Como foi estudar na Universidade de Bologna durante meu intercâmbio

Já escrevi alguns posts sobre como foi para mim a experiência de morar em Bologna, mas queria escrever um focando sobre como é estudar na Universidade de Bologna. Muitas coisas me chamaram a atenção lá, e acho que notar essas diferenças e refletir sobre como é diferente ser estudante aqui foi um dos grandes benefícios que tive no intercâmbio.

 

Mensalidades

Conversar com pessoas de outros países sempre me faz pensar que privilégio é estudar em uma instituição que não cobra mensalidades. A UFMG tem mil defeitos, inclusive de o vestibular acabar excluindo muita gente que não teve condições de estudar em uma escola privada. Mas o problema de universidade ser elitista existe em muitos lugares e não é exclusividade nossa. Conversei com muitos alunos dos EUA que começam a vida devendo meio milhão de dólares e eles não acreditam quando eu falo que no Brasil você pode estudar de graça nas melhores universidades do país. Embora nosso modelo de universidade precise ser mais inclusivo, também temos que reconhecer que já temos algo que estudantes no mundo todo lutam para conseguir. Na Itália, as anualidades não são completamente inacessíveis para quem mora lá e ganha em euro, e a maioria das pessoas consegue alguma redução ou bolsa da universidade, mas isso é baseado tanto em necessidade quanto mérito, e eles tem que levar vários documentos e cumprir muita burocracia para conseguir isso.

 

Aulas

Eu acho os estudantes na Itália em média menos picaretas do que os meus coleas no Brasil. Pouquíssimas vezes vi alguém que estava fazendo outra coisa durante a aula. Quando chega na prova, todo mundo lê o material obrigatório, mesmo quando um professor pede que você leia mil páginas só para a matéria dele. Eles gravam todas as aulas (com a permissão dos professores) e muitas vezes as pessoas se juntam para fazer transcrições de todas as aulas para estudar para a prova. Já recebi uma transcrição assim que tinha 230 páginas, e o povo realmente a usa para estudar. Freqüentemente vejo gente pedindo bibliografia extra, ou porque eles sentem que estão para trás no básico do curso ou para entender algo melhor.

Mas eles também tem oportunidades que não temos, como a possibilidade de fazer a prova como não-frequentante. Você pode fazer a prova final do curso como aluno frequentante, o que significa que você foi em 70% das aulas e cumpriu alguns requisitos, como entregar resumos de textos toda semana ou fazer uma apresentação em sala, ou como não-frequentante. Geralmente você tem uma carga de leitura maior, mas acho uma ótima opção. Se você acha que o método didático de um professor simplesmente não funciona para você, ou se você quer pegar uma matéria mas tem um compromisso e sabe que não vai poder assistir todas as aulas, tem uma opção. 

 

Infra-estrutura

A diferença de infra-estrutura é enorme. As bibliotecas tem uma quantidade enorme de livros, inclusive muitos livros novos, e são divididas em diversos prédios. Só no meu prédio, onde ficam algumas das bibliotecas do Departamento de história, tem 350 mil livros. Temos acesso ainda a todas as bibliotecas públicas da cidade, totalizando mais de 4 milhões de livros, 1500 subscrições para revistas e nem sei quantos ebooks, que ainda funcionam direitinho no meu kobo. E podemos ainda pedir o empréstimo entre departamentos. Todas as salas tem computadores e projetores. E elas tem aquecimento e ar condicionado. Na Fafich tem sala que não tem nem ventilador, o que torna impossível prestar atenção na aula com um calor de mais de trinta graus.

Na início do meu semestre em Bologna, as salas estavam tão lotadas que muita gente tinha que se sentar no chão. Isso porque você pode adicionar ou largar qualquer curso a qualquer momento, então muita gente se matricula em várias matérias para escolher as que compensam.  Isso lá é normal e encorajado, e acho interessante apesar desse incômodo no início das aulas.

 

Provas

As provas funcionam de uma forma muito diferente do Brasil. Para começo de conversa, você tem um período de muita aula, de ter a mesma matéria seis horas por semana, e depois tem o período de provas, em que não tem mais aulas. Nos meses seguintes a ter a matéria, o professor tem que te dar pelo menos três opções de datas para fazer a prova, e você pode escolher aquela que quiser. No final, o professor vai te dar a nota e perguntar se você aceita ou não. Se era menos do que você acha que dá conta de fazer, você pode não aceitar e fazer a prova de novo. Não fica nenhum registro de quantas vezes você fez a prova. No entanto, significa que as médias são altas. No meu mestrado em história, muita gente não aceita nenhuma nota abaixo de 28 em 30, e eles consideram que uma boa média para manter é 29,2.

