Itália: Sul versus Norte – diferenças culturais, barrismo e preconceito

Estereótipos do norte falam que as pessoas do sul são preguiçosas, menos educadas e fanáticas com religião. Estereótipos do sul falam que as pessoas do norte são frias e workaholics, e que não dão atenção às próprias famílias para ganhar dinheiro. O norte diz que sustenta economicamente o sul, o sul se ressente de ser tratado como colônia pelo norte. Eu achava que muito disso tinha ficado no passado, mas a verdade é que o bairrismo e o preconceito estão bem vivos na Itália no que se refere à, como eles mesmos dizem, “questão meridional”.

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Influência árabe em Palermo, onde uma coluna do Duomo tem inscrições do Corão

Na casa em que fiquei quando fui estudar italiano em Florença, a proprietária me disse para não viajar muito para o sul, porque a Itália acaba em Roma. Depois era África. Ela também falava quando a cozinha estava suja que a casa estava virando Nápoles. Quando eu estava indo para a Sicília, um homem mais velho que puxou papo comigo no aeroporto me disse para não dar confiança para estranhos porque “lá existem todas as raças”. Eu entendi que ele não estava falando somente dos imigrantes do norte da África que chegam na Sicília ou o fato de a ilha ter tido colonização árabe, porque, para algumas pessoas preconceituosas do norte, as pessoas do sul são simplesmente de outra raça, misturada e inferior.

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A Catedral de Monreale: um produto dos povos que passaram por lá

A discriminação se vê por toda a parte, em gritos em estádios de futebol, no apelido discriminatório de “terroni”, em entrevistas de emprego (um amigo meu de Lecce se esforçou muito para perder o sotaque), e chegou ao extremo com a criação da Lega Nord, partido separatista e francamente racista.

Quando eu cheguei no meu albergue em Nápoles, o dono sentou comigo e com um mapa e me mostrou as principais atrações, recomendou restaurantes e me falou um pouco da história da cidade.

“Você sabe o que aconteceu em 1871?”

“A unificação.”

“Você estudou no norte. A gente chama de a ocupação”.

Ele, como muitas pessoas, sente que nessa época o sul era próspero e moderno enquanto o norte era agrícola e atrasado, e que o sul ficou prejudicado quando a Itália se tornou um só país.

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Em O Leopardo (Il Gattopardo), do príncipe de Lampedusa, o personagem do príncipe de Salinas discute a Sicília com um convidado francês dizendo que eles foram acostumados com uma longa hegemonia de governantes que não falavam a sua língua e não eram de sua religião, e continuam para falar da chamada unificação: “Nos últimos seis meses, desde quando o seu Garibaldi pôs os pés em Marsala, coisas demais foram feitas sem nos consultar para que agora se possa pedir a um membro da velha classe dirigente para desenvolvê-los e trazê-los a fruição, agora não quero discutir se o que foi feito foi bom ou ruim, na minha opinião creio que foi bem ruim, mas quero te dizer logo algo que você só vai entender quando estiver há um ano entre nós. Na Sicília não importa fazer mal ou fazer bem, o pecado que nós sicilianos não perdoamos nunca é simplesmente o de fazer. Somos velhos, Chevalley, velhíssimos. Há ao menos vinte e cinco séculos que temos nos ombros o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora já completas e aperfeiçoadas, nenhuma germinada por nós, nenhuma que podemos chamar de nossa, nós somos brancos, como você, Chevalley, e como a rainha da Inglaterra, mas há dois mil e quinhentos anos que somos colônia. Não o digo para reclamar, é em grande parte culpa nossa, mas estamos cansados e vazios da mesma forma”

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Dois mil e quinhentos anos de civilizações como vistos em Agrigento

Mesmo para o viajante que vai passar alguns dias em cada região, eu achei a diferença entre o sul e o norte muito grande. Eu achei as ruas  no sul da Itália são muito mais sujas do que no norte. Se o motivo realmente é falta de verbas, ou controle da coleta por parte da máfia, como ouvi, não sei. O transporte público também é muito pior, com trens antigos e que atrasam muito. Enquanto o trem é muito mais utilizado no norte, na Sicília os locais me recomendaram a andar só de ônibus.

