Andando pela Medina de Fez ou: uma história de espiar através de portas

Fez é outra cidade polêmica entre os viajantes pelo Marrocos. Quem não gosta, geralmente aponta a mesma razão: a maioria dos monumentos está fechado para turistas não-muçulmanos. E isso é verdade, já que a maioria deles são prédios religiosos e geralmente só muçulmanos podem entrar. Então o meu itinerário por Fez envolvia procurar por lugares, e então espiar pela porta para ver o interior. No início estava um pouco tímida, com medo de incomodar as pessoas, mas tantas vezes a minha curiosidade foi bem recebida, com pessoas que apontavam para a minha câmera e sorriam, que comecei a  fazer isso mais e mais. Mas só procurar e encontrar esses lugares também era parte do charme da cidade – as medinas do Marrocos são conhecidas como labirintos, e a de Fez é a mais labiríntica de todas, enorme, caótica, resistindo às tentativas dos mapas online de trazer ordem ao caos. 

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Vou começar a falar de Fez contando o meu itinerário pela medina. Comecei a visita pelo Portão Bab Bou Jeloud, uma das entradas para a Medina, que ainda é cercada por um muro. Um portão ficava nesse lugar desde o século XII, mas ele era pequeno, e na época da colonização francesa, já no século XX, as autoridades municipais decidiram que a cidade deveria ter uma entrada mais imponente, e construíram Bab Bou Jeloud. 

Marrocos Fez portão medina Bab Bou Jeloud

O primeiro lugar que eu fui ver em Fez na verdade foi um em que podemos entrar, a Medersa, ou escola religiosa, de Bou Inania. Assim como os palácios que vi em Marrakech, a medersa é conhecida pela arquitetura inspirada na Andalusia. Ela foi a última a ser construída em Fez pela dinastia dos marinidas, e o complexo também tem uma mesquita, que ainda está em funcionamento e por isso está fechada para visitantes.

Marrocos Fez medina Medersa bou inania 4

Marrocos Fez medina Medersa bou inania 2

Logo em frente, fica o Relógio Hidráulico de Fez, feito com um mecanismo tão complexo que a lenda local diz que ele foi desenhado por um mágico. Na verdade, ele foi construído no século XIV pelo responsável por manter os relógios da medersa, muito importantes para o anúncio que chama os fiéis para a oração cinco vezes por dia. Hoje, o mecanismo está sendo cuidadosamente reconstituído, mas o relógio continua funcionando para quem quiser vê-lo.

Marrocos Fez relogio hidraulico

A primeira das mesquitas que eu procurei para espiar pela porta foi a Mesquita Charabline. Ela foi construída no século XIV, e o minarete ainda está bem preservado dessa época. 

Marrocos Fez medina com mesquita charabline

Depois fui para o Funduk al-Najjariyyin, um mercado e pousada para mercadores, que acabou dando nome para toda a região. Eles construíram do lado de fora uma enorme fonte chamada de Nejjariyyin, como uma contribuição para a cidade. Hoje, ele abriga um museu, o Museu Nejarine de Artes e Artesanato de Madeira.

Marrocos Fez fonte al-Najjariyyin

De lá, outro lugar que espiei pela porta, a Zaouia Moulay Idriss II. Lá fica o túmulo de Moulay Idriss II, que governou o Marrocos no século IX e fundou a cidade de Fez. Ele é considerado um dos lugares mais sagrados do Marrocos, e por isso só pode ser visitado por muçulmanos. 

Marrocos Fez mausoleu moulay idriss ii visto de cima

Marrocos Fez mesquita e mausoleu moulay idriss II vistos de cima
Vista do mausoléu de cima

Marrocos Fez Mausoleu Zaouia Moulay Idriss II

De lá para outra Medersa famosa, a el-Attarine, do século XIV. Ela é famosa pela arquitetura, que azulejos e madeira engravada, mas isso é tudo que sei, porque infelizmente ela estava fechada para reformas. 

Logo depois, quase escondida no meio do Souq, achei outro mausoléu para espiar, o de Sidi Ahmed, famoso por ser muito ornamentado, com um minarete turquesa que chama a atenção de longe.

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Marrocos Fez espiando portas medina Sidi Ahmed al-Tijani Zaouia

Mas depois dela finalmente cheguei em uma das Mesquitas mais importantes da cidade, a el-Quaraouiyine. Ela foi fundada como uma medersa em 853, por Fatima al-Fihri, filha de um comerciante legal, e por isso é considerada um dos estabelecimentos de ensino mais antigos do mundo. Hoje ela ainda funciona como universidade – alguns a chamam de a universidade mais antiga do mundo, título que tá no Guinness mas não é amplamente aceito, já que alguns dizem que ela só se tornou uma universidade como a gente entende a palavra no século XX. Vou ser bairrista e dizer que a Universidade mais antiga do mundo é mesmo a onde estudo, em Bologna.

Mas a biblioteca é mesmo a mais antiga do mundo ainda em funcionamento, com cerca de quatro mil livros e manuscritos raros. Eu amo visitar livrarias e bibliotecas, que tem sua própria sessão aqui no blog, e queria muito visitar essa, mas a informação que eu tinha achado online era muito inconstante. Em alguns lugares, li que ela estava aberta para todos, em alguns que somente para muçulmanos, ou só para homens. Quando fui lá, eles me disseram que ela ainda estava sendo reformada, e estava fechada. Só consegui espiar a mesquita pela porta.

Marrocos Fez mesquita el-Quaraouiyine

A entrada da biblioteca ficava na Place as Seffarine, uma das mais agradáveis da Medina. A Medina costumava ser muito fortemente dividida por tipo de profissão, e isso desapareceu na maior parte dos lugares, por uma questão de praticidade. Esse lugar ainda mantém a tradição, e é dominado pelos vendedores de cobre. É só andar pela praça para ouvir o barulho dele sendo trabalhado.

Marrocos Fez place souffarine lojas mercados cobre

Outra parte da mesquita que chama a atenção são os curtumes. É uma das fotos típicas de Fez, a das piscinas com cores diferentes, usadas para tingir o couro. E não é fácil achá-las, porque o cheiro entrega onde elas ficam. O problema é que esse é um dos lugares mais desagradáveis da cidade para visitar. Quase todo mundo do albergue tinha alguma história sobre alguém que se ofereceu para guiá-los lá, e eles leram online que era normal e era só dar algumas moedas para a pessoa, mas no final eles foram cobrados um preço absurdo pelo “tour”. Ou de gente que entrou nas lojas de couro para ver a vista, e o dono trancou a porta e os pressionou para comprar algo. Ou de alguém que tava se sentindo mal por causa do cheiro, alguém ofereceu um raminho de menta para a pessoa colocar debaixo do nariz, e foram extorquidos um preço enorme por isso também. E era só passar perto para sofrer muito assédio de vendedores e “guias”. Combinado com o fato de seria só para tirar uma foto, e as piscinas não estavam coloridas porque era época de chuva, e acabei não indo.

fez curtumes
Elas estavam como essas de cima, todas brancas. Crédito: wiki commons

Fora da Medina, mas próximos, também ficam o Palácio Real, que ainda é usado, e por isso não pode ser visitado por dentro, e a Mellah, o bairro judeu. Bairros judeus eram construídos no Marrocos em quarteirões murados, separados do resto da cidade mas protegidos pelas suas autoridades, como os ghettos na Europa. A de Fez foi a primeira a ser construída assim, no século XV, e ainda possui sinagogas abertas para visitantes. Depois da Segunda Guerra, a maioria dos judeus do Marrocos emigrou, e  bairro caiu em desreparo. Hoje, ele também é famoso pelos mercados.

Marrocos Fez entrada mellah bairro judeu

E, ao norte da Medina, também fui visitar dois lugares famosos pela vista para ela. O primeiro foi o Borj Nord, parte das fortificações da cidade. Ele foi construído no século XVI combinando técnicas portuguesas e marroquinas – alguns dos construtores eram portugueses capturados na Batalha dos Três Reis em Alcacer, a mesma em que o rei Sebastião desapareceu e que é tão importante em Portugal. O forte também tem armas voltadas para a medina, provavelmente porque ele foi construído tanto para controlar a população da medina quanto para defendê-los de ataques. Hoje, ele tem um museu de armas tradicionais.

Marrocos Fez fortaleza vista borj nord

Marrocos Fez vista fortaleza medina borj nord

Marrocos Fez vista de cima borj nord

O segundo lugar famoso pela vista são os Túmulos Merenidas, hoje em ruínas. Eu cheguei lá exatamente quando uma chuva passava e um arco-íris se formava, o que fez ele parecer ainda mais lindo. Historiadores não sabem muito sobre o lugar, mas parece que eles eram túmulos reais, julgando pela imponência. Ele é popular com turistas para ver o pôr-do-sol ou para ouvir o chamado para as orações se espalhando pela medina. 

Marrocos Fez tumulos saadianos arco iris

O post tá ficando enorme, mas aproveitando para colocar mais algumas fotos da medina.

Marrocos Fez souqs mercados

Marrocos Fez ruas souqs

Marrocos Fez medina fontes

Fez também foi um bom lugar para ouvir música ao vivo. Fui ao Café Clock, do lado do relógio hidráulico, para ouvir uma banda de mulheres locais. Também foi lá que fiz uma aula de culinária, sobre a qual vou contar em um próximo post. O Café Clock também tem sedes, também com música ao vivo, em Marrakech e Chefchaouen.

Também fui ao Alif Riad, que geralmente funciona como escola de línguas, mas que estava abrigando um festival de arte quando eu estava lá.

Acabei ficando em Fez por cinco dias, visitando a cidade, mas também fazendo day-trips para outra das capitais imperiais do Marrocos, Meknès, para a cidade sagrada de Moulay Idriss e as ruínas romanas de Volubilis. Minha base na cidade foi o Riad Verus, o meu albergue preferido de toda a viagem, muito bonito por dentro, com funcionários que fizeram de tudo para me ajudar a planejar a viagem, e com um café da manhã incrível. Recomendo muito, porque as recomendações deles me ajudaram muito. Eles também oferecem opções de tours pelo deserto, voltando para Fez ou continuando para Marrakech, mas não fui com eles e não posso falar sobre ela.

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