Volta ao Mundo em Filmes – Estados Unidos: The Florida Project

Muitos filmes tentam mostrar o lado B do sonho americano. O racismo, a herança da escravidão, a exclusão dos direitos civis, a pobreza. Mas se o filme quer ganhar Oscars, tem que seguir uma receita. Quando esses filmes mostram uma pessoa pobre, tem que mostrar alguém que está sofrendo muito e que está lutando pelo privilégio de deixar de ser pobre. Mesmo se a pessoa é mostrada cometendo erros e crimes, ela tem que se arrepender, ter uma conversa profunda em que ela conta um momento da vida que a torna simpática para a audiência.

The Florida Project, de Sean Baker, meu filme escolhido para representar os Estados Unidos, é bem diferente. Ele se passa em um motel barato perto da Disney, onde famílias se amontoam em quartos pequenos e de tempos em tempos tem que passar uma noite em outro lugar para que eles não obtenham direitos de residência. Os prédios são pintados em cores berrantes e tem nomes chamativos: Magic Castle, Futureland. O nome original da Disney, nos projetos de Walt Disney, era The Florida Project, mas para as pessoas que moram por lá, o nome lembra mais os projects, as residências de assistência pública. É bem distante do sonho americano, como nos lembra o casal de turistas brasileiros que chega lá perdido, achando que tinha alugado um hotel dentro do Magic Kingdom para passar a lua-de-mel.

A história é contada pela perspectiva de Moonee (Brooklynn Prince), uma menina de seis anos que passa as férias de verão vagando pelas ruas, pedindo dinheiro de turistas para comprar sorvete e entrando em prédios abandonados. Quando ela faz uma amiga nova, Jancey (Valeria Cotto), Moonee a leva para o condomínio mostrando os quartos “o cara que mora aqui vai preso o tempo todo”. O filme na perspectiva das crianças tem momentos de genuína beleza – como tudo pode se transformar em uma aventura, e vacas pastando em um dia de chuva vira um safari.

A mãe de Moonee, Haley (Bria Vinaite), acabou de ser demitida e passa de um esquema para o outro, geralmente vendendo perfume falso no estacionamento de hotéis, e cada dia tem mais dificuldades em conseguir os 35 dólares necessários para pagar o quarto pela noite. Outro personagem importante é o gerente do hotel, Bobby (Willem Dafoe), que tenta manter o hotel funcionando e implementar as regras, mas que também obviamente quer proteger as crianças que vivem no hotel.

É um retrato de pessoas vivendo na pobreza sem romantização, sem fetichização, sem confissões no meio da noite no estilo “eu sei que ela merece uma mãe melhor, e eu vou ser essa pessoa”, sem interesses amorosos só para constar. Por isso quando o filme quebra o estilo para uma cena final, filmada clandestinamente em um celular porque eles não tinham as permissões, ela fica na memória.

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