Volta ao Mundo em Livros: Rússia – A mala

Quase impossível essa missão de escolher um livro só para falar da minha literatura preferida. Mas tive que passar por isso, e fiquei com A Mala, de Serguei Dovlatov.
Quando o narrador do livro emigrou da União Soviética, ele só levou uma mala. Ele colocou alguns de seus bens mais preciosos, mas quando chegou aos EUA, acabou comprando tudo novo e nem abriu a mala. Anos depois, seu filho está brincando no closet e pergunta sobre a mala. Ele a abre então, e vê roupas mal feitas e inúteis, as relíquias de sua vida antiga. Ou, falando de Dovlatov, podemos dizer das suas vidas antigas. E essas são as histórias que ele conta em A Mala.
As meias finlandesas precipitam uma história sobre sua tentativa de entrar para o mercado clandestino, o terno decente o lembra de quando ele representava a redação de um jornal em enterros, mas só conseguiu um terno com a ajuda da KGB, uma jaqueta que pertenceu a Ferdinand Leger o lembra da amizade da mãe com a esposa do famoso ator Nikolai Tcherkassov, o Ivan, o Terrível do Eisenstein.
As histórias que ele conta são tão engraçadas quanto absurdas. Mas elas funcionam para criar um panorama da vida na Rússia dos anos 60 e 70. Dovlatov viveu entre os literatos de Leningrado, herdeiros de uma grande tradição literária, entre os guardas das prisões russas e depois entre seus prisioneiros (experiência da qual ele fala pouco, porque dizia que não queria ser o Shalamov de sua geração), entre pequenos ladrões, bêbados e basicamente em toda forma de vida que alguém podia ter às margens da sociedade soviética.
Dovlatov escolheu para o texto uma epígrafe de Aleksandr Blok, o grande poeta de Petersburgo, “mas, mesmo assim, você é preciosa para mim, minha Rússia”. Ele é um especialista naquilo que Gógol chamava de “rir através das lágrimas”, e isso se faz sentir em cada página, na forma como ele consegue misturar a miséria da vida soviética com uma nostalgia por ela.
Todas as decepções com o comunismo, que ele chamava de charlatanismo, não o cegaram para as dificuldades da vida de emigrado nem para as falhas de sua pátria adotada, nos Estados Unidos. Em outro livro, ele chegou a dizer que, em uma língua estrangeira, nós perdemos oitenta por cento da nossa personalidade. Enquanto a vida na Rússia lhe deu a mala com oito itens, a vida no exílio lhe deu roupas camufladas e a Banana Republic.

All ruined peoples are twins…
We greeted each other. She asked, “They say you’ve become a writer?”
I was bewildered. I wasn’t prepared for the question to be put that way. Had she asked, “Are you a genius?” I would have answered calmly and affirmatively. All my friends bore the burden of genius. They called themselves geniuses. But calling yourself a writer was much harder.
I said, “I write to amuse myself…”

1 comentário

Deixe uma resposta