Volta ao Mundo em Livros: Filipinas – Insurrecto

O livro começa quando Magsalin, uma escritora de livros de mistério e tradutora, volta para as Filipinas depois de muitos anos em Nova York. Ela está escrevendo um livro sobre Chiara Brasi, uma cineasta estadunidense que planeja um filme sobre um massacre esquecido da guerra entre os EUA e as Filipinas. O pai de Chiara tinha feito um filme nas Filipinas nos anos 70 sobre a guerra do Vietnã, e que tinha ganho status de cult desde então. E ela decide ir para as Filipinas para gravar seu próprio filme.

Chiara, apesar de ser possivelmente ficcional, contrata Magsalin como sua intérprete para uma viagem para a ilha de Samar, e as duas partem para Balangiga, a cidade onde o massacre aconteceu em 1901. Três anos antes a Espanha tinha perdido uma guerra com os Estados Unidos e sido forçada a ceder três colônias, as Filipinas, Guam e Puerto Rico. A população das Filipinas lutava por independência e não aceitou ter um novo colonizador, e uma nova guerra começou. O coronel Robert Hughes, na ilha de Samar, tentou forçar a resistência a se render controlando os estoques de comida e com uma política de destruição de propriedade. Os filipinos resistentes organizaram um ataque à base estadunidense, matando dezenas de soldados, e os estadunidenses reagiram massacrando a população civil. No romance, elas repetem uma frase do general Jacob Smith, encarregado de “pacificar” a ilha: “I want no prisoners. I wish you to kill and burn; the more you kill and burn, the better it will please me… The interior of Samar must be made a howling wilderness…” 

A partir daí, o livro se torna um duelo de roteiros, em uma forma muito literal de mostrar uma disputa de narrativas. O roteiro de Chiara sobre a guerra é contado na perspectiva de uma fotógrafa branca que ela criou, e, apesar de ser ostensivamente sobre a guerra, também fala do filme que seu pai rodou nas Filipinas e da sua própria infância.

Magsalin lê o roteiro de Chiara e questiona o quando a estadunidense entende da história do país – todo o roteiro é baseado em uma página da web, a única pesquisa que ela fez. E o quanto a própria Magsalin entende sua história. Uma das primeiras disputas é sobre como chamar os filipinos que lutam contra a colonização – Chiara chama o que aconteceu de insurreição, e Magsalin sempre a corrige e chama de revolução. Então, em resposta, ela escreve o seu próprio roteiro. A segunda versão segue uma professora de escola filipina, Casiana Nasionales, uma figura real e a única mulher a participar do movimento, mas praticamente esquecida. A questão que o livro parece nos fazer perguntar o tempo todo é: a quem cabe contar essa história? E com isso eu quero dizer a história do massacre, em primeiro lugar, mas também a história do colonialismo como um todo.

there is the eye of the colonized viewing their captured history in the distance created by time;

there is the eye of the captor, the soldier, who has just wounded the captured;

there is the eye of the captor, the Colonizer who has captured history’s lens;

there is the eye of the citizens, bystander, belligerent, blameless, blamed, whose history has colonized the captured in the distance created by time.

and there is the eye of the actual photographer: the one who captured the captured and the captors in his camera’s lens – what the hell was he thinking?

O livro é desorientador – não só a gente está lendo dois roteiros no meio da história, e todo personagem parece ter um duplo, mas os capítulos aparecem fora de ordem e se confundem – há quatro capítulos um. É como O Jogo da Amarelinha do Cortázar, em que você tem que reler o livro em várias ordens para pegar significados diferentes. 

Gostei muito desse livro, especialmente de como ele mostra uma questão que me interessa tanto, que é a da disputa de narrativas e de a quem cabe contar uma história.

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