Uma Noite no Deserto do Saara: uma armadilha para turistas, mas valeu a pena

Depois de um dia inteiro dirigindo com o motorista dizendo que nós tínhamos demorado demais no vale Tonda e íamos perder o pôr-do-sol no deserto, nós chegamos a Merzouga, a porta de entrada do Saara, com tempo de sobra. O que foi fundamental, já que nos fizeram esperar os camelos por 40 minutos. Eu estava no Saara com um tour organizado saindo de Ouarzazate, e essa foi uma constante: eles nos apressavam e depois chegavam atrasados.

Saara Marrocos andando nas dunas

Os camelos finalmente chegaram, e nós já estávamos preparados com nossos lenços enrolados como turbantes, porque tem horas que o kitsch faz parte.

Saara Marrocos turbantes camelo

Saara Marrocos camelos

Tinha sido legal tirar fotos com os camelos que estavam esperando na areia, andar neles não foi uma experiência tão positiva. Para começar, tinham nos prometido duas horas andando nos camelos até a gente estar realmente longe de tudo, em uma vila bérbere, e na verdade o passeio foi de vinte minutos. Era só subir uma duna que dava para ver a cidade, então a sensação romântica de estar isolado que muita gente estava esperando dependia de um pouco de cegueira voluntária. Mas a pior parte é que eles estavam batendo nos camelos para que eles nos deixassem subir e depois de novo para que eles nos deixassem descer. Tiveram que bater tanto no meu na chegada no acampamento que ele meio que desabou, e o camelo atrás, que estava amarrado a ele com rédea curta, gritou de dor. Essa parte de andar neles foi bem triste, e eu já não queria andar neles na volta.

Saara Marrocos passeio nos camelos 2

Saara Marrocos passeio nos camelos 1

Nós chegamos ao acampamento, que para a minha felicidade tinha até um banheiro com água corrente, e fomos direto para as dunas para ver o pôr do sol.

Saara Marrocos acampamento no deserto

Saara Marrocos dunas por do sol

Saara Marrocos por do sol nas dunas 2

Depois tivemos o jantar, em que eles nos separaram em várias mesas entre os vegetarianos e os não-vegetarianos. A comida era tagine de legumes, alguns deles com frango também, e nós comemos à moda dos bérberes: sem talheres, usando a mão direita (a esquerda é usada para higiene na cultura muçulmana) para pegar os legumes com um pedaço de pão.

Depois nos prometeram que teríamos música em torno da fogueira, o que foi o que aconteceu. Só que eles não tinham mencionado que seria principalmente Shakira. Os guias pediam para as pessoas tocarem músicas de seus países, especialmente os que estavam em grandes grupos. Um deles chegou perto de mim e perguntou se eu queria aprender a tocar o tambor, eu disse que não obrigada, e ele me perguntou de onde eu era e se era minha primeira vez na África, e imediatamente começou a passar a mão na minha coxa. Eu tirei a perna e ele começou de novo, então eu levantei e fui sentar em outro lugar, mas vi que a maioria dos guias estava fazendo a mesma “rotina” com as outras meninas que estavam viajando sozinhas. Eles chegavam falando “Africaaa, Africaaa”, prometiam ensinar a tocar os tambores  e imediatamente começavam a passar a mão.

Saara Marrocos fogueira noite

Saara Marrocos fogueira

A maioria das pessoas do meu grupo foi se deitar cedo e com as roupas que estávamos usando, exceto por alguns heróis que colocaram pijamas. Nós só recebemos um cobertor cada e estava um gelo, então eu dormi com meu casaco de inverno, inclusive com o capuz cobrindo meu rosto. Achei bom que estávamos todos juntos que pelo menos dava um calor humano. Foi bom que eu estava preparada – teve gente que nem estava pensando em ir para o deserto e tinha levado apenas um suéter, e não sei como eles não congelaram. Mesmo com o frio, um dos melhores momentos do dia foi quando eu acordei para ir ao banheiro no meio da noite, e fiquei impressionada com o céu coberto de estrelas como eu nunca vi antes. Eu fiquei lá por alguns minutos antes de voltar correndo para escapar do frio, e nem tirei fotos porque já custo para tirar fotos de noite e sei que elas não fariam justiça ao que eu estava vendo. Mas só aquela visão já faria o tour inteiro valer a pena.

Eles nos acordaram às seis, e o céu ainda estava estrelado quando começaram a colocar as pessoas nos camelos. Eu e uma menina tínhamos ficado impressionadas com a experiência ruim do dia anterior e decidimos voltar andando. Logo dois caras se juntaram a nós: um porque o camelo dele se recusou a andar, e outro porque o camelo dele caiu de lado em cima da sua perna, e ele ficou bem assustado dizendo que a perna dele poderia ter quebrado, mas o guia só disse “você está bem, você anda”. Outras pessoas nos disseram que tinham se sentido pressionadas a voltar no camelo para não criar caso, mas se tivessem visto que tinha gente andando, teriam feito o mesmo. Só quero dizer que minha experiência com os camelos não foi a experiência da maioria das pessoas que conheci no Marrocos, e o dono do meu albergue em Fez, que costumava organizar esses passeios, disse que parecia, pelo que eu contei, que eles pegaram de última hora camelos que não estavam acostumados com aquele trajeto e nem com uns aos outros. O que faz sentido, já que tivemos que esperar por eles.

Saara Marrocos andando de camelo de manhã

Nós chegamos em um hotel onde eles estavam servindo café para vários tous diferentes, e o sol ainda nem tinha nascido. Não vimos o nascer do sol no deserto, e foi outra promessa quebrada que decepcionou muita gente. No final, eles pediram gorjetas, e quase ninguém deu nada.

Estou contando uma sucessão de falhas e abusos, mas ainda assim achei que valeu a pena por três motivos: porque o lugar é incrível, porque tive sorte com meu grupo e conheci pessoas maravilhosas, e porque o tipo de viagem independente que eu geralmente curto não se adequa ao deserto e eu não tinha como pagar um tour mais privado. Era o que tinha, e nesse ponto valeu a pena. Mas tudo que dependia dos operadores foi ruim (e vou contar mais sobre o tour de três dias e duas noites no próximo post, inclusive sobre como eles esqueceram um casal no deserto).

Saara Marrocos grupo

Saara Marrocos crew

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