Azerbaijão, Geórgia e Armênia – dicas gerais sobre vistos, meios de transporte, viagem independente, e quanto gastei em cada um

Aproveitando o primeiro post sobre a viagem para o Cáucaso para dar algumas dicas gerais sobre a viagem. Espero que ajudem.

 

Vistos

Azerbaijão – Brasileiros, assim como a maioria das nacionalidades, precisam de visto para o Azerbaijão. A boa notícia é que o processo do evisa é bem fácil, pelo menos para quem nunca visitou sem autorização o Nagorno-Karabagh, o território que eles disputam com a Armênia. Tem duas opções, o visto para até um mês de turismo, que você recebe em até três dias úteis e custa 25 dólares, e o visto urgente, que custa o dobro e você recebe em até 3 horas. Eu preenchi o formulário online, com dados do passaporte e do meu primeiro albergue no país, paguei os 25 dólares e recebi o visto por email bem rápido, em menos de doze horas. Algumas pessoas que conheci foram recusadas por preencher algo errado, e tiveram a chance de corrigir o erro pagando mais uma taxa. O maior problema com o evisa são os sites de agências que aparecem primeiro no google e cobram taxas para fazer esse processo bem simples. Cuidado para usar o site oficial!

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Pule as propagandas e vá ao site oficial!

Chegando no Azerbaijão, fui atendida na fronteira por uma moça simpática que viu meu passaporte e falou sorridente “yo hablo espanol”. Então acabei respondendo em portunhol a meia dúzia de perguntas, mas tudo muito simples e direto.

Geórgia – Brasileiros não precisam de vistos para ir à Geórgia, por até 90 dias por turismo ou 365 dias a negócios (parece que eles estão tentando atrair nômades digitais, por isso a estadia longa, e por isso também eles colocaram internet rápida no país todo). A única pergunta que me fizeram foi o motivo da visita, eu falei turismo e pronto.

Armênia – Brasileiros também não precisam de visto na Armênia, e podemos ficar lá por 90 dias. Eu entrei na Armênia por uma fronteira que não parecia ter muitos turistas (para exemplificar, quando saí da Geórgia os guardas entraram na cabine para ver meu passaporte brasileiro). O moço me fez algumas perguntas meio em russo meio em inglês, perguntando o motivo da visita, o motivo da minha visita ao Azerbaijão, o que eu tinha feito lá, quantos dias em cada país, o nome, endereço e telefone do meu albergue em Yerevan (bom que o app do Hostelworld funcionava online).

Importante sobre cruzar fronteiras: lembrando que a Armênia tem fronteiras fechadas com o Azerbaijão e a Turquia, e a Armênia e o Azerbaijão estão em guerra. Dizem que é melhor ir para o Azerbaijão primeiro e a Armênia depois, porque no Azerbaijão eles podem te perguntar ainda mais, e te negam entrada se você foi no território disputado entre os dois. Também achei bom começar por lá porque a maioria das pessoas que conheci tinha começado pela Geórgia e acabou fazendo um itinerário estilo Geórgia – Azerbaijão – Geórgia – Armênia – Geórgia – Turquia – Geórgia. Vi pessoas com duas páginas do passaporte só de carimbo da Geórgia.

 

Meios de transporte

Marshrutka – o modo e transporte onipresente na região é a marshrutka, uma van típica dos ex países soviéticos.

Quem odeia marshrutkas vai contar histórias de terror sobre ficar horas no carro no sol ou no frio esperando até o motorista encher todos os assentos, e depois os assentos adaptados colocados no carro, e depois banquinhos de plástico que ele coloca lá ninguém sabe como, até você não dar conta de se mexer lá dentro. Vão falar sobre motoristas rudes e que dirigem como maníacos, fumam dentro do carro e ligam um pop local no maior volume durante o caminho todo.

Quem ama marshrutkas vai dizer que é uma experiência comunitária, sobre como as pessoas descobrem que você é brasileiro e insistem que você prove as frutas do quintal deles, a aguardente caseira, fazem o motorista parar e comprar khatchapuri para a galera, até que você chega no seu destino cheio, com um milhão de recomendações locais e contatos novos.