Se você não terminar as provas, não tem problema. Uma matéria não fica registrada até você passar na prova, e você pode fazê-la quando quiser. Tem gente com quem converso que já tá quase formando, mas deve uma prova do primeiro semestre. É só ir lá quando o professor colocar uma data online e fazer.

A maioria das provas na Unibo é oral. Isso era muito estranho para mim, mas muitos alunos com quem conversei sobre isso aprovavam, porque achavam que te preparava para falar em público e apresentar uma tese, ou porque você pode ver a reação do professor na hora e se corrigir. Outros reclamavam que sentiam falta de treinar a escrita  e preferiam ter que entregar trabalhos. A idéia é que você deve ser capaz de discutir o texto e relacionar com o que você aprendeu em sala. A maioria dos professores quer que você faça conexões no material, e você vai bem. Outros tem fama de ser mais decoreba, mas no final acho muito semelhante a fazer uma prova escrita – se vai ser uma prova inteligente ou não, depende do professor.

 

 

Comunidade Internacional

Bologna é a cidade italiana que mais recebe estudantes estrangeiros de intercâmbio, então era difícil pegar uma matéria que não tivesse gente de vários países. Também existiam matérias ofertadas em várias línguas, o que eles estão tentando expandir. Eles querem começar a ofertar mais programas de mestrado e doutorado inteiramente em inglês.

Meus professores passaram alguns livros de história cujos originais eram em inglês ou francês, e, em todos esses casos, eu encontrei livros na língua original na biblioteca. Achei isso fundamental e algo que falta nas universidades brasileiras, onde lemos traduções. Alguns dos meus professores reclamam de como traduções são mal-feitas e alguns trechos de textos importantes acabam falando o contrário do que deveriam, mas ainda assim só costumamos ter acesso ao original quando o professor manda um pdf.

 

Aproveitar a cidade

Uma das grandes vantagens de estudar em Bologna é a facilidade em aproveitar a cidade. Se você mora razoalmente perto do centro, você vai andar para todo lado, e como eu sinto falta de andar 15, 20 minutos para a aula ao invés de perder três horas no ônibus todo dia.

E sempre tem algo de graça rolando em Bologna. Além disso, alunos da universidade tem entrada gratuita no Museo Archeologico, no Museo di Arte Moderna, no Museo Medievale, no Palazzo Pubblico, na Pinacoteca Nazionali, nas Collezioni Comunalli di Arte, na Casa Morandi, no Museo della Musica, no Museo Civico d’Arte Industriale, no Museo per la Memoria di Ustica, além de descontos no Museo di Storia di Bologna e os geralmente já gratuitos Biblioteca Salaborsa e Museo della Specola.

 

Formatura

Por fim, queria falar da formatura porque achei os hábitos dos alunos aqui bem divertidos. Quando os alunos se formam, eles usam coroas de louros na cabeça (o verbo para se formar é laurearsi), e muitas vezes vão fazer trotes pela cidade. Os amigos deles também costumam colocar fotos deles nos muros da universidade com mensagens bem humoradas. E quando eles passam todo mundo canta “Dottore, dottore del buco del cul, vaffancul vaffancul” (“doutor, doutor de buraco do cu, vai tomar no cu, vai tomar no cu”).

Clique na imagem para ler outros posts sobre estudar na Universidade de Bologna

Asdistancias blog tag unibo universidade de bologna 2

15 comentários

    1. Julia Boechat

      Oi, Angélica. Fiz o ib2, o seguro para contribuintes do INSS, que depois registrei aqui. Nunca precisei usar, mas sei que é o que muita gente faz para vir para cá

  1. Aglaia

    Oi, adorei os seus comentários. Somos um país de picaretas mesmo, onde todo mundo, aluno e professor, acha bonito fazer o mínimo possível. 5 a 9 livros para ler por matéria? Aqui o professor ia ser tachado de em noção e a maioria dos alunos nem pensaria em ler.

    1. Julia Boechat

      Oi, Larissa, tudo bem? Fui pela UFMG, no programa de intercâmbio da faculdade. Se é o seu caso, melhor olhar com sua universidade. Se não, olha no site da Unibo os processos seletivos de graduação e mestrado, vai ter toda a informação lá.
      Boa sorte!

Deixe uma resposta