Volta ao Mundo em Livros: Albânia – Abril Despedaçado

A Albânia é um daqueles países em que as recomendações são unânimes, e todo mundo te fala para ler Ismail Kadaré. O livro escolhido foi um dos seus mais celebrados, Abril Despedaçado.
O romance começa com Gjorg Berisha, que está em uma tocaia esperando o homem que ele deve matar. Ele pensa que não pode errar o tiro, porque da última vez que tentou matá-lo, ele só o feriu e a sua família teve que pagar uma indenização. Dessa vez ele acerta o tiro, e sua única preocupação é se ele fez tudo de acordo com o código de honra: se ele gritou antes para avisar o homem em quem ele ia disparar, se ele o virou para não deixá-lo com o rosto na terra, se ele lembrou de colocar o rifle perto da sua cabeça.
Porque o assassinato cometido por Gjorg Berisha foi feito para vingar seu irmão mais velho. Segundo as regras do Kanun, o código de honra das montanhas da Albânia, ele tem o dever de pagar sangue com sangue, ou traz vergonha para a família. Quando seu irmão foi assassinado por Zef Kryeqyq, a camisa ensanguentada foi pendurada pela sua família, e ver sempre o sangue ficando amarelado o lembrava do que ele precisava fazer. E o mesmo tinha acontecido com os Kryeqyq, porque a briga entre as família já dura setenta anos, desde quando os Kryeqyq mataram um hóspede sob a proteção dos Berisha, e já deixou vinte e um mortos de cada lado. Depois do assassinato, Gjorg tem ainda que ir ao funeral do homem que ele matou e tem que pagar o dinheiro de sangue para a família nobre local, e a família inimiga lhe concede um Bessa, trinta dias de graça até que eles comecem a buscar a sua morte. Ele tem até 17 de abril, e poucas chances de sobreviver até o fim do mês.
As regras do Kanun também apareceram no filme que vi para a Albânia, Virgem Jurada, que fala de uma mulher que resolveu viver como homem, abrindo mão de qualquer relação amorosa ou sexual, para escapar das restrições impostas a mulheres. Uma regra aparece tanto no livro quanto no filme: quando uma mulher se casa, a família dela coloca no dote uma bala. Se ela tentar fugir, o marido pode usá-la. O livro conta ainda outros casos que mostram a situação das mulheres na região, como a de uma mulher que foi sequestrada e estuprada por três irmãos. O marido dela não quer começar um ciclo de vinganças que vai dizimar sua família, então pede a ajuda de um interpretador do Kanun que é uma celebridade na região, e ele dá aos irmãos duas escolhas: ou eles escolhem um deles para morrer e pagar a dívida, ou eles mandam as esposas deles para serem estupradas pelo homem cuja honra eles ofenderam. Ou seja, a solução é mais estupros porque o que interessa é a honra dos homens e mulheres são coisas. Esse interpretador do Kanun é outro personagem que seguimos por um tempo no livro. Outro personagem interessante é Mark, o responsável por receber o dinheiro do sangue, que está preocupado com um artigo que foi publicado em um jornal da cidade sobre como as indenizações e as brigas entre famílias se tornaram uma indústria, da qual os nobres locais ganham mais dinheiro do que dos impostos normais.
Também seguimos um casal da cidade que passa a lua-de-mel nas montanhas. Como eles estão viajando, também cruzam com vários dos outros personagens e nos mostram várias aldeias. Em uma, eles encontram uma mulher idosa que caiu e se machucou, e que passou o dia inteiro à beira da estrada esperando alguém que lhe ajudasse. Ela reclama que os homens da sua vila não podem ajudá-la, mal saem de casa, porque das duzentas famílias da vila só vinte não estão envolvidas em vinganças de sangue, e por isso os homens vivem todos enclausurados porque o código diz que não podem ser assassinados em suas casas.
O casal serve muito para contar mais sobre como o Kanun funciona, já que é tão distante para eles quanto para a maioria de nós leitores, mas também para zombar das suas pretensões de civilidade. O marido, Bessian, é um autor famoso fascinado pelo Kanun. Ele está sempre preparando afirmações pomposas sobre como ele se compara com o Código de Hamurabi, como essa região mantém práticas de comunicação oral da época da Ilíada, e é óbvio que ele exotiza e romantiza a vida na região. Como Kadaré já era famoso na Europa, fiquei pensando se não era uma forma de zombar dos “civilizados”, como Bessian se chama, que leriam o livro e como eles reagiriam a esse mundo. Ele também trata a esposa de forma paternalista e condescendente, e inventou essa lua-de-mel para um lugar perigoso para impressionar amigos.

Conforme o livro vai se aproximando dos Idos de Abril, vemos como o Kanun afeta a vida de cada um deles, e tememos o que pode acontecer com cada um.

Esse foi meu centésimo livro/filme do projeto e com razões para celebrar: que livraço.

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