O Museu Judaico de Tallinn – conheça a história do primeiro país a ser declarado livre de judeus na Segunda Guerra

Quando eu estava planejando minha viagem para a Estônia, uma das primeiras coisas que procurei foi por um Museu do Holocausto para visitar. Eu estudo História Contemporânea, e, para o bem ou para o mal, a primeira informação que me vem à cabeça quando penso no país é que ele chegou a ser declarado pelos nazistas como judenfrei, livre de judeus. Ou seja, existiu um ponto em que absolutamente todos os judeus da Estônia tinham sido mortos, fugido, ou, com sabemos hoje em dia, estavam escondidos.

Então, você pode perguntar, como foi minha visita ao Museu do Holocausto de Tallinn? Não foi, porque eles não tem um museu dedicado a isso especificamente. Procurando online, achei dois que poderiam contar um pouco da história, um Museu das Ocupações e um Museu Judaico. O nome no plural do Museu das Ocupações me assustou. Seria outro museu bizarro que tenta colocar a Teoria dos Dois Demônios para minimizar o Holocausto? Pensei na minha experiência na Casa do Terror em Budapeste, ou no Museu dos Genocídios de Vilnius, que no início nem mencionava o Holocausto e ganhou o apelido entre historiadores de Museu do Negacionismo. Pelo que pude achar online, era da mesma laia, reduzindo o Holocausto a um parágrafo. Resolvi visitar o Museu Judaico.

Tallinn estonia museu judaico holocausto judenfrei 1

Como é comum nos museus judaicos, tive que tocar o interfone e passar pela segurança para poder entrar, já que eles são alvos de constante ameaça. Mas assim que passei fui muito bem recebida com um alegre Shabbat Shalom. O guarda não falava inglês, e me indicou em russo o museu, e me disse para eu não esquecer de passar pela sinagoga na saída.

O Museu é pequeno, com alguns objetos e descrições. Peguei o audioguide em inglês em busca de mais informações, e ele lia o que estava no cartaz, não tinha muita graça. Mas aí a guia veio falar comigo, e vi que essa era a parte que mais valia a pena no museu. Ela era extraordinariamente culta e estava feliz em contar mais sobre a época e responder minhas dúvidas. Pelo que conversei com outros, todos os guias parecem ser ótimos, e eles pretendem remodelar o museu em breve para ter mais informações em inglês e dar mais destaque ao Holocausto no país.

Tallinn estonia museu judaico holocausto judenfrei 2

Depois da visita, realmente fui visitar a Sinagoga. Lá eles me contaram que todas as sinagogas do país foram destruídas durante o Holocausto. Durante mais de cinquenta anos, eles foram o único país da Europa sem nenhuma sinagoga. Como diz o historiador Tony Judt, o reconhecimento do Holocausto é a porta de entrada da Europa. Tava feio não lembrar o que aconteceu no país e ficar tentando entrar na União Européia, então eles fizeram algumas iniciativas e construíram essa Sinagoga.

Tallinn sinagoga 1

Tallinn sinagoga 2

Não me entendam mal, tô muito feliz que esse museu e essa sinagoga existam. O trabalho histórico feito nesse museu é celebrado pela qualidade. Mas noto que nenhum dos dois estava em nenhum dos mil mapas turísticos que recebi. Que a maioria das pessoas com quem conversei não sabia que eles existiam. Que todo mundo no Museu Judaico presumiu que eu fosse judia e talvez tivesse até antepassados que morreram lá, o que indica que visitantes a Tallinn que não são judeus perdem esse museu e essa história.

Todos nós temos o dever de aprender com o Holocausto, e por isso um museu em um lugar tão cheio de significado deveria ser amplamente visitado. Queria ver filas na porta comparáveis ao Museu da Anne Frank em Amsterdam. Quero que esse museu receba grandes recursos e esteja em todos os mapas turísticos. E quero que vários museus falem do Holocausto, que não é nem mencionado no Museu de História da Estônia, e falem sem colocar depois “ah, mas os soviéticos”, como o Museu das Ocupações. Os crimes dos soviéticos são imensos e devem ser lembrados, mas ficar sempre nesse pissing contest de quem é A vítima é um desserviço a todos. Não precisa ser Holocausto ou Gulag, dá para lembrar um sem fazer pouco do outro. 

Já me declaro por satisfeita se mais gente visitar esse ótimo museu e sinagoga, e aprender um pouco mais dessa história que nós todos temos a responsabilidade de ouvir.

 

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