia yerevan memorial genocídio menino mostrando cicatrizes crucificado
Criança que foi crucificada mostrando as cicatrizes

Com o fim da Primeira Guerra, os três principais organizadores do Genocídio foram julgados na Turquia e condenados à morte – mas todos os três já tinham escapado do país. A maioria dos perpetradores não foi julgada.  

É difícil apontar o número dos mortos, mas a maioria dos historiadores fala de entre 800 mil pessoas, na estimativa mais conservadores, até um milhão e meio, a estimativa aceita pelos governos da França e do Canadá. Quando o estudioso Raphael Lemkin cunhou a palavra genocídio, ele colocou os armênios como um exemplo, mas até hoje a palavra cria controvérsias. Poucos governos reconhecem o que aconteceu como um genocídio, e até Hitler, quando delineou seus planos de extermínio de judeus, ciganos, pessoas com deficiência e outros, teria exclamado “afinal, quem ainda se lembra dos armênios?”.

Armênia yerevan memorial genocídio citação hitler

Hoje, qualquer lugar em que você vai na Armênia tem o símbolo da flor Não-me esqueças, com as palavras “eu lembro e exijo”. Na Armênia, eles também falam do que aconteceu como Medz Yeghern (o grande crime), Abrilian Yeghern (o crime de abril) ou Aghed (a catástrofe).

i remember and demand

Armênia yerevan memorial genocídio estátua

Essa foi minha visita ao Memorial, e, apesar do tema pesado, recomendo como primeiro passeio a todo mundo que for na Armênia.

Um detalhe prático que eu queria falar é que o museu é separado do centro da cidade por uma ravina. Por isso, embora a cidade não seja grande, leva em torno de uma hora para chegar lá de ônibus ou a pé. Por isso me rendi e acabei pedindo um táxi. Em Yerevan, se você pedir por um app, dificilmente vai pagar mais do que 1500 drams (3 euros). Os apps mais usados são o Yandex (que tem fama de ter mais carros), o QQ (que tem fama de ser o mais barato) e o Bolt. Paguei 900 drams pela corrida (1,8 euro). Não pedi para o taxista me esperar nem nada assim, porque na volta tava sem pressa e podia voltar de ônibus, mas no Lonely Planet já tava escrito que não ia ter táxis esperando do lado de fora quando eu saísse. Quando saí, no horário de fechamento do museu, tinha vários táxis oferecendo me levar ao centro por 2 mil. Ofereci mil e não aceitaram, aí falei em russo que 2 mil era caro demais e eles imediatamente aceitaram os mesmos mil (2 euros). Senão eu ia pegar um ônibus mesmo, que geralmente custam 100 dram.

Daqui a pouco tem mais posts sobre a Armênia, então acompanha aqui.

blog asdistancias destinos Armenia

 

Deixe uma resposta