Minha experiência com um hammam público no Marrocos

Cada bairro de uma cidade marroquina deve ter cinco instituições: uma mesquita, uma escola, uma fonte pública, um forno de pão comunal e um hammam. O hammam era uma necessidade quando a maioria das casas não tinha água quente, mas ainda é um lugar fundamental para higiene e socialização na cultura marroquina. 

Em alguns guias, eu via hammams sendo comparados a spas, e realmente existem os hammams mais chiques, feitos para turistas ocidentais, que parecem muito com nossas spas. Eu queria tentar algo mais local e mais condizente com meu orçamento de mochileira, e por isso procurei na internet informações sobre hammams públicos, que  atendem quem mora no bairro. Li várias experiências, e achei que o Hammam Mouassine parecia um bom lugar para tentar. Ele é o mais antigo da medina de Marrakech, construído do lado da mesquita do mesmo nome e com entradas para homens e mulheres dos dois lados da fonte de Mouassine.

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Como parece ser a regra nos hammams públicos, eles têm uma opção de só pagar para usar as instalações, o que custa 10 dirhams (1 euro). Aí a regra é que você traz o que for usar. O normal é trazer sabão negro beldi, de azeite, uma esponja mega esfoliante (kess), shampoo e condicionador, toalha e chinelos. Em alguns lugares também é bom levar baldes para a água e algo em que se deitar. Tinha algumas lojinhas de souvenirs perto vendendo tudo isso em “kits hammam” bem práticos, ou dá para comprar o sabão e a esponja em farmácias. Pelo que me falaram, a maioria das pessoas vai com amigas, tanto para uma esfregar as costas da outra, quanto porque é algo social, onde muita gente gosta de comentar o dia. 

Como eu não ia ter muita certeza do que eu estava fazendo, preferi um plano em que dava para contratar uma funcionária do hammam para me ajudar. Eu entrei no Mouassine, e a moça imediatamente me deu um folheto com várias opções em inglês e francês. Peguei a opção com sabão negro, esfoliação, argila (rhassoul), e massagem com óleo de argan. Só a esfoliação custava 150 dirhams (15 euros) e a massagem de 30 minutos custava o mesmo tanto, mas tinha um combo com os dois por 250 dirhams (25 euros). Eles também tinham opções com henna e outros tipos de massagem, e dá para checar tudo no site oficial.

Tudo combinado, a moça da recepção me apresentou para outra, que ia cuidar de mim, e essa segunda moça me levou para uma salinha. Ela me deu uma cesta grande de palha, uma toalha e chinelos, falou em francês para eu tirar a roupa e saiu, e eu, na dúvida, tirei tudo e me envolvi na toalha. Ela me levou para uma sala aquecida, colocou a toalha no chão e mandou que eu me deitasse em cima, e foi levar a cesta com meus pertences para a recepção. Quem estiver lá fica de olho nos seus pertences, então pense nisso antes de decidir se você vai levar itens de valor mais alto ou o passaporte. Na hora notei que quase todas as mulheres também estavam nuas, o que foi o primeiro alívio de não ter feito merda, já que alguns lugares que eu tinha lido falavam que era para tirar tudo e outros que não era. Mas parece que na parte feminina é normal tirar tudo ou manter só a calcinha, como você preferir. A moça voltou logo depois, bem menos vestida e carregando três baldes de água. Ela mandou que eu me deitasse e começou a jogar água quente em mim, e depois me lavou com o sabão negro de azeite. Ela me deixou uns quinze minutos assim, para a pele absorver o sabão, e depois me enxaguou com mais uma baldada de água quente. Depois ela pegou a esponja e começou a me esfregar. É uma experiência estranha para gente adulta, ter uma mulher te mandando virar, levantar o braço, a perna, e esfregando até a sua bunda. É ainda mais estranho ver o tanto de sujeira que sai – eu já tinha passado por isso na Turquia, mas não dá para não pensar “mas eu tomo banho todo dia, como isso é possível” quando você vê. Dizem que essa esfoliação acaba com qualquer bronzeado e que não é para fazer em tatuagens novas.

Depois da esfregação, ela me cobriu toda de argila (rhassoul) e me deixou relaxando. Tinha um vidrinho passando de mãos em mãos entre as pessoas do banho e uma mulher me passou e disse “argan”. Eu já tinha visto que todo mundo tava passando nas mãos e no rosto e imitei, mas uma menina levantou de onde ela estava só para me perguntar de onde eu era e se óleo de Argan era famoso no meu país.

Finalmente, a moça voltou, abriu um sachezinho, e começou a lavar meu cabelo. Depois de mais alguns baldes para me enxaguar, ela me cobriu com a toalha e me levou para uma outra sala, menos quente, onde era para eu esperar pela massagem.

Outra moça veio me buscar, e me levou para uma salinha privada onde ela me massageou. A massagem também é bem sem frescura. No Brasil, nas poucas vezes em que tentei, vi que eles se concentram nas costas e coxas. No Marrocos, eles massagearam minha barriga, minha bunda, minha cara, meu coro cabeludo, tudo com muito óleo de argan. Depois a moça me cobriu de toalhas e foi embora sem dizer nada, e eu fiquei na dúvida se tinha acabado, mas pensei que ela só estava me dando tempo para voltar à vida na minha própria velocidade. Lembrei da Turquia de novo, em que eles me cobriram de toalhas e me deixaram tomando chazinho. Então fiquei lá curtindo o tempo e me levantei quando quis. Imediatamente, a moça voltou e me deu meu cesto, eu me vesti e, quando saí, ela já estava me esperando com o chá. 

marrocos marrakech jardin secret medina 1

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Tudo isso demorou umas três horas, o que é bem normal no Marrocos. Como o hammam deve ser relaxante, eles não te apressam, e muitas pessoas passam horas e horas lá. Eu saí de lá me sentindo uma santa ungida, brilhando da quantidade de óleo no meu corpo e no meu cabelo. A tentação era ir direto para outro banho, mas resolvi ir para um jardim lá perto, o Jardin Secret, e sentar para curtir o solzinho de inverno, esperar absorver tudo como tinha feito com o sabonete. Eu estava me sentindo leve e minha pele estava muito macia, mas meio mole também, com vontade de não fazer nada o resto do dia, então o jardim foi a idéia perfeita.

Esse foi meu dia relaxante no Marrocos.

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