A Catalunha não é a Espanha – o que isso significa para o turista

Com todos os conflitos que estão acontecendo atualmente na Espanha, lembrei de uma piadinha que tinha no meu livro de espanhol da sexta série. Dizia que se você perguntar para dez pessoas em Barcelona se eles são espanhóis, nove vão dizer que não. A décima vai dizer: não, eu sou catalão, é algo completamente diferente, estúpido.

Quando eu fui para a Catalunha, não me senti exatamente assim. Eu conheci por lá pessoas que se sentiam espanholas e rejeitavam a independência, espanholas e catalãs ao mesmo tempo, e catalãs e rejeitavam a Espanha. E nesse momento, não sabemos se a Catalunha realmente vai se separar da Espanha, se em algum momento vai existir uma moeda diferente, controle de fronteira, e algo assim, então pode parecer que essa questão não importa tanto para o turista. No entanto, eu achava que para quase todo mundo, reconhecer que a Catalunha tem sua própria cultura, história e língua, era o modo mais respeitoso de agir, e pensar que tudo é igual faz as pessoas te olharem como o estúpido da piada. Mesmo as que se identificam como espanholas.

Plaza Real Barcelona bairro gótico
A Plaza del Rey, antiga sede dos condes de Aragão

O uso mais antigo conhecido do termo Catalunha vem do século XII, quando os condes de Barcelona eram vassalos do Imperador dos Francos. Durante a Idade Média, era parte do Reino de Aragão. O casamento de Fernando de Aragão e Isabela de Castilha foi a primeira base da unificação da Espanha. Mas no início, o Reino de Aragão preservou suas línguas e leis. Depois que os Bourbons asseguraram a coroa depois da Guerra de Sucessão, entre 1704 e 1714, essa autonomia acabou. E isso acabou com a autonomia do Catalão como língua do governo e da literatura.

A Segunda República Espanhola assegurou os direitos da língua e cultura catalãs, mas por pouco tempo. Estabelecida em 1931, ela sofreu um golpe em 1936, o que começou uma guerra civil que destruiu o país. A Catalunha lutou muito pela República, assim como Madrid e o País Basco, e quando os fascistas de Franco ganharam, as autonomias foram canceladas. Com os boicotes internacionais à Espanha, a Catalunha só chegaria aos níveis de produção de antes de 1936 no meio dos anos 50.

San Felipe Neri bairro gótico Barcelona
Praça San Felipe Neri, bombardeada durante a Guerra Civil

Durante o governo Franquista, elementos da cultura andalusa foram usados em uma tentativa de unificar a cultura do país, como touradas, flamenco e tapas. Touradas são especialmente pouco aceitas pela população catalã, e foram proibidas pelo parlamento catalão em 2010. A proibição foi considerada inconstitucional pelo governo espanhol em 2016, e se tornou uma questão ainda mais polêmica entre os dois. Então perguntar onde você pode ver uma tourada em Barcelona pode gerar respostas irritadas como “Em Sevilha”.

Já Flamenco é fácil de achar, mas muitos dos lugares são beeem para turistas, e tapas se tornaram super populares, mas incluindo comidas típicas catalãs como Pan amb tomate, pão com tomate, azeite e alho, Botifarra, uma linguiça picante típica, Fideua, a versão catalã de Paella, que usa uma massa curta ao invés de arroz, e Calçots, alho-porró feito na grelha. E para acompanhar, claro, dá para pedir um Cava, um espumante que é uma das maiores exportações da Catalunha.

A bandeira da Catalunha foi inspirada na bandeira de Cuba, porque Cuba foi a última colônia espanhola a conquistar a independência. Os catalães dizem que na verdade eles são a última colônia, e por isso a semelhança. O símbolo do burro também é muito comum, assim como o touro na Espanha. Alguns dizem que o burro simboliza que os catalães são bons trabalhadores, enquanto outros acham  que é só piada com o touro espanhol mesmo. De qualquer jeito, ele é bem comum.

Bandeiras pela independência da Catalunha
Bandeira da Catalunha em Barcelona

A maioria das pessoas na Catalunha é completamente bilíngue, falando espanhol e catalão, e na área de turismo muitos falam outras línguas também. Mas eles têm muito orgulho da sua língua, que foi proibida por décadas. e você vai despertar boa vontade se usar algumas palavras em catalão, como na maioria dos países (faça o que fizer, não chame catalão de dialeto!). Sem falar que é bem fácil, porque lembra muito o português.

 

Bon dia

Com estas?

Be, gracies. I tu?

Adeu

Si us plau – por favor

Moltes gracies – muito obrigada

Parles angles? – você fala inglês

Com es diu…..en Catala? – Como se diz… em catalão?

 

Uma das tradições mais famosas e reconhecidas da Catalunha, inclusive com reconhecimento da UNESCO em 2010, são os castelos humanos. Quando eu fui, ainda não era a época certa e não consegui ver nenhum, mas é um dos motivos pelos quais tenho vontade de voltar à Catalunha.

castellers barcelona wikicommons
Castellers na Catalunha. Créditos: wikicommons

Outra tradição famosa é El Caganer, que dispensa traduções, mas é um bonequinho popular nas lojas de souvenirs, que supostamente traz sorte para o ano seguinte. Muitos catalães os colocam nos presépios de natal! Originalmente era um camponês com a bandeira da Catalunha, mas hoje tem versões modernas com todas as figuras imagináveis.

Esses são só os exemplos mais famosos, claro, mas que já valem para dar um gostinho da cultura da região.

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