Volta ao Mundo em Filmes: Egito – Clash

O filme escolhido para o Egito foi Clash, de Mohamed Diab. Eu tinha visto que o filme se passava todo em um camburão da polícia durante os protestos de 2012-2013, e por isso achei que seria interessante para aprender mais sobre o Egito atual.

Em 2011, a Revolução Egípcia e os protestos de rua tiraram Mubarak do poder, depois de mais de vinte anos como presidente do país. Em junho de 2012, os egípcios elegeram democraticamente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, para a presidência. Ele tentou aumentar os próprios poderes de forma inédita, e fazer uma nova constituição que seguia visões islâmicas extremas. Depois de protestos populares, ele é deposto pelo exército. Por causa disso surgiram os protestos de 2012-13, que o filme retrata.

No início, vemos dois jornalistas que são presos. Vemos que um deles tem dupla cidadania dos EUA, e que eles se conhecem há pouco tempo. De dentro do camburão, eles gritam aos policiais que liguem para seus editores, que olhem o telefone, qualquer coisa para checar que eles realmente são jornalistas. Quando os policiais se afastam, eles gritam para um grupo que passa, mas as pessoas desconfiam que eles sejam espiões e começam a jogar pedras no carro.

A polícia chega e prende os jogadores de pedras, que também vão para o camburão. Pouco depois eles passam por um protesto da Irmandade Muçulmana, e mais manifestantes são lançados para dentro do carro. Entre os presos, vemos famílias com os filhos adolescentes, amigos, famílias que são separadas, pessoas que gritam para os camburões próximos para tentar achar os pais, os irmãos.

O filme nos faz nos conectar com personagens dos dois lados, o que é um grande feito. O lado da Irmandade parece rígido, mas tem alguns dos personagens mais interessantes do filme, como uma devota de 14 anos (Mai El Ghaity) e um ator desempregado. Entre os que protestavam contra a Irmandade, a personagem mais marcante é uma enfermeira que exige ser presa para não se separar do filho (Nelly Karim). Alguns dos personagens querem brigar, outros querem se isolar, alguns querem parecer algo que não são, e alguns querem se unir para conseguir enfrentar a situação. Todos eles tiveram momentos de esperança durante a Revolução, e agora estão novamente em lados opostos.

As prisões estão todas cheias, por isso os policiais não sabem o que fazer com eles, e eles têm que ficar por horas no camburão quente, sem água ou comida. Vemos alguns policiais que querem ajudar, pelo menos tirar as crianças de lá, e outros inflexíveis, que querem seguir as regras até o fim. Com os protestos que se aproximam, as pessoas do camburão ficam em uma posição a cada momento mais delicada.  

O filme irritou o governo, e o diretor chegou a ser chamado na tv de terrorista e sionista. O seu filme anterior, 678, também tinha causado muita polêmica ao contar as histórias de três mulheres que sofrem assédio sexual, tema tabu no Egito, mas que, segundo minhas amigas que fizeram intercâmbio lá, é muito comum no transporte público e na rua. Achei o filme fantástico, e recomendaria para qualquer pessoa.

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