A Petersburgo de Anna Akhmatova

Na movimentada rua Litvenyi, eu já ficaria feliz de descobrir esse jardim secreto. Vê-lo decorado por amantes de poesia, que gravaram nas paredes seus versos preferidos das obras de Anna Akhmatova, já me emocionou na entrada. Atravessando o jardinzinho, a entrada fica na parte de trás do Palácio Sheremetov, a “Casa Fontán” onde viveu essa poeta cuja história se confunde com a da cidade que ela amava, e onde eu visitei o seu museu. Ele é um testemunho de várias épocas – da época aristocrática dos Sheremetov, dos retratos modernistas de Akhmatova, cujas cópias estão espalhadas pelos quartos, da esqualidez da época soviética, quando ele foi dividido como comunalka, um apartamento compartilhado.

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova grafites

CANÇÃO DO ÚLTIMO ENCONTRO

Eu me sentia fria e sem forças

Mas eram ligeiros meus passos

Cheguei a pôr na mão direita

A luva da mão esquerda.

 

Pareciam tantos os degraus;

Mas eu sabia que eram apenas três.

Em meio aos plátanos, o outono

Murmurava: “vem morrer comigo!

 

Fui enganado pelo meu destino

Frágil, volúvel, maligno.”

E respondi: “oh, meu querido,

Eu também… morro contigo.”

 

Esta é a canção do último encontro.

De novo olhei a casa sombria.

No quarto apenas, brilhavam velas

Com um fogo amarelado e indiferente.

Tradução de Lauro Machado Coelho

Anna Akhmatova começou a escrever poesias aos 11 anos e a publicar quando ainda era adolescente. O pai a proibiu de arruinar o nome respeitável de família, então ela escolheu o pseudônimo de Akhmatova. Ela se casou muito nova com o poeta Nikolai Gumiliov, um casamento polêmico ao qual ninguém da família dela foi. Depois eles passaram a lua-de-mel em Paris, onde fizeram amizade com Modigliani, que pintou um quadro dela. Hoje o quadro está no Museu Russo, e uma cópia está no Museu da Akhmatova.

akhmatova modigliani

Akhmatova tinha sido muito influenciada pela poesia de Aleksandr Blok, considerado o maior poeta da Época de Prata da literatura russa, e cuja casa visitei durante a Noite de Museus de Petersburgo. Depois, junto com Gumiliov, Ossip Mandelstam, e outros poetas, ela fundou a corporação de poesia Acmeísta, pregando “clareza apolônia e frenesi dionisíaco”.

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova entrada

LENDO HAMLET

Anna Akhmatova

O cemitério. Inflete um rio anil

À direita, no vazio do terreno

Tu me disseste:

“Vai para um convento!

Ou se queres desposa um imbecil…”

Estas coisas só um príncipe diz,

Discurso que se grava na memória

Por séculos a fio, e que desliza

Manto de zibelina pelas costas

Tradução de Haroldo de Campos

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova 1

Akhmatova logo ficou famosa na Rússia e ganhou uma legião de seguidoras – principalmente mulheres. Ela era uma mulher que escrevia principalmente poemas de amor, e era vista como uma artista menor por causa disso. Lendo a crítica da época, muitos falam que a melhor poeta da época é Marina Tsvetaeva, justamente porque ela teria uma voz mais masculina (a própria Tsvetaeva apreciava muito o trabalho de Akhmatova).

Torcia os dedos sob a manta escura

“Por que está tão pálida?” ele indaga

– Porque eu o fiz beber tanta amargura

Que o deixei bêbado de mágoa

 

Como esquecer? Ele saiu, sem reação

A boca retorcida em agonia…

Desci, correndo, sem tocar o corrimão,

E o encontrei no portão, quando saía.

 

“É tudo brincadeira, por favor,

Não parta, eu morro se você for.”

E ele, com um sorriso frio, isento,

Me disse apenas “não fique ao relento”.

