Um tour pelo Distrito Moskovas e o museu da KGB em Riga

Todo centro histórico nos Bálticos parecia estar cercado por algum bairro que tinha uma estranha mistura de tradicional e alternativo. Em Riga não foi diferente, e por isso fiz um tour com uma empresa local pelo bairro de Moskovas.

 

O tour começou com o Mercado Central. No início do século XX, as pessoas achavam que zepelins seria o modo de transporte do futuro. Nessa época, o governo da Letônia construiu cinco gigantescos armazéns para guardá-los,  mas, quando eles se tornaram obsoletos, foram transformados em mercados de comida. Quando eu fui lá, cada um era dedicado a um tipo de comida, e o quinto estava sendo reformado para abrigar pequenos restaurantes, em um estilo de mercado parecido com o que temos no Brasil.

Depois seguimos para passar por uma Igreja de Madeira, uma resistente de um estilo que é tradicional da Letônia, mas não o estereótipo quando pensamos no país. O guia explicou que a maioria dessas igrejas estão em condições ruins, e que começa a haver um esforço maior por preservá-las.

Letonia Riga igreja de madeira

Finalmente, chegamos nas ruínas da Grande Sinagoga de Riga. Ela era, como o nome indica, a maior do país, e foi incendiada durante a ocupação nazista, em 1941, com vários refugiados ainda lá dentro. Hoje, um memorial lembra os letões que arriscaram as suas vidas para salvar judeus. Alguns destroços lembram onde a sinagoga ficava, em uma escala menor.

Também foi no bairro de Moskovas onde ficava o maior dos guetos estabelecidos pelos nazistas para judeus, que hoje tem um Museu do Gueto, que o guia mencionou, mas não visitamos durante o tour. Durante o Holocausto, Riga foi o local de um dos maiores massacres antes do estabelecimento dos campos de extermínio. Durante dois dias, cerca de 24 mil judeus letões foram levados às florestas nas margens da cidade e assassinados a tiros. Outros mil foram transportados de trem da Alemanha e encontraram o mesmo fim.

Passamos da Sinagoga para a Academia de Ciências de Riga, conhecida pelo estilo bolo-de-noiva stalinista. Ela foi decorada como a maior parte dos prédios da época, com estrelas vermelhas e foices e martelos. A maioria já foi retirada, mas alguns ainda estão lá, o que eu acho que deve ser por um misto de preguiça de tirar todos e pragmatismo. O prédio ainda é usado pela universidade, mas os andares de cima estão abertos para turistas para ver a vista.

Letonia Riga moskovas edificio stalinista

Em frente ao prédio fica uma Igreja ortodoxa, a Igreja de Aleksandr Nevski.

Letonia Riga igreja ortodoxa

Depois a gente voltou em direção ao centro, mas não entramos, passando pelos jardins e parques ao norte, que eram parte do fosso que cercava as muralhas, e passei pelo relógio Laimas. Ele foi feito como propaganda de uma marca de chocolates, mas se tornou um lugar de encontros popular em Riga.

Finalmente chegamos ao Monumento da Liberdade. Ele lembra os soldados que morreram durante a guerra pela Independência, em 1918-20, quando a Letônia saiu do controle russo. Alguns anos depois eles seriam invadidos novamente pela Rússia, depois pela Alemanha nazista, e finalmente pela Rússia de novo e por mais de quarenta anos. Os soviéticos acharam que não valia a pena demoli-la, mas tentaram mudar o que ela significava.

Até hoje as manifestações que acontecem perto da estátua são complexas. Tem as comemorações da independência que são normais, mas tem outras menos óbvias também.

A população russa de Riga, cerca de 40% do total, comemora ali o fim da Segunda Guerra, o que os letões não fazem porque a segunda guerra acabou com o país sendo ocupado. Grupos de extrema direita usaram a estátua em 1998 para comemorar soldados que lutaram contra a URSS, só que esses soldados fizeram isso se unido aos nazistas, então é uma comemoração no mínimo complicada.

