Volta ao Mundo em Livros – Croácia: Belladonna

A Croácia foi uma escolha difícil, já que tive várias recomendações que pareciam boas. Mas as descrições de Belladonna, de Daša Drndić, foram as que mais me chamaram a atenção, especialmente como o livro aborda o tema da memória e as comparações com minha obsessão dos últimos anos, Elena Ferrante.

Belladonna conta a história de Andreas Ban, um “psychologist who does not psychologize any more”, um acadêmico forçado a se aposentar e cujo corpo agora está se desintegrando. Ele continuamente ouve que ele tem a coluna de um homem de oitenta anos, e está combatendo um câncer de mama.

O corpo que se desintegra ecoa na memória fragmentária, em histórias que misturam a vida de Ban e a história da Europa na Segunda Guerra. Durante o Holocausto, o grupo pro-fascista dos Ustaše estava no poder na Croácia, onde cometeram várias atrocidades, e os outros países da Iugoslávia foram ocupados pela Alemanha e pela Itália.

“Many people still wiggle out with the defensive platitude We didn’t know. We didn’t know about the persecutions, the camps, the slaughter then, we don’t know about the disappearances, the torching, the new camps and killings today. That is what Wilhelm Furtwänger says too, justifying himself by saying he saved – he no longer remembers how many – Jews, especially in “his” Berlin orchestra. Then an American researcher asks him, Why was it necessary to save Jews if people didn’t know? Then Furtwängler falls silent.”

As histórias que ele conta são de colaboração, silêncio e esquecimento, as histórias que ninguém gosta de contar depois da guerra. Ele coloca uma lista de todas as crianças que foram deportadas de uma pré-escola na Holanda, em outro momento a lista de todos os judeus deportados de uma cidadezinha na Croácia enquanto tentavam chegar à Palestina.

Como em um trauma, as feridas que causaram o Holocausto continuam voltando ao tema, e aparecem na dissolução da Iugoslávia, quando Andreas Ban estava vivendo em Belgrado e de repente se vê indesejado, seu filho sofre bullying na escola. Ele se muda para uma cidade na costa na Croácia e se depara com acadêmicos infestados pelo nacionalismo, esquecendo o que ele sente que não deveria ser esquecido. Ele vê na Alemanha esforços para se responsabilizar pelo passado, enquanto na Iugoslávia todos querem se convencer que o que aconteceu não foi tão ruim assim, e de qualquer jeito foi culpa de outra pessoa. Ele não fica surpreso ao ver a volta de movimentos que glorificam os Ustaše.

“He rarely used the wrong word for light bulb. At a Belgrade market, in 1991, he had asked for a light bulb in Croatian. The stall-holder told him, Piss off! Andreas Ban is not Marlene Dietrich. He doesn’t have beautiful legs and he’s still alive. He has nowhere to return to. He has nowhere to put down roots. What remains is his language. A mishmash of languages which exclude him, which he excludes himself. Which “betray” him, with which he “betrays” himself.”

Andreas Ban se lembra de todas as histórias de atrocidades que ele leu ao mesmo tempo em que pensa no filho que mora em Genebra, na esposa e na mãe que morreram cedo, na irmã que ele vê pouco. É um livro fragmentário, com longas digressões pela história e literatura da região. Mais do que Ferrante, ele me fez pensar em Sebald.
Recentemente, eu estava conversando com um amigo budista que me disse que o conceito de karma também se aplica para países, que são problemas não resolvidos que continuam voltando. Foi um pouco a sensação que tive com esse livro, e que por isso o torna tão interessante para pensar o passado e o presente da Croácia.

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