A maioria das marshrutkas que eu peguei tiveram elementos dos dois, e realmente acho que é uma experiência típica imperdível.

 

Azerbaijão – O transporte no Azerbaijão foi bem tranqüilo. De Baku, existem trens noturnos para alguns dos destinos mais populares, como Sheki, Ganja e Tbilisi, e também existem ônibus (ônibus de verdade, em uma rodoviária com plataforma). Para ir de Sheki a Tbilisi, peguei uma marshrutka para Qax, mais perto da fronteira, e depois uma direto para Tbilisi. Outra opção seria pegar uma para Ganja e, de lá, um trem.

Ouvi falar que é mais difícil para as vilas nas montanhas, que eu não visitei, com algumas pessoas falando que as estradas são bem ruins e os meios de transporte são mais difíceis. Mas também parece que o governo tem investido muito na infra-estrutura turística, então tem melhorado.

Geórgia – o principal meio de transporte que peguei na Geórgia foram as marshrutkas. Geralmente não existem muitos sinais, e só os nomes das cidades mais turísticas estão no nosso alfabeto. Então o jeito é sair perguntando. Algumas pessoas me falaram que tiveram experiências ruins com taxistas, que diziam que não tinha marshrutka ou insistiam para a pessoa ir de táxi. Mas geralmente eles estavam logo na entrada das rodoviárias, então eu sempre perguntava e sempre me apontaram a direção sem nenhum problema. Algumas rodoviárias são caóticas, como a de Didube em Tbilisi, em que você fica andando em meio ao mercado tentando encontrar o lugar onde está a sua marshrutka, mas todas são acessíveis com transporte público, e não tive problemas para achar os meios de transporte. Também costumam ser bem baratas, exceto no Svaneti, onde acho que tem menos competição e eles combinam os preços. 

Para muitos destinos também existem trens, que geralmente são muito lentos, muito mais do que as marshrutkas, e tem menos opções de horários, mas são confortáveis e baratos. Os bilhetes para destinos nacionais podem ser comprados no app Georgian Railways. Para comprar na estação, sempre leve o passaporte.

Armênia – depois dos outros países e de estar há algumas semanas no Cáucaso, achei que ia tirar de letra. Mas o transporte público da Armênia foi um desafio. Em Yerevan o metrô é pequeno e não leva em tantos lugares (embora seja barato e com anúncios em inglês, então tem pontos a seu favor). Para a maioria dos lugares, é necessário pegar ônibus, e eles não aparecem no Google Maps. Alguém me falou em um app, mas os funcionários do albergue me disseram que não confiam nele. O que eles me recomendaram foi ir aos pontos de ônibus e perguntar aos locais que ônibus ia a cada lugar. Os armênios são gentilíssimos, e mais uma vez ficou o ponto inteiro discutindo qual era o melhor ônibus, até que alguém ligava para um primo que morava perto da estação de ônibus que eu queria e tirava a teima. Mas às vezes não tinham certeza, o que é normal, afinal eu morei a vida inteira em BH e só sei ir para o centro e para a UFMG. Só que era um saco depender da caridade de estranhos para poder chegar a qualquer lugar. O que a maioria dos turistas acaba fazendo é pegar táxi para qualquer lugar, porque eles raramente passam de mil drams (2 euros) dentro da cidade. Se você não fala armeno ou russo, ou não quer ficar negociando o preço, é melhor usar os apps. Tem o Bolt e o Yandex, que funcionam nos três países do Cáucaso, e o GG, que é local e tem a fama de ser o mais barato.

