O que aprendi como voluntária em um albergue

Eu sempre gostei de ficar em albergues, e parecia uma idéia óbvia quando eu procurava um trabalho para poder ficar um tempinho a mais na Rússia. Em alguns aspectos, ver o trabalho por trás só me fez gostar mais deles. Em outros, fiquei ainda mais irritada com que não sabe viver em grupo e respeitar as regras não-escritas, ou com os albergues que enchem o saco por coisas pequenas. Então aqui está um pouco sobre o que eu aprendi por lá.

 

Siga as regras básicas de convivência

Não faça barulho no quarto quando todo mundo tá dormindo, e isso inclui fazer as malas (sempre faça as malas na noite anterior a quando for sair). Vale em dobro para você que resolveu colocar suas tralhas em sacos de plástico e agora eles fazem um barulhão no meio da madrugada. Aliás, a primeira coisa que eu faço em um quarto todo é tirar o pijama, os chinelos e a necéssaire e colocá-los em cima da cama, para ter fácil acesso se eu voltar tarde e para marcar minha cama (evitando que um babaca roube minha cama e eu tenha que chamar um funcionário para ajudar).

Sinta-se livre para colocar a soneca no celular ou colocar trinta alarmes para ter certeza que você não vai perder seu vôo, mas NÃO DEIXE O CELULAR TOCAR MAIS DE UMA VEZ. Se não, você adivinhou, né? Todo mundo te odeia.

Claro que tem barulhos que são inevitáveis. Se você tem que sair às três da manhã, seu alarme vai tocar, você vai levantar, vai enfiar algumas coisas de última hora na mala. Só tente não incomodar quando dá para evitar.

Também cuidado com as luzes, não acenda a luz do quarto todo só para achar sua cama. Use seu celular ou espere alguns segundos até seus olhos se acostumarem.

Sempre lave o que você sujar. Se você ainda está comendo e alguém quer usar a frigideira que você usou, pergunte se ele se importa em lavar agora e você lava a dele depois. Não faça refeições que demoram um tempão para preparar nem use todas as panelas quando tá todo mundo querendo jantar (a não ser que você seja aquela alma abençoada que resolve cozinhar para todo mundo do albergue).

Não transe no quarto. Dá para achar sempre um lugar melhor, um chuveiro, a lavanderia, um quarto privado, o depósito de malas. Qualquer lugar em que você não vai ter uma audiência zombando o barulho que você faz ou muito puta de ter acordado com o beliche balançando.

 

Toda noite é a última noite de alguém

Quando um hóspede te chama para beber ou para sair porque é a última noite deles, lembre-se: toda noite é a última noite de alguém.

 

Nunca troque de cama sem avisar ninguém

Não tem nada mais desagradável do que receber alguém de madrugada, levar a pessoa ao quarto e descobrir que não tem nenhuma cama vazia. Mais de uma vez tive que acordar todo mundo do quarto para descobrir que cama estava vazia, trocar lençóis por novos e colocar a pessoa lá. Mais trabalho para mim, uma noite mal dormida para vários hóspedes e provavelmente notas mais baixas para o albergue. Se você faz isso, todo mundo que trabalha no albergue te odeia.

Se você coloca as coisas em outra cama, grande chance dos mesmos problemas acontecerem e todo mundo te odiar do mesmo jeito.

 

Não fique além do check-out

Geralmente, a hora de check-out dos albergues é em torno das 11, e a hora de check-in é em torno das 14. O que significa que a gente costuma ter em torno de 3 horas para arrumar o albergue todo para quem tá chegando. Atrasar meia hora nesse momento pode acabar com nosso planejamento, e não é a toa que alguns albergues cobram multas por isso.

 

Tem coisas que acontecem no albergue que não dá para explicar

Teve uma menina letã que ficou no meu albergue por mais de uma semana. Ela era super simpática, sempre cozinhava para a gente. Ela me contou que trabalhava ali perto. Um dia, mais de uma semana depois de ter feito check-out, ela apareceu às três da manhã carregando pratos sujos e perguntou se ela podia lavá-los na nossa cozinha. Eu disse que sim, e isso começou a acontecer com freqüência. Mas nunca consegui entender o porquê.

 

É trabalho mesmo

Imagina chegar no albergue e ouvir “tem como você fazer jantar para trinta pessoas hoje?” ou “tem como você fazer um free walking tour pelo centro amanhã?”. Trabalhar em um albergue é estar preparado para tudo, a qualquer hora. Também é ajudar os outros – teria sido impossível para mim cozinhar para trinta se não tivesse outros voluntários e hóspedes dispostos a ajudar, nem que fosse só para cortar umas cebolas ou para servir. A ajuda era muito bem vinda, então sempre ajudava os outros quando eu estava lá.

Nem todos os voluntários eram assim, no entanto, e alguns estavam lá só para curtir, fazendo o mínimo possível. Alguns ainda davam trabalho, nunca tomavam iniciativa para nada, a chefe tinha que pedir cada coisinha três vezes. Quando eles fizeram uma festa enorme e deram trabalho para todo o resto do albergue, ela foi falar com eles. Eles nem pediram desculpas e culparam o resto do mundo, e acabaram muito justamente expulsos. Ou seja, eles tinham planejado não gastar quase nada na Rússia e tiveram que pagar preços de albergues durante a Copa do Mundo, tudo porque não souberam ser parte do time e levar o trabalho a sério.

 

Alguns hóspedes são nossos melhores amigos

Era só um hóspede dar menos trabalho para ganhar a estima do albergue inteiro. Os que ajudava a fazer o jantar, a arrumar camas, que iam fazer chá e faziam para a gente também, que eram bons de papo. E quando eles voltavam, a gente separava para eles as melhores camas, ou os chamava para sair quando íamos fazer um programa mais local. No albergue, a gente via gente indo e vindo o tempo todo e toda hora tinha que fazer novos amigos, então era ótimo quando dava para fazer conexões reais com os hóspedes.

 

Pesquisar sobre o albergue antes vale muito a pena

É muito bom saber o estilo do albergue antes de chegar lá. Você quer um party hostel, um que não seja assim, mas ainda social, um albergue boutique decorado por um designer, qualquer um perto da rodoviária? Já fizemos aqui um post sobre como escolher o melhor albergue para o seu tipo de viagem, e continuo achando que é uma parte importante da viagem.

Odeio albergue muito cheio de regrinhas estúpidas. Nos dois em que eu trabalhei, por exemplo, eles tinham horários de check-in, mas se alguém chegava no meio da noite e a cama deles estava livre, a gente deixava eles darem uma deitada. Era só controlar as camas. Quando vejo um albergue que não deixa nem usar o wifi ou o banheiro, não quero chegar nem perto. Custa muito pouco ser flexível com algumas regras (mas pode ser muito difícil com outras, como eu mencionei do check-out). Fiquei em um no Rio uma vez, o Tupiniquim, que era tão cheio de regrinhas que enchia o saco. Não pode pendurar a toalha no beliche, não pode trocar de roupa no quