O que você precisa saber sobre a Idade Média antes de viajar para a Europa

Na faculdade de história, o professor de História Medieval dedicou a primeira aula da matéria a falar sobre o que a Idade Média não era. A época é tão envolta em concepções erradas que ele achou que era o melhor modo de começar, desafiando as noções que a gente tinha da escola e do cinema.

Aqui eu não tenho nem pretensão nem intenção – e muito menos competência – para escrever um texto acadêmico, e o objetivo do texto é só quebrar algumas idéias e dar informações para quem quer viajar sabendo mais, com base no que aprendi na faculdade. A maior fonte é o texto introdutório da coletânea Idade Média: Cristãos, Bárbaros e Muçulmanos, escrito pelo Umberto Eco.

 

A idade Média não é uma coisa só

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O Palácio de Alhambra em Granda

Nós estamos falando de cerca de mil anos em partes de três continentes. Eles têm bem pouco em comum exceto pelo fato que eles foram julgados pelos humanistas do Renascimento como um parêntesis entre a antiguidade clássica que eles adoravam e os seus próprios tempos. Por isso o Umberto Eco fala que existem muitas “idades médias”.

 

A Idade Média não aconteceu só na Europa

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Palácio de Topkapi em Istambul

Na escola, a gente aprende que o Império Romano se dividiu em Império Romano do Ocidente e do Oriente. Aí a gente praticamente não vê mais o do Oriente, que continua ainda por mil anos, e que tem um intercâmbio cultural enorme com o Ocidente. A Europa se beneficiou muito das traduções de Aristóteles feitas pelos árabes, do seu conhecimento de medicina e matemática, entre outros.

 

A Idade Média não é a Idade das Trevas

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Manuscrito Iluminado na biblioteca do Monastério Strahov em Praga

Nesses chamados tempos sombrios se desenvolveram dezenas de línguas que ainda falamos, foram fundadas as primeiras universidades, textos antigos foram estudados em mosteiros, enquanto eles inventaram a arte dos manuscritos iluminados. Aliás, o amor à cultura clássica estava muito vivo nessa época.

Na Idade Média surgiu Dante, que para muitos é o primeiro escritor moderno. Revoluções aconteceram na agricultura, na navegação, nas artes e ofícios.

 

As pessoas da Idade Média não achavam que a terra era plana

As pessoas não achavam que iam cair da terra – sabia-se que o mundo era esférico desde o tempo de Pitágoras. Vários escritores da época falam sobre isso. Quando Dante entra em um buraco na terra e sai pelo outro lado, vendo estrelas desconhecidas, temos que assumir que tanto ele quanto seus leitores sabiam que a terra não era plana.

 

A Idade Média não é cinza

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Vitrais refletidos em Saint Malo

Durante a Idade Média, beleza era identificada com luz e com cor. Lendo romances de ficção histórica, lemos descrições sobre trajes sempre muito coloridos e misturados. Entrando em uma igreja, vemos vitrais que refletem as cores por todos os lados, afrescos e pinturas vívidos. Não dá para achar que era uma época cinza.

 

A Idade Média não é a época dos castelos estilo Disney

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Um castelo de contos de fada (e que inspirou o da Bela Adormecida da Disney) em Segovia, na Espanha

Umberto Eco diz sem rodeios que na Idade Média não existiam castelos fabulosos, e que a maioria dos que a gente vê foram construídos bem depois em nome de um ideal romântico. Os fossos, as pontes levadiças, as muralhas de pedra sobre as quais passavam arqueiros, tudo isso surgiu de uma evolução lenta, e por isso não existia na maior parte do período.

 

A Idade Média não era séria e rígida

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Catedral de Salisbury, na Inglaterra

Foi na Idade Média que foi inventado o carnaval, a época em que era permitido se comportar fora das regras. Também é uma época com muito senso de humor, e de um tipo que a gente não imagina. Chaucer e Rabelais, considerados alguns dos escritores mais importantes das línguas inglesa e francesa, são cheios de piadas de peido.

 

A Idade Média não é a época em que as mulheres se casavam com doze anos e depois ficavam trancadas em casa

Até porque, para início de conversa, isso sempre foi uma questão de classe. Mulher pobre sempre teve que trabalhar fora. Mas mesmo para as mulheres de classes altas, a imagem que a gente tem não corresponde à realidade. Mulheres podiam se casar a partir dos doze anos na maior parte da Europa, mas isso não quer dizer que isso acontecesse frequentemente. Pesquisas recentes colocam a idade média de casamentos para mulheres no século XV em torno dos dezoito anos. Outras colocam ainda acima. As mulheres nobres geralmente se casavam mais cedo, mas eram uma pequena minoria e não a regra.

Nos conventos, as abadessas tinham grande poder e em algumas regiões eram as governantes de facto de suas terras. Catarina de Siena, uma freira dominicana, foi tão importante para estabelecer paz entre as cidades-estado italianas que depois de tornou uma das padroeiras da Itália. Hildegard de Bingen escrevia textos de botânica e medicina que foram influentes na Alemanha.

Isso não é para dizer que a situação era ótima – ainda não é, imagina tantos anos atrás – mas para dizer que era diferente do que a gente imagina.

 

A Idade Média não é uma época puritana em que as pessoas transavam entre um lençol

Sexo sempre existiu, e era um assunto bem menos tabu na Idade Média do que em algumas épocas posteriores. Métodos contraceptivos também existiam, aborto existia, brinquedinhos existiam, casar grávida existia. Aceitem: a gente não inventou nada.

 

A Idade Média não é A época em que bruxas e hereges eram queimadas na fogueira

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Estátua de Giordano Bruno no Campo dei Fiori

A maioria das queimas de bruxas aconteceu na Idade Moderna. Aliás, a Inquisição Espanhola foi fundada quase no final da Idade Média, e teve seu apogeu na Idade Moderna. Em 1728 temos o registro de 45 mouros queimados vivos. A última pessoa executada por eles foi Cayetano Ripoll, por ter idéias deístas, em 1826 – ou seja, em plena Idade Contemporânea, 37 anos depois da Revolução Francesa.

 

A Idade Média não é a época da Dama de Ferro, do Direito da Primeira Noite nem do Cinto de Castidade

Não existe nenhuma evidência histórica de que nada disso existiu. O Direito de Primeira Noite só é citado em fontes em que alguém estava tentando levantar a população contra um soberano (e a primeira menção é no Épico de Gilgamesh, dois milênios antes da Idade Média começar). Não que os senhores precisassem de uma desculpa para estuprar as servas, é só ler Alias Grace para ver o quanto isso era comum até pouco tempo atrás. Mas, apesar do que O Casamento de Figaro nos diz, a lei não existia. Cintos de Castidade e Damas de Ferro parecem ter sido inventados como atrações séculos depois, em feiras itinerantes que mostravam como os medievais eram bárbaros. Aliás, a maioria dos instrumentos que a gente vê em “Museus da Tortura” surgiu aí, ou eram na verdade completamente inócuos. A “pera da angústia” que seria aberta em cavidades internas das pessoas era mais provavelmente um alargador de sapatos.

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