E algo que me chocou muito foi visitar a cidade de Agrigento, na Sicília. Ela é mais conhecida pelas construções gregas no Vale dos Templos, e muitos turistas nem chegam a visitar a cidade. Como o Rough Guides me disse que era uma cidade medieval muito interessante, resolvi passar a tarde explorando a cidade. Quando cheguei ao Duomo, vi que ele estava fechado, com uma instalação artística de sapato de gesso na frente. Uma placa indicava que ele estava com risco de desabar por falta de reformas. Não consigo imaginar algo assim acontecendo em uma cidade super turística no norte. Para as pessoas do sul, esses exemplos mostram o descaso do “governo do norte” com as regiões ao sul.

 

Essa divisão não deve ser um problema para a maioria dos turistas. O norte e o sul são lindos, tem comidas ótimas e viajantes fervorosos que juram pela mãe que aquela é a melhor parte da Itália. Mas é bom entender isso para entender um pouco porque pode ser ofensivo dizer que a cidade x é melhor que a cidade y, ou pedir um prato de outra região da Itália.

11 comentários

    1. Julia Boechat

      Eu tô fora do meu lugar de fala, mas sinceramente também achei racista. Ele tá basicamente reclamando de ser tratado de uma forma que ele acha ok para outro grupo. Admito que dei um desconto pelo livro ter sido publicado nos anos 50 e por ele retratar um pensamento super siciliano, segundo os próprios italianos, mas é sempre foda ler isso.

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  1. Pedro

    Eu fiz intercâmbio na escola em uma cidade perto de Lecce e tive muito essa impressão. Muitos italianos falam comigo “então você não aprendeu italiano de verdade”

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    1. Julia Boechat

      Nossa, muito chato isso, né?
      Mas também me dizem que eu não aprendi italiano de verdade, que aprendi florentino e perguntou se eu falo coca-cola ou hoha-hola. Ainda to querendo saber quem que fala italiano de verdade, hahaha

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      1. Pedro

        Nossa, mas você morou justamente em Florença, e o italiano de hoje surgiu do dialeto falado na região da toscana e do lazio, só depois foi propagado pelo resto da Itália, então podemos dizer que o seu italiano é o “original” já que vc aprendeu direto da nascente. Deprimente essa discriminação, tive a oportunidade de conhecer a costa amalfitana e lá tem cidades belíssimas como sorrento, amalfi, positano, pompeia e capri. É mais ou menos o que acontece com as pessoas do sudeste e sul do brasil que acham que o nordeste é atrasado, mas não sabem viver sem um carnaval em salvador ou umas férias em jericoacoara…

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        1. Julia Boechat

          Oi, Pedro, tudo bom?
          Sinceramente, eu acho o modo como alguns italianos falam do sul igualzinho a como algumas pessoas falam do nordeste. Escuto os mesmos “a Lombardia sustenta a Itália, por isso o povo do sul vai todo trabalhar lá”, os mesmos preconceitos e babaquices. E depois vão todos para as praias da Puglia, que estão na moda, haha.
          Quanto à língua, pelo que eu li o italiano moderno foi baseado no toscano literário do século XIII, mas isso foi alguns séculos depois, no século XIII nenhuma língua era muito estandardizada. Então ele foi baseado em uma versão de algo que existia séculos antes, e por isso não é exatamente o que as pessoas da Toscana falavam na época da criação da Itália. E lá também existe um dialeto separado do italiano, como em tantas partes do país. Hoje na minha opinião o italiano standard é o da escola, dos tribunais, da mídia, não necessariamente de lugar nenhum, e essa discussão tem um pouco de bairrismo, de brincadeira (igual a gente lá de Minas falando com os cariocas “fala ishtrela, fala ishcada”), e um pouco de preconceito, e tem hora que não sei onde um termina e o outro começa. Comigo sempre senti que era brincadeira mesmo, nada demais, mas já ouvi vários comentários preconceituosos sobre o sul também nessa questão da língua.
          O que você acha?

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