Volta ao Mundo em Filmes: Marrocos – Cavalos de Deus

Quando eu falei aqui sobre o livro que li para o Marrocos, The Arch and the Butterfly, falei sobre como ele fala sobre a preocupação da sociedade marroquina com a radicalização. Embora a maioria das vítimas do terrorismo sejam muçulmanos no Oriente Médio e no norte da África, a gente só ouve quando atentados acontecem nos Estados Unidos ou na Europa. Por isso, não achei surpreendente que o filme que escolhi para o país também fale sobre isso.

O filme que vi foi Cavalos de Deus, de Nabil Ayouch, baseado nos atentados terroristas de Casablanca em 2003. Ele mostra uma favela de Casablanca, em que as pessoas vivem em casas de telhado de latão, sem eletricidade, água corrente ou saneamento básico. Nós começamos a acompanhar os dois personagens principais, Yachine (Abdelhakim Rachid) e seu irmão mais velho Hamid (Abdelilah Rachid), quando eles têm 10 e 13 anos, respectivamente. Pobres demais para ir à escola, Hammid começa a trabalhar para um traficante, mas, sabendo dos riscos, faz Yachine trabalhar vendendo laranjas.

O lugar onde eles crescem além de miserável é extremamente patriarcal, e quem não encaixa sofre riscos constantes, como é o caso do amigo deles, Nabil (Hamza Souidek). No filme há poucas mulheres, e eles mostram a dificuldade em não ter um “homem da casa”.

Hamid se torna um herói no bairro ao acertar uma pedra em uma viatura de polícia. Ele acaba na prisão. Quando ele volta, ele está completamente mudado, tendo encontrado a religião lá dentro. Ele é mais disciplinado, menos cabeça-quente, e quer uma vida austera, e para muita gente seria um caso de sucesso de “largou as drogas e encontrou deus”. Yachine e Nabil a princípio não gostam da transformação, mas se convertem e se juntam ao grupo quando precisam da ajuda de alguém e eles são os únicos que estão lá.

Porque nós os vimos desde crianças, a decisão deles de se juntar a um grupo terrorista parece mais com filmes sobre iniciação em gangues ou sobre drogas do que a maioria dos filmes sobre terrorismo. O foco não é na doutrinação religiosa, mas na sensação de pertencimento que eles encontram, na miséria e na falta de perspectivas das quais eles sentem que estão escapando. Como uma gangue, os fundamentalistas tomaram para si muitas das responsabilidades que o Estado esqueceu. Eles protegem as pessoas, ajudam os pobres, e até julgam assassinatos.

O filme me lembrou Paradise Now, o filme que vi para a Palestina, no sentido de que ele procura explicações mais complexas para o terrorismo. Ambos querem refutar a idéia de que o terrorismo é causado por fanáticos barbados atraídos pela promessa de 72 virgens, mas mostram causas sociais mais sutis.

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