Pratello R’Esiste: a festa antifascista de Bologna

Com a extrema-direita em ascensão em tantos lugares no mundo, inclusive na Itália, tem muita gente que parece não lembrar o que aconteceu na segunda guerra. O último ano foi recorde em destruição de monumentos dedicados a resistentes. Em Bologna, famosa como a cidade vermelha da Itália, todo ano uma grande festa é dedicada a lembrar a resistência ao fascismo. O Pratello, a rua mais anticonvencional da cidade, existe e resiste.

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Libertação depois da Segunda Guerra

A Itália começou a Segunda Guerra Mundial com um governo fascista, o de Mussolini, e aliada com a Alemanha Nazista e os outros países do eixo. Eles ocuparam vários países dos Bálcãs e tiveram uma série de derrotas. Enquanto isso, o país passava por privações e bombardeios pesados. Bologna foi umas das cidades bombardeadas pesadamente, e quem anda pelo centro histórico logo percebe as áreas onde os prédios são mais novos, na arquitetura brutalista que ficou comum depois da guerra.

Mussolini foi derrubado, e a Itália foi invadida pela Alemanha, que tentava garantir que eles permanecessem na guerra. Enquanto isso, os aliados desembarcaram na Sicília e movimentos da resistência começavam uma guerra civil pelo país. A resistência conseguiu libertar Bologna no dia 21 de abril. Alguns dias depois, o país todo tinha sido liberado. Hoje, todo 25 de abril, comemora-se o dia do fim da Segunda Guerra.

Um professor meu na faculdade contou que ainda lembrava de ver sobreviventes da resistência que iam a rua do Pratello todo ano para contar as suas histórias. Hoje cabe às gerações mais novas manter a memória viva, e isso costuma ser feito na semana antes do dia 25. Em 2019, um palco foi montado na Piazzeta San Rocco, no fim do Pratello, e por vários dias tivemos eventos como a leitura de cartas de partigiani condenados à morte.

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Pratello R’Esiste

O Pratello é uma parte muito especial de Bologna. Ele já era parte da cidade na época romana, ficou brevemente do lado de fora das primeiras muralhas medievais, quando ficou conhecido como uma zona de prostitutas e assassinos, e depois voltou a fazer parte da cidade e foi coberto de pórticos, os símbolos de Bologna. Ele é conhecido como a rua boêmia, por ser cheio de bares e restaurantes, mas também pelo espírito anárquico e autônomo, como uma cidade dentro da cidade. Durante a Segunda Guerra, era conhecido como um centro de resistência. Nos anos 70, quando a Itália vivia embates entre fascistas e comunistas, foi a sede da Radio Alice, um experimento autônomo de uma rádio sem programação fixa e sem propagandas, na qual se misturavam canções, transmissões sindicais e receitas.

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O Pratello R’Esiste – grafado assim porque mistura Existe e Resiste, em italiano – nasceu apenas em 2007, mas é herdeiro tanto das tradições da Festa da Libertação que já existia quanto desse espírito do Pratello. Para quem mora na zona, é a maior festa do ano. Palcos são montados por toda a rua – esse ano foram sete, com música e intervenções artísticas. Tem muita comida e muito vinho, tanto nos lugares tradicionais, como a massa feita a mão do Pasta Fresca Naldi, quanto barraquinhas montadas para a ocasião. Barraquinhas vendendo produtos independentes ou usados também aparecem na rua inteira.

 

 

 

 

 

 

Outras barraquinhas, na tradição da rua, são mais ativistas. O movimento LGBT, sindicatos e grupos anti-fascistas são presença constante. Esse ano teve presença também do Coletivo Bologna per la Democrazia in Brasile, com brasileiros e italianos, um grupo de capoeira daqui e um retrato da Marielle pintado ao vivo.

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Esse foi um pouco da festa, espero que exista ainda por muitos anos. Como diz a famosa frase de George Santayana que foi colocada nas paredes de Auschwitz: o povo que não se lembra de sua história está condenado a repeti-la.

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