Volta ao Mundo em Livros – Romênia: Tudo o que Tenho Levo Comigo

Quando um país tem uma escritora super aclamada e premiada (inclusive com um Nobel), é difícil escolher a tentação de escolhê-la. E foi assim que eu nem pensei duas vezes antes de escolher a Herta Müller como representante da Romênia no projeto.

O romance escolhido foi Tudo o que Tenho Levo Comigo, que fala de um dos crimes de guerra menos conhecidos da Segunda Guerra. Quando a Alemanha foi derrotada, muitos alemães étnicos que viviam em países do Leste Europeu e da Europa Central foram assassinados, expulsos ou fugiram com medo de retaliações. A estimativa varia muito, geralmente se diz que foram entre 500 mil e 2 milhões de refugiados. Em alguns desses países, a idéia era que eles deviam ser “etnicamente homogêneos” [sic], de que uma minoria alemã poderia trazer problemas, ou mesmo de que eles tinham que pagar pelas atrocidades nazistas. Um pequeno número dessas pessoas tinha participado ou se beneficiado das invasões nazistas, mas a maioria das pessoas eram civis que não tinham nada a ver com a história. Alguns eram judeus, muitos eram crianças.

Em vários países, principalmente na União Soviética, mas também na França, nos Estados Unidos e na Inglaterra, a população alemã foi colocada em campos de trabalhos forçados. Na Romênia, foram levados todos os de etnia alemã entre 17 e 45 anos, cerca de 67 mil pessoas.

Herta Müller é parte dessa minoria, e sua mãe foi internada em um desses campos, sobre o qual ela nunca falou. A autora escreveu Tudo o que Tenho Levo Comigo baseada nas experiências de um amigo, Oscar Pastior. Originalmente, o plano era escrever o livro a quatro mãos, mas, após a morte dele, ela resolveu continuar sozinha. O romance conta a história de Leo Auberg, um jovem de dezessete anos que é mandado para um campo soviético por cinco anos. A condenação, com a qual os pais dele se desesperam, é quase bem vinda por ele: ele é homossexual em um país em que isso é um crime, e quer ser mandado para um lugar bem longe, que ele não conhece.

No campo, ele se encontra em meio ao horror, a desumanidade, a torturas. Para não esquecer, ele se apega às palavras, e transforma tudo ao seu redor em personagens. A fome é o Anjo da Fome, que rodeia todos, mas com o qual é possível negociar. um movimento de pá, ele imagina, será um grama de pão.

O livro tem imagens fortes. Tem uma mulher que se afoga em cal, uma echarpe trocada por 273 batatas, a mulher que enlouquece e lustra os sapatos do comandante mesmo depois que ele pisa em suas mãos, dos pedaços de pão trocados dezenas de vezes porque o do vizinho sempre parecia um pouco maior.

Quando eles voltam para casa, vemos como as deportações em massa se tornaram um trauma coletivo. Eles voltam para pais que mal os reconhecem, para amigos que não querem ouvir o que aconteceu, em um país agora sob o comunismo.

Gostei muito de conhecer mais sobre essa história e principalmente da linguagem da autora, tão original que dá vontade de aprender alemão para ler seus outros livros.

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