Por que eu não conto países

– Em quantos países você já foi?

É uma pergunta que ouço sempre, e na maioria das vezes inocentemente. Ela aparece para puxar assunto, de curiosidade genuína, de gente querendo inspiração para viajar mais. Mas cada dia vejo mais gente perguntando só para competir, ou para pagar de eu-sou-melhor-viajante-que-você. Principalmente quando tô falando sobre uma experiência incrível que tive, ou sobre um país que eles não visitaram, os números começam. E isso me fez pensar sobre isso, sobre por que contamos países. E por que eu não quero mais.

 

Porque eu gosto de viajar no meu ritmo

Noites brancas são petesburgo rio neva pontes
Noites Brancas coroando dois meses em Petersburgo (foto tirada 1:59 da manhã)

Eu não vou fazer essas viagens loucas em que a pessoa viaja para 13 países em um mês. Não vou tentar ver um continente inteiro nas férias da faculdade. Não vou ficar na dúvida se tô desperdiçando dinheiro porque ao invés de ir a um país novo tô voltando a um que já visitei – e confesso que essa dúvida já apareceu na minha cabeça e me achei ridícula. Não vou me desafiar a ver trinta antes dos trinta nem cinqüenta antes dos cinqüenta. Minha meta é ficar em cada país o tempo que der e que me interessar, e então partir para o próximo, não ver quão rapidamente consigo tirar mais um da lista.

 

Porque não existe regra sobre como contar

Museus do Vaticano escadas
Gente, o Vaticano conta ou não conta???

Seu país nativo geralmente não conta, mesmo que seu país nativo tenha dimensões continentais. Você conta o Vaticano? San Marino? A República de Uzupius? País Basco? A gente conta o Reino Unido como um ou como vários? Listas de países do mundo vão de quase 200 a bem mais de 300 (as de viajantes que querem chegar a 100 rápido), sem nenhuma regra.

 

Nem sobre quanto tempo ficar em cada lugar

aquela foto da janela do aviao
Conta o país que você viu da janelinha do avião?

Conta o país que você atravessou de trem/ ônibus? Aquela noite que você passou na rodoviária entre um ônibus e um trem? Escala de aeroporto? Meio dia andando com o mochilão por uma cidade do país?

Um país conta mesmo se você não conheceu ninguém local, não fez nenhuma reflexão sobre si mesma, se ele não te impactou em nenhuma forma.

 

Porque um número maior não te torna um viajante melhor

Grafite bonde santa teresa rio
Santa Teresa, no Rio

Esse é o ponto principal para mim. Imagina os seguintes viajantes. Um que vem para o Brasil para as férias constantemente, que já foi em todas as regiões, que conhece lugares e comidas que a maioria dos brasileiros não conhece. Outro que fica um ano em uma grande cidade aprendendo português, que cria uma intimidade com a cultura, que entende piadas locais. E ainda outro que tá na Argentina em Iguaçu e atravessa a fronteira por meio dia para ver o lado brasileiro. Nenhum é melhor que os outros, são viagens completamente diferentes. Mas se a gente resumir tudo a pontos, o terceiro ganha. E se a gente contar um brasileiro que viaja sempre por aqui, pior ainda, zero pontos. E isso é, para usar um termo meio infantil mas completamente exato, bobo.

Passar um ano explorando um país e passar um ano explorando um continente são estilos diferentes de viajar. Só isso. Grande parte da diversão é descobrir o seu estilo, e isso fica difícil se você tá definindo o que é um bom viajante por um critério tão arbitrário.

 

Porque viajar não é uma competição nem uma corrida

Outro uso dos números que me irrita é o que só consigo descrever como pissing contest: uma disputa boba em que o que importa é levar a melhor , ganhar. Alguém tá contando uma experiência legal de viagem e os outros começam “mas quantos países você já foi? Eu já fui em 90!!!”. Ir em 90 países é um grande feito, mas ainda não deve ser usado para pagar de bonzão e calar os outros. É o velho deixa as pessoas, deixa as pessoas viajarem sempre pros mesmos lugares, deixa as pessoas viajarem devagar, deixa as pessoas.

 

Não contar não significa não manter registros

Scratch map deluxe mapa paa raspar

Eu tenho diários, faço álbuns, tenho um mapinha de raspar na parede. Eu tenho orgulho de ter ido em tantos países quando há apenas alguns anos eu acreditava em mitos como o de que só gente rica viaja assim. Tenho um blog, um instagram, que são outras formas de manter registros das minhas viagens. Meu ponto não é esquecer de tudo isso, é não focar em um número nem usar isso para competir. Então tô escolhendo esquecer que o número existe.

 

Por que esse é o melhor modo de viajar para mim

Eu percebi que não gosto do número e não quero usá-los, mas a última coisa que quero é ficar igual aqueles viajantes que ficam fazendo textão falando como quem conta é um exibido que não sabe viajar do jeito certo. Odeio quem entra em competições de eu-sou-melhor-viajante-que-você, então não vou fazer isso para dizer que contar países te torna um viajante pior. Não existe fórmula nem manual, existem estilos, existem viagens e atitudes que não quero porque não me agradam, mas que podem te agradar.

Eu não conto países assim como não conto calorias. Porque me tira o prazer de fazer algo. Só isso.

 

2 comentários

  1. Laura

    Eu não sabia que isso era uma discussão entre blogueiros de viagem, mas já notei isso mesmo. Também acho uma maniazinha desagradável.

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