O Rijksmuseum e a idade dourada holandesa

Como eu amo a Idade Dourada da Pintura Holandesa, o Rijksmuseum entrou no meu roteiro de Amsterdam imediatamente. Eu estava doida para ver Rembrandt, Vermeer, Frans Hals. Mas logo no início já fui conquistada por algo bem diferente: casas de bonecas. Então bora lá, contar um pouco sobre a visita?

Eu visitei o Rijksmuseum duas vezes quando estava em Amsterdam, graças ao Museum Kaart, o passe que te permite entrar em todos os museus públicos de toda a Holanda de graça por um ano. Eu amo museus, e quando eles são caros como o Rijksmuseum, eu costumo fazer loucuras como passar dez horas lá dentro de uma vez para ver tudo o que eu quero sem pagar duas entradas, então foi muito bom ter essa opção. Ele custava 50 euros e só o Rijksmuseum custava 14 euros, então valeu a pena financeiramente também. Se você vai para Amsterdam em uma viagem mais curta, é bom comparar com o I Amsterdam também.

Amsterdam Rijksmuseum praça museus arte

O Rijksmuseum foi fundado em 1800, no início da República Batava, para dar à Holanda um museu nacional. Em 1808, ele foi transferido de Haia, que perdia o posto de capital, para Amsterdam. Um concurso foi feito para decidir a arquitetura do prédio, e o vencedor foi Pierre Cuypers, com um desenho cheio de elementos góticos e renascentistas.

O Rijksmuseum tem muitas obras de pintores estrangeiros, mas eu foquei a visita nos pintores da Idade Dourada. Esse é nome pelo qual é conhecido um período do século XVII em que a Holanda se tornou independente do domínio espanhol, e se transformou em um dos países mais ricos da Europa, em grande parte graças ao colonialismo. Foi um período de grandes avanços na ciência, no comércio e na arte impulsionados por esse dinheiro.

Quando eu entrei, as primeiras obras que vi não foram pinturas, mas as tais casas de boneca. Elas não eram brinquedos de criança, mas um hobby da aristocracia no século XVII. A mais famosa pertencia a Petronella Oortman, que era uma réplica exata, construída na escala, de sua própria casa, com tudo, até mini talheres de prata. E que, aliás, custou o preço de uma casa nova nos canais de Amsterdam.

 

rijksmuseum casas de bonecas Petronella Oortman
Créditos: wiki commons

Uma das primeiras pinturas que fui ver foi Paisagem de Inverno com Patinadores, de Hendrick Avercamp. Ela mostra um inverno rigoroso na Holanda, em que os rios se congelaram, e as pessoas patinando no gelo. Isso me atraiu na hora porque eu estava na Holanda no inverno, e todo dia alguém reclamava comigo que os invernos não eram mais como antigamente, que os canais da Amsterdam não congelam mais, que os jovens não patinam bem porque aprendem em lagos artificiais, que os barcos de turistas quebram o gelo.

Também é uma pintura interessante porque é uma que dá vontade de olhar por muito tempo e ver todos os detalhezinhos, a armadilha de pássaros, o cachorro puxando uma carcaça, os pescadeiros no veleiro congelado no lugar.

Hendrick Avercamp paisagem inverno com patins rijksmuseum
Créditos: wiki commons

Depois vi o Retrato de Nicolaes Hasselaer, de Frans Hals. Hasselaer era um cervejeiro muito respeitado em Amsterdam, mas o retrato é conhecido pela informalidade. A pose é tranquila, as pinceladas são visíveis, e por isso ele é tão vívido. Frans Hals é conhecido pelos retratos, e o Rijksmuseum tem dezenas deles.

 

rijksmuseum frans hals hasselar retrato
Créditos: wiki

Outro dos retratos famosos de Frans Hals é o Retrato de Casamento de Isaac Massa e Beatrix van der Laen. Os noivos parecem relaxados, em um piquenique, o que era extremamente inusual para a época, mas que dá uma aparência bem cativante.

rijksmuseum Frans Hals retrato casamento
Créditos: wiki commons

O próximo retrato que vi foi o Retrato de uma Menina Vestida de Azul, de Johannes Cornelisz Verspronck. O pintor era de Haarlem, como Frans Hals, mas tem um estilo completamente diferente. A menininha retratada como uma mini-adulta é um dos quadros preferidos de visitantes, e um dos que mais vende souvenirs na lojinha.