Anna Akhmatova 1911

Tradução de Augusto de Campo

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova fotos de familia

Um de seus poemas mais famosos da época fala da Rússia durante a primeira guerra, e ela promete tudo em sacrifício pela vitória da pátria: o filho, o companheiro, a poesia. Depois, com os eventos trágicos da sua vida, ela freqüentemente voltava a ele, como se aquele a quem ela orou tivesse aceitado seus sacrifícios.

ORAÇÃO

Manda-me amargos anos de doença,

A febre, a insônia, a inquietação,

Leva de mim meu filho, meu amigo

E o dom misterioso de cantar.

Essa é a minha oração durante a Tua Liturgia:

Após as tormentas de tão longos dias,

Que a nuvem que pesou sombria sobre a Rússia

Transforme-se noutra nuvem, de gloriosos raios.

Maio de 1915

Dia do Espírito Santo

Petersburgo

Tradução de Lauro Machado Coelho

Na época da Revolução, o estilo dos acmeístas foi visto como antiquado, burguês, enquanto o dos futuristas era preferido (o que não durou muito). Gumiliov se achava intocável, e fazia críticas frequentes ao regime bolchevique. Ele foi preso, e vários escritores russos fizeram pedidos de clemência diretamente a Lenin. Quando ele assinou, Gumiliov já tinha sido executado. O assassinato dele destruiu os acmeístas, e colocou um estigma sobre Akhmatova, apesar de ela estar casada com outro na época, e sobre o filho de ambos, Lev Gumiliov. Durante anos, foi difícil para eles conseguir dinheiro até para se alimentar – ela chamava esses anos de “os anos vegetarianos”. Lev sempre teve suas tentativas de entrar para a Universidade negadas, por causa dos pais “burgueses”.

 

ANNO DOMINI MCMXXI

Anna Akhmatova

Não estás mais entre os vivos.

Da neve não podes erguer-te

Vinte e oito baionetadas.

Cinco buracos de bala.

 

Amarga camisa nova

Cosi para o meu amado.

Essa terra russa gosta

Gosta do gosto de sangue.

Tradução de Lauro Machado Coelho

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova 2

A imagem de Akhmatova começou a mudar depois do cerco de Petersburgo, quando ela escreveu o Poema sem Herói. Akhmatova passou a maior parte do cerco na cidade sitiada, antes de ser evacuada com outros artistas importantes, como Shostakovitch. Depois ela voltou para o que chamou de um fantasma que fingia ser a sua cidade, e começou a contar sobre essa experiência.

RÉQUIEM

Não, não foi sob um céu estrangeiro,

Nem ao abrigo de asas estrangeiras –

Eu estava bem no meio de meu povo

Lá onde meu povo infelizmente estava.

Tradução de Lauro Machado Coelho

Alguns de seus poemas chegaram a aparecer no Pravda, na imprensa oficial, mas o entusiasmo com ela durou pouco. Em 1945, o filósofo Isaiah Berlin a visitou, e eles passaram a noite discutindo poesia. Os breves encontros entre eles adquiriram um status mítico entre fãs dela, principalmente pelas conseqüências enormes que tiveram depois. Há muito Akhmatova sabia que o apartamento estava grampeado e que ela estava sendo vigiada. E agora, na mente paranóica de quem estava escutando, ela tinha recebido um “espião estrangeiro”. O regime dizia que ela era “meio freira, meio puta”. Ela foi proibida de publicar por 10 anos, expulsa da Associação de Escritores, e a vigilância ficou ainda mais dura.

anna akhmatova
Retrato de Anna Akhmatova de Nathan Altman no Museu Russo

Blok tinha morrido doente, sem conseguir o visto para sair da Rússia e buscar tratamento. Depois o assassinato de Gumiliov, e finalmente o de Mandelstam, morto em um gulag. Os grandes poetas contemporâneos de Akhmatova foram assassinados, e o povo a via de certa forma como viúva de todos os três (embora todos tivessem outras esposas). Seu terceiro marido, o crítico de arte Nikolai Punin também foi repetidamente mandado ao gulag, até morrer lá em 53. O filho dela, Lev Gumiliov, passou a maior parte da vida em prisões e gulags, e muitos acreditam que isso aconteceu justamente para impedir a mãe de publicar mais. Ela começou a publicar poemas de ode a Stalin, o que pode ter impedido a própria deportação.

