Conhecendo o Museu Judaico de Moscou

Eu entrei no Museu Judaico depois de passar por dois detectores de metal, colocar minha bolsa em outro e abri-la para um guarda. Ainda acho triste como os museus judaicos sempre tem segurança reforçada, por causa das ameaças anti-semitas.

Quando entrei, primeiro passei por um cinema 3d em que eles contavam algumas histórias da Torá sobre o surgimento do povo judeu, o que durou apenas alguns minutos. Depois, a gente passa para a parte maior do museu, organizado em U de forma cronológica. O museu é bem tecnológico, então em toda parte tem textos escritos, vídeos, e plataformas interativas. Os textos eram traduzidos para o inglês de forma bem inconstante, em uma parte não tinha nada, na outra tinha os títulos, e na parte sobre o anti-semitismo no governo stalinista tudo estava traduzido. Mas as partes interativas e os vídeos eram sempre bilíngues, então achei que o museu tem muito a oferecer mesmo para quem não lê em russo.

Museu judaico moscou 1

O museu começa com uma pequena parte sobre o estabelecimento dos judeus no império russo e já começa a falar sobre os últimos anos, principalmente sobre os pogroms. Pogroms eram perseguições a judeus toleradas ou mesmo incentivadas pelas autoridades. Foi em um deles que massacraram a maior parte da família da Clarice Lispector, e que a mãe dela sofreu um estupro coletivo na mão de soldados, contraindo a sífilis que a mataria. Muitas família emigravam depois de ver a família perseguida ou massacrada, por isso o pogrom era uma forma de limpeza étnica.

Museu judaico moscou 6

Eles também falam brevemente da Bund, uma associação de trabalhadores judeus que existiu na Rússia, na Polônia e na Lituânia. Eles participaram dos movimentos sociais democratas no início do século XX. Inicialmente eles se opuseram à Revolução de Outubro, mas passaram a apoiar os comunistas depois que o Exército Branco, dos monarquistas, cometeu vários pogroms. Na mente de alguns conspiradores racistas, isso geraria a mentira de que os bolcheviques eram todos judeus, e que as invasões da URSS pela Europa Central foram uma vingança desses judeus pelo Holocausto. Essa loucura é repetida até hoje quando alguns países querem se colocar como a verdadeira vítima do Holocausto, como vi na Casa do Terror na Hungria.

Museu judaico moscou 4

Então começa a parte sobre os judeus na União Soviética. No início, aconteceu uma guerra contra a religião e as escolas em hebraico foram proibidas, mas continuavam existindo escolas em ídiche, que era vista como uma língua minoritária.

Depois, vemos a parte sobre a Segunda Guerra, que na Rússia é conhecida como Grande Guerra Patriótica e dura de 41 a 45, convenientemente esquecendo a parte onde a URSS tinha um pacto com Hitler e invadiu meia Europa, e começando quando Hitler os ataca. Nessa hora, eles passam vários vídeos, a maioria dos quais é mais geral, falando sobre as etapas da guerra, os ataques a Moscou e os sítios de Petersburgo (ou Leningrado, na época) e Volvogrado (Stalingrado, na época). Mas os mais interessantes são os que falam sobre o Holocausto no território da URSS.

Eles contam que entre um terço e metade de todos os judeus que morreram durante o Holocausto morreram em território da URSS, e que quase todos permaneceram depois em túmulos não marcados. Antes que a Solução Final assumisse a forma das câmaras de gás, milhões de judeus foram assassinados por pelotões de fuzilamento e em caminhões com o escapamento invertido para que o gás os sufocasse. Mas quando a guerra acabou, não se podia falar sobre isso na URSS.

Museu judaico moscou 2
Cada estrela representa a alma de uma pessoa

Babi Yar – Evtushenko

A erva selvagem farfalham sobre Babi Yar,

As árvores parecem severas, como se estivessem julgando.

Aqui, em silêncio, tudo grita, e com o chapéu na mão,

Eu sinto o meu cabelo se tornando grisalho.

 

E eu mesmo, com um longo grito sem som

Em cima dos milhares e milhares enterrados

Eu sou cada homem executado aqui

Como eu sou cada criança assassinada aqui.

Depois da guerra, os judeus da URSS enfrentaram negacionismo e uma continuidade da perseguição. Durante o governo stalinista, surgiram teorias de conspiração como a Conjura dos Médicos. Ela foi pensada pelo próprio Stalin, que acusou médicos judeus de planejarem o assassinato de vários líderes soviéticos. Várias pessoas, tanto judeus quanto acusados de serem simpatizantes, foram demitidas, mandadas para a Sibéria ou assassinadas sob essa desculpa. Quatro grandes Gulags estavam sendo construídos na Sibéria, aparentemente para receber judeus, quando o Stalin morreu e a perseguição diminuiu.

Museu judaico moscou 3
Uma cela da prisão de estado na Lubyanka, por onde passaram o poeta Ossip Mandelstam, o diretor de teatro Meyerhold e o diplomata sueco Raoul Wallenberg, que salvou milhares de vidas na Hungria do holocausto

Durante os governos posteriores, a situação melhorou um pouco. A URSS foi o primeiro país do mundo a reconhecer o Estado de Israel, que eles esperavam transformar em satélite. No início, o socialismo era muito popular em Israel, e os kibbutz eram bem vistos na URSS. Quando a influência americana se tornou mais forte em em Israel, os russos se afastaram.

Durante os últimos anos da URSS, houve um relaxamento das proibições e uma renascença da cultura judaica no país, mas também houve um aumento do anti-semitismo e da perseguição.

Museu judaico moscou 5
No final, eles falavam que na Rússia hoje a situação é ótima e agora que o comunismo acabou todas as etnias são reconhecidas e vivem em paz. Quase dei as mãos para as pessoas do lado e comecei a cantar We Are the World. Mas sem zueira, já ouvi de amigos judeus que a Rússia ainda é muito anti-semita, e não me surpreenderia, tendo em vista que a exposição mesma fala que isso acontecia até pouco tempo atrás. Mas não sei muito sobre o assunto, então, se alguém souber, conta para a gente nos comentários.

Museu judaico moscou 8

Clique na imagem para ler mais sobre os lugares que eu visitei que nos lembram a história da Segunda Guerra

Asdistancias blog especiais segunda guerra 2

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