Entre cidades, era ainda mais difícil. Os ônibus que peguei em Yerevan funcionavam bem, saíram no horário e na rodoviária onde eu tinha procurado, apesar de eu ter ouvido falar que eles às vezes mudam de rodoviária sem aviso. No interior, eu tive muitas vezes o problema de chegar em uma rodoviária e ser informada que naquele dia não tinha ônibus. Tive que pegar ônibus para outra cidade convencendo o motorista a me deixar em uma terceira cidade no caminho apenas para chegar lá e descobrir que lá também não tinha ônibus. Por isso tive que pegar um táxi entre uma cidade e outra, e isso aumentou bem os custos da Armênia. O que eu recomendo na Armênia, sinceramente, é pegar carona, porque as pessoas param muito e é fácil, especialmente se você fala um pouco de armenio ou russo.

 

Dinheiros

Azerbaijão – a moeda local é o Manat. Quando eu estava lá, a cotação tava 1 euro = 2 manat. Saquei dinheiro em atms em Baku e Sheki sem problemas.

Geórgia – a moeda local é o Lari, e a cotação era 1 euro = 3 lari. Também vi atms em todas as cidade pelas quais passei. A maioria dos lugares também aceita cartão, inclusive os ônibus da cidade, em que você pode só encostar o seu cartão no contactless e ser cobrado 1 lari (mas se você tiver o cartão do metrô são só 50 centavos).

Armênia – a moeda local é o Dram, e quando eu estava lá 1 euro = 500 drams. Usei atms em Yerevan e Alaverdi.

 

Preços

O que eu ouvi antes de viajar era que a Geórgia era barata, a Armênia era super barata, e o Azerbaijão era caríssimo, fazendo valer a reputação de Baku de pequena Dubai. Mas quando comecei a procurar um albergue para ir para Baku, vi que a maioria era em torno de 8 euros, o que é bem razoável. Segundo a “regra do terço”, em que o preço da acomodação geralmente é um terço dos gastos, parecia bem mais barato do que diziam, e foi. Na verdade, acabou sendo o mais barato dos três.

Algo importante sobre os três é que se você tem uma carteira de estudante, leve. Recebi descontos imensos, geralmente em museus públicos pagava um décimo da entrada, principalmente na Geórgia e na Armênia. Levei minha carteirinha da universidade na Itália.

E uma grande dica para quem quer economizar é ter cuidado com os restaurantes mais turísticos, que em todos os três estão com mania de colocar preços sem impostos. Depois você recebe a conta e eles acrescentam 20% de impostos, e mais 10% sobre o total com impostos pelo serviço. Sempre olhe o menu com atenção, porque tem que estar escrito lá – se não, você pode se recusar a pagar.

Azerbaijão – média: 19,6 euros por dia – Até me surpreendeu, porque essa foi sem tentar muito. Eu estava agindo normalmente: quarto compartilhado, a maior parte transporte público, mas, quando não tinha para o Qobustão, dividi um táxi com um povo do albergue, comprei comida no supermercado para o café da manhã, comprei frutas e fiz algumas saladas, mas também comi fora, em resumo, foi bem balanceado e saiu mais barato que eu esperava. 

Geórgia – média: 24 euros por dia – para ser justa, dava para gastar menos na Geórgia. A grande vantagem para economizar no país é que a infra-estrutura de turismo é bem desenvolvida e a competição mantém os preços baixos. Por isso, mesmo na alta-temporada, tinha albergue em Tbilisi por 2 euros! (mas achei que só ia ter adolescente e gente que vive no albergue, e paguei mais). O transporte é barato, e geralmente confiável. O que aumentou um pouco os gastos foi o tanto que eu amo a comida e querer jantar fora todo dia por causa disso. Mas nem tem restaurante da Geórgia onde eu moro e por isso nem me arrependo.

Armênia – média: 26 euros por dia –  achei os preços de acomodação na Armênia um pouco mais caros do que nos outros dois, enquanto tinha ouvido falar de todo mundo que seria oposto. Parece que em outras épocas é, mas tava tudo mais caro no verão, e não tem tanta competição como nos outros para dar uma segurada. Mas o maior problema para economizar foi o transporte mesmo, já que, como falei acima, tive que depender de transporte privado em algumas ocasiões. A comida era muito barata, principalmente no supermercado, e as atrações também.