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova corredor de Lev Gumiliov
Esse corredor do apartamento compartilhado servia como quarto de Lev Gumiliov, quando se mudou para Petersburgo para estudar.

Há dezessete meses choro,

Chamando-te de volta para casa.

Já me atirei aos pés do teu carrasco.

És meu filho e meu terror.

As coisas se confundem para sempre

E não consigo mais distinguir, agora,

Quem a fera, quem o homem,

E quanto terei de esperar até a tua execução.

Só o que me resta são flores empoeiradas

E o tilintar do turíbulo e pegadas

Que levam de lugar nenhum a parte alguma.

E bem nos olhos me olha

Com a ameaça de uma morte próxima,

Uma enorme estrela.

Tradução de Lauro Machado Coelho

 

O Museu conta a história do apartamento, mostra como viviam os seus ocupantes, e fala de forma interessante do Punin, um crítico inovador que era amigo de Malevitch e Tatlin, entre outros. Mas o coração é o Salão Branco, onde objetos que pertenciam a Akhmatova são relacionados a versos, a acontecimentos da sua vida.

Russia Petersburgo casa fonte museu Anna Akhmatova 3

Nos anos seguintes, ela passou por uma reabilitação parcial, e alguns de seus trabalhos chegaram a ser publicados em russo novamente. Lev foi liberado, embora a relação entre os dois tenha continuado a ser difícil para o resto da vida. O ciclo de poemas que ela escreveu sobre as perseguições stalinistas, a grande obra que ela chamou de Réquiem, só chegou a ser publicado depois da morte dela. Em um deles, ela pede que uma estátua sua seja construída em frente à prisão de Kresty, a maior da Europa, onde ela passou tantos dias procurando por notícias do filho.

Petersburgo, estátua de Anna Akhmatova em frente à prisão de Kriesty

E se, nesse país, um dia decidirem

À minha memória erguer um monumento,

 

Eu concordarei com essa honraria,

Desde que não me façam essa estátua

 

Nem à beira do mar, onde nasci –

Meus últimos laços com o mar já se romperam -,

 

Nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,

Onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,

 

Mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horas

Sem que os portões para mim se destrancassem;

 

Porque, mesmo na morte abençoada, tenho medo

De esquecer o som das Marias-Pretas,

 

De esquecer como os odiosos portões estalavam

E como a velha gemia qual animal ferido.

 

Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,

Deixem que corram lágrimas qual neve fundida,

 

Deixem que as pombas da prisão arrulhem na distância,

E que os barcos deslizem em silêncio sobre o Nevá.

 

No lugar de um prefácio

Nos anos terríveis da Iéjovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia alguém me ‘reconheceu’. Aí uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais havia ouvido falar em meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando em meu ouvido (ali todas nós falávamos sussurrando), me perguntou:

– E isso, a senhora pode descrever?

E eu respondi:

– Posso.

Aí uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

Leningrado, 1957

Tradução de Lauro Machado Coelho

A visita maravilhosa ao museu-apartamento de Akhmatova acaba no “Gabinete dos EUA” the Josif Brodski. Ele deixou alguns bens dos seus anos no exílio, após ser salvo da prisão por “parasitismo social” para trás, mas ninguém nunca soube onde colocá-los. Enquanto um museu dedicado a ele não é inaugurado na cidade, e tem um sendo planejado no famoso apartamento dividido sobre o qual ele escreveu em “um quarto e meio”, eles ficam no museu da Akhmatova, a primeira a reconhecer o seu talento.

 

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