Volta ao Mundo em Livros: Camboja – In the Shadow of the Banyan

Quando um país tem um evento traumático recente, a maioria dos livros que encontramos falam dele. Foi assim com a Ruanda e a Bósnia, por exemplo, e agora com o Camboja, já que a maioria dos escritores e cineastas cambojanos que encontrei falava do genocídio. Escolhi In the Shadow of the Banyan, de Vaddey Ratner, uma sobrevivente dos campos. Meu filme de lá, A Imagem que Falta, foi feito por outro sobrevivente, Rithy Pahn. E achei bom porque me deu a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a história do Camboja.

Durante os anos 70, o Khmer Vermelho esvaziou as cidades e relocou os “intelectuais” (os de profissões liberais, os monges budistas, quem vivia em cidades, quem usava óculos, minorias étnicas que falavam outras línguas) para campos de trabalho forçado. Nesses campos, o abuso e a fome eram prevalentes, e, em decorrência, cerca de um quarto da população do país faleceu. Até hoje, eles sofrem com a falta de professores e outros profissionais liberais.

A autora, Vaddey Ratner, era filha de um príncipe da família real do Camboja. Seu pai tinha simpatia pelos ideais comunistas, e recebeu com simpatia a notícia da Revolução. Depois, a cidade foi evacuada e eles foram forçados a ir ao campo, onde ele foi executado por causa de sua posição anterior. Ratner e a mãe foram as únicas da família a sair com vida do campo.

In the Shadow of the Banyan não é um livro de memórias, mas tem toques autobiográficos. A narradora também é uma criança da família real que é mandada com a família para um campo. Ela sofre com uma paralisia parcial após ter tido poliomelite na infância, e já tinha lidado com o preconceito e a curiosidade de estranhos, mas no regime a situação ainda piora quando um soldado joga seu aparelho fora por ser uma “modernidade”.

Como na maioria dos livros escritos sobre a perspectiva infantil, a narradora me parece irreal. Ela alterna entre uma enorme sabedoria além-dos-seus-anos e grande ingenuidade, e a autora tenta explicar o que está acontecendo por meio de diálogos convolutos entre os adultos que ela presencia. Mas ela também consegue trazer méritos enormes para essa perspectiva, dando à personagem uma mistura de fantasia infantil e verve poética que fazem os momentos mais bonitos do livro. Também adorei como ela chama o Khmer Rouge de A Organização, o que faz sentido, porque a narradora é pequena e não entende do que estão falando, mas também traz um toque de distopia da vida real que poderia ter sido incrível. Se a autora tivesse focado mais nessas partes e não explicado tanto, seria um dos melhores livros que li esse ano.

A história segue a narradora pelos anos nos campos, que coincidem com a ascensão e queda do regime. É claro que é um livro pesado, por causa do tema, mas cheio de fantasia a ponto de ainda ser muito bonito.

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