Rijksmuseum Johannes Cornelisz Verspronck retrato menina vestida azul
Créditos: wiki commons

O primeiro Rembrandt que eu vi é um bem diferente da maioria dos seus quadros: A Lição de Anatomia do Dr. Deijman. O quadro foi muito destruído em um incêndio, e recortado para manter só o que a gente vê hoje: a dissecação do cérebro de um condenado à morte. Rembrandt aparentemente gostava de autópsias, já que ele também retratou outras, inclusive uma mais famosa que está hoje no Mauritshuis em Haia.

rijksmuseum rembrandt lição de anatomia
Créditos: wiki commons

Outro Rembrandt maravilhoso lá foi A Noiva Judia, um de seus quadros mais famosos. Apesar do nome, ele é um mistério, com teorias de que ele retrate um casal do Antigo Testamento ou noivos modernos em Amsterdam. A pintura na manga do homem é tão grossa que parece que o pintor usou uma faca para colocá-la lá. Foi o que eu mais gostei em ver as pinturas de Rembrandt pessoalmente, como elas tem tanta textura, o que dá para ver imediatamente no quadro, mas é impossível ver em uma imagem em um livro ou blogs. Era um dos quadros preferidos de Van Gogh, que disse uma vez que ele teria alegremente dado dez anos de sua vida para poder se sentar em frente ao quadro por duas semanas ininterruptas.

rijksmuseum rembrandt noiva judia
Créditos: wiki commons

Depois vi as naturezas mortas de Willem Kalf. Geralmente não é meu tipo preferido de pintura, mas fiquei encantada com as dele depois que o audioguide me apontou um detalhe maravilhoso: muitas das pinturas tem laranjas e limões descascados, e as cascas tem várias vezes o tamanho que deveriam.

willem kalf natureza morta
Créditos: wiki commons

Um quadro com uma história interessante é o Cisne Assustado, de Jan Asselijn. Ele mostra um cisne em tamanho natural tentando se defender de um cachorro. Desde que foi pintado, o cisne tem sido interpretado como uma alegoria de Johann de Witt, um famoso político holandês que foi linchado nas ruas de Haia, protegendo o país dos seus inimigos. Por isso, ela foi a primeira pintura a fazer parte das coleções que deram origem ao Rijksmuseum.

rijksmuseum cisne assustado
Créditos: wiki commons

Outro dos aspectos mais famosos da Era Dourada é o moralismo, e essa era a idéia por trás de A Família Feliz, de Jan Havickszoon Steen. O quadro mostra exatamente o que o título descreve: uma família em um momento íntimo e feliz. Mas ele foi pensado como um aviso de que as crianças copiam os pais, e por isso vemos as crianças no primeiro plano bebendo vinho. O aviso foi tão forte que até hoje existe uma expressão, ‘een huishouden van Jan Steen’, uma casa como de Jan Steen, para falar de uma casa cheia de coisas e bagunçada.

rijksmuseum steen familia feliz
Créditos: wiki commons

Depois da minha visita à Delft, eu estava com ainda mais vontade de ver os quadros do Vermeer. Comecei justamente com A Ruazinha, em que ele teria pintado sua cidade natal – embora exista uma controvérsia se é uma casa real ou inventada. É apenas um dos três quadros em que ele fez isso, já que a maioria dos quadros são de ambientes internos.

rijksmuseum vermeer ruazinha
Créditos: wiki commons

Depois com outro Vermeer, dessa vez com A Leiteira. Esse é um quadro mais típico de Vermeer, com uma pessoa em um ambiente fechado, com a luz entrando por um dos lados do quarto. Como ele retrata a luz é sua característica mais famosa, e que vi tanto eles tentando reproduzir no Vermeercentre em Delft. É um dos quadros mais famosos do museu.

rijksmuseum vermeer leiteira
Créditos: wiki commons

Mas o quadro mais famoso do Rijksmuseum, que fica em uma sala especial dedicada a ele, é a Ronda Noturna de Rembrandt. O quadro é famoso pelo tamanho colossal, pelo chiaroscuro e pela impressão de movimento. Quando eu fui lá, a sala estava quase vazia e eu pude me sentar e olhar só para esse quadro por tanto tempo quanto eu quiz. Quando o Rijksmuseum reabriu depois de uma reforma, o quadro também foi o centro das propagandas. Olha essa, em que ele foi reencenado por atores.

rijksmuseum rembrandt ronda noturna
Créditos: wiki commons

Essa foi minha visita pelo Rijksmuseum, espero que vocês tenham curtido. Também me dizem que não dá para perder os jardins, que eu não vi porque era inverno, e a passagem do museu, onde ficam muitos artistas de ruas.

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s