Arquitetura e História em Marrakech: Os túmulos saadianos, palácio el Badi e palácio el Bahia

Um dos meus dias em Marrakech foi dedicado a conhecer três lugares famosos pela arquitetura. Todos os três queriam ser uma mostra do melhor da arquitetura islâmica e foram muito influenciados pela cultura da Andaluzia. Quando os muçulmanos e judeus foram expulsos da Espanha, muitos atravessaram o estreito para o Marrocos e levaram para lá essa cultura riquíssima. E realmente, eles logo me lembraram da Espanha, e eu sentia a mesma vontade de deitar no chão e olhar para o teto por horas, imaginando como alguém esculpiu cada pequeno detalhe. Mas eles também são lugares chave da história do Marrocos, onde consegui aprender um pouco mais sobre ela. Então vou contar um pouco sobre a visita.

Os túmulos saadianos

Marrakech tumulos saadianos arquitetura andalusia 1

Comecei pelos túmulos Saadianos, que ficam um pouco fora da medina, cerca de quinze minutos andando da praça Djema el-Fna. Eles são um mausoléu, onde estão enterrados cerca de sessenta pessoas da dinastia saadiana, que reinou no Marrocos nos séculos XVI e XVII, e mais de cem de seus conselheiros.

O rei Ahmed el-Mansour não economizou para ter algo tão glorioso quanto a Andaluzia: o mausoléu foi construído com mármore de Carrara importado da Itália, e decorado com ouro.

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Quando a dinastia saadiana acabou, foi substituída pelos alauítas. O primeiro deles, Mulai Ismail, mudou a capital do país para Meknes e se esforçou por destruir muitos dos lugares relacionados à dinastia anterior. Ele não destruiu esse lugar por superstição, já que um mausoléu é um lugar religioso, mas mandou que o entorno fosse murado, deixando só uma pequena passagem que vinha da mesquita de Koutobia. Os túmulos ficaram esquecidas por quase duzentos anos, até que uma fotografia aérea tirada no início do século XX despertasse a curiosidade das autoridades com o lugar. Elas foram abertas e começou um processo de restauração.

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Palácio El Badi

Marrakech palacio em ruinas el badi

Quando eu continuei a visita no palácio El Badi, vi realmente o que poderia ter acontecido com os túmulos saadianos se Mulai Ismail não tivesse medo de cometer sacrilégio. El Badi, que significa “incomparável” em árabe, tinha sido construído pelo sultão Ahmad el Mansour no final do século XVI para impressionar embaixadores estrangeiros. Ele subiu ao trono depois da Guerra dos Três Reis, em que o rei português Sebastião apoiou o outro lado e terminou desaparecendo na Batalha de Alcácer-Quibir (para quem lembra das aulas de história, ele não tinha herdeiros e foi o que deu início à União Ibérica). Ahmed el Mansour capturou um grande número de portugueses nobres que estavam no exército e cobrou resgate das suas famílias em Portugal. Foi assim que ele financiou esse palácio.

Marrakech palacio em ruinas el badi de cima

Marrakech palacio em ruinas el badi cegonhas 1
Cegonhas nos altos dos muros

O palácio foi construído em 25 anos, e diz a lenda que tinha 360 quartos. Ele era considerado uma das mostras da riqueza da dinastia saadiana, construído com mármore italiano, ônix e decorado com ouro sudanês, com pátios com espelhos d’águas que refletiam os prédios e árvores de frutas (inclusive algumas exóticas como bananas). Dizem que quando ele foi inaugurado, a maioria dos hóspedes o proclamava a oitava maravilha do mundo. O bobo da corte foi mais pessimista: ele disse que ele seria uma linda ruína um dia. Pouco depois, como a gente contou, a dinastia dos alauítas tomou o poder e Mulai Ismail quis destruir tudo que mostrasse a glória de seus antecessores. Ele demorou quase uma década para tirar tudo de valor de el Badi e mandar para a nova capital que estava construindo, Meknès.

Marrakech palacio em ruinas el badi vista
Vista para a Medina

Hoje, a gente precisa de um pouco de imaginação quando visita El Badi. Não que o bobo da corte estivesse errado: ele é uma linda ruína. Mas se você quiser pensá-lo como era, só sentar na ilhazinha do meio do espelho d’água e tentar. O pequeno museu quando eu fui tinha várias imagens de como historiadores acham que ele se parecia. Eles também tem um famoso púlpito talhado em madeira da Andalusia do século XII que é um dos orgulhos da coleção, e estavam tendo uma exposição com fotos antigas de Djema El-Fna.

Palácio El Bahia

Marrakech palacio bahia teto patio

Marrakech palacio bahia teto patio 3

O Palácio El Bahia foi comissionado pelo grão vizir Si Moussa, um escravo negro que tinha chegado à posição de principal conselheiro do sultão Moulai Hassan. Depois da morte de Si Moussa, seu filho, Bou Ahmed, seguiu seus passos. Quando o sultão morreu, ele organizou um golpe contra seu filho mais velho, colocando o mais novo, de apenas catorze anos, no poder. Então ele se auto-proclamou grão-vizir e conseguiu concentrar uma quantidade enorme de poderes no reino. Ele desapareceu misteriosamente em 1900, quando era o homem mais poderoso do país, e grande parte de sua influência tinha sido utilizada para construir o palácio. Bou Ahmed viveu aqui com suas quatro esposas e vinte e quatro concubinas, e chamou o palácio com o nome de sua favorita – El Bahia – brilhante, esplendoroso.

Marrakech palacio bahia teto jardins do harem

O grande pátio do palácio foi construído em mármore de Carrara, assim como os outros palácios da lista. Mas ele não foi importado da Itália, mas tirado do palácio real de Meknès. Ou seja, provavelmente dois séculos antes ele fez parte do palácio El Badi, lá do lado.

Depois do desaparecimento de Bou Ahmed, o palácio mudou de mãos algumas vezes. Ele foi centro do protetorado francês quando o Marrocos foi colonizado, e temos vários relatos de como ele era nessa época. A romancista estadunidense Edith Wharton morou nele por um tempo, e conta a experiência nos seus livros.

Marrakech palacio bahia teto janela

Marrakech palacio bahia teto porta

Todos os três são mencionados por nome na decisão da UNESCO de reconhecer a medina de Marrakech como Patrimônio da Humanidade, e são algumas das atrações mais populares da cidade. Isso tem um lado negativo – em todos os blogs que eu tinha lido e no meu guia, o preço da entrada em cada um era 10 dirhams (1 euro), e quando eu cheguei lá tinha subido para 70 (7 euros) cada. Um outro lugar faltou nessa lista, mas também é conhecido pela arquitetura inspirada na Andaluzia – a medressa Ben Youssef, que estava fechada para reformas.

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