Riga Letonia monumento da liberdad

Fiquei andando mais um pouco pelos jardins até passar por lugares como a Ópera de Riga e a Catedral da Natividade, a maior igreja ortodoxa da cidade. Tendo sido construída durante o Império russo, ela também teve uma história atribulada, sendo convertida em igreja luterana durante a ocupação nazista e em planetário durante a URSS.

Riga Letonia Igreja natividade ortooxa

Aproveitando que estávamos por aquele lado, fui ao Museu da KGB, uma recomendação do guia. Gostei especialmente de como o guia, que era historiador, falou sobre o comunismo, a ocupação russa e a mistura de etnias em Riga. Também fui porque era só sobre a KGB, porque nesses museus que falam sobre o nazismo e o comunismo de uma vez, eu não vou mais. Quando cheguei, vi que eles são associados ao Museu dos Genocídios de Vilnius, muito criticado porque, apesar do nome, no início não mencionava o Holocausto ou o destino dos judeus lituanos (ganhando o apelido entre historiadores de Museu da Negação do Holocausto), e a terrível Casa do Terror, uma propaganda política do nacionalismo covarde de Victor Orbán. Isso me deu várias dúvidas sobre a seriedade do museu.

Começando com as questões práticas, o museu fica em um prédio Art Nouveau que foi sede da polícia política tanto durante o nazismo quanto durante o comunismo. Em 1939, quando Hitler e Stalin dividiram a Europa, o exército soviético invadiu os países bálticos. Depois os nazistas invadiram a região no caminho para a Rússia, e os soviéticos invadiram de novo no final da guerra, e continuaram por lá até a queda da URSS em 91.

Letonia Riga museu da kgb 4

A visita não começou mal, as salas de interrogatório permaneceram bem preservadas, e a guia falou um pouco sobre as formas de tortura que aconteciam nessa casa. Os crimes dos soviéticos foram enormes, e é importante lembrá-los. Mas o que era chato é que a guia repetia a informação de forma bem decoradinha e não soube responder nenhuma pergunta, mas ainda assim, o lugar valia a pena.

Letonia Riga museu da kgb 3

Aí ela falou um pouquinho sobre a Segunda Guerra, e é sempre aí que a coisa ficou complicada. Ela falou que o antissemitismo começou com a ocupação nazista, que os letões caíram na propaganda nazista e começaram a ter preconceitos contra judeus.

Vários problemas aí. Para começar, não, o antissemitismo não começou porque os pobres letões foram enganados. Ele existia há séculos, como fica óbvio vendo todas as leis restritivas e atos de violência que já existiam muito antes.

Já falei que é uma tendência notada por historiadores de que em países que foram invadidos tanto pela União Soviética quanto pela Alemanha Nazista, eles usem a Teoria do Duplo Genocídio, tentando acabar com a imagem de colaboracionistas e se colocar, ao contrário, como as “verdadeiras vítimas” da guerra. E como isso acaba sendo feito minimizando o Holocausto e o nazismo, e muitos desses museus nem mencionam a palavra “judeu”, embora, no caso da Letônia, 90% dos judeus tenham morrido no Holocausto, além de milhares de outros trazidos do oeste para campos de concentração lá.

Letonia Riga museu da kgb 2

Em um momento, a guia chegou a dizer que vários dos colaboradores que se juntaram ao exército alemão só perceberam ao final da guerra que estavam lutando pelos nazistas, porque aparentemente eles não tinham olhado para baixo e visto o próprio uniforme. Felizmente, ela parou de falar sobre a Segunda Guerra depois disso, e nos levou ao espaço minúsculo onde prisioneiros tinham banhos de sol e onde execuções aconteciam. Lugares importantes, mas sobre os quais ela falou muito pouco.

Letonia Riga museu da kgb

Em resumo, a história trágica da ocupação soviética na Letônia merece um museu melhor. É preciso falar sobre a tortura e execuções, e também sobre as imigrações forçadas, sobre a desvalorização da cultura letã. Mas isso não pode acontecer em um museu que minimiza os horrores do Holocausto, o que é especialmente grave em um país que ainda tem estátuas de colaboradores nas ruas e onde locais de massacres permanecem sem placas que lembrem o que aconteceu.

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