 

Comunicação

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Isso foi em comum nos três: quem é jovem costuma falar inglês, e quem é mais velho costuma falar russo. Como nos países Bálticos, tinham me dito para não falar russo porque as pessoas odiavam a União Soviética. E como nos países Bálticos, não foi essa a minha experiência. Mesmo na Geórgia, que tem 20% do seu território atualmente ocupado pela Rússia, as pessoas ficavam felizes de conseguir se comunicar, e tinham ou a praticidade de entender que o turismo russo traz muita grana ou a bondade de não confundir um presidente autoritário com seu povo (como brasileira em 2019, acho maravilhoso). Na Geórgia e na Armênia, onde eles usam alfabetos próprios, ajudou muito também saber o alfabeto cirílico. 

Também foi muito legal poder conversar e ouvir opiniões das pessoas mais velhas. Ouvi críticas sobre a União Soviética, mas muito mais discurso saudosista e teorias de conspiração (ah, você estuda história? Vocês no ocidente sabem que o Beria envenenou Stalin?). Foi bom ter uma oportunidade de conversar com pessoas com as quais eu não conversaria, e ótimo para praticar o russo também.

 

Mulheres viajando sozinhas

Em geral, achei a viagem bem fácil e me senti segura o tempo todo. Encontrei muitas mulheres viajando sozinhas, e os índices de violência dos três países são baixíssimos. A Geórgia tem menos criminalidade que a Alemanha, e os outros dois tem índices piores por causa de escaramuças na fronteira, o que não costuma afetar turismo.

Senti um pouco de assédio, principalmente na Armênia, onde uns caras se materializavam na minha frente e tinham a brilhante idéia de começar uma conversa perguntando “are you married????”. Também passei por dois incidentes ruins. Teve um taxista na Geórgia que me viu lendo em uma praça e ficou tentando me convencer a fazer um tour, mas que depois quando descobriu de quando eu era, começou a me perguntar um milhão de coisas sobre o Brasil. Todo mundo que passou pela gente pelos 10 minutos em que conversamos ele chamava e me apresentava, falando “essa é a Júlia, ela é do Brasil e ela me disse que lá também tem montanhas, mas não tem monastérios antigos como os nossos”. Ele me apresentou para duas famílias de vizinhos dele, fazendo as crianças me cumprimentarem em inglês, para um monge ortodoxo e nem sei mais quem, mostrou fotos no celular de todos os netos. Isso tudo durou uns dez minutos, e quando tentei levantar para sair ele agarrou meu braço para ver minhas tatuagens (o que aconteceu muito com muita gente mais velha no Cáucaso) e falou que eu devia fazer uma com o alfabeto da Geórgia. Eu comecei a rir e ele falou “e você devia fazer aqui” enfiando a mão dentro da minha blusa. Eu saí gritando xingando ele em uma mistura de russo, inglês e português, pensando a falta que faz não saber falar “aqui de cu é rola” em georgiano.

A segunda foi de um taxista que me ofereceu carona em Alaverdi, na Armênia. Ele se ofereceu para me levar em todos os monastérios de graça, esperar por mim e me trazer de volta. Eu achei que era golpe, no estilo te levar e depois cobrar 100 euros pelo passeio. Desconversei e fui embora. Depois encontrei ele mais duas vezes andando pela cidade, com dois outros caras no carro, e os três me chamando e dizendo que iam me levar de graça aos monastérios. Na segunda vez eu já estava assustada, e um deles me disse não era para ter medo, que o taxista tinha ligado para ele, dito que tinha visto uma menina muito linda que eles estavam dando voltas de carro pela cidade procurando por mim para me levar onde eu quisesse. Esse realmente estragou meu dia, porque fiquei com medo de andar pela cidade e dar de cara com três caras que já tinham admitido que estavam me seguindo. Acabei marcando um tour para chegar aos monastérios só para não ir sozinha.

Foram essas as situações, mas em geral ainda achei tranquilo. Eu me senti muito segura a maior parte do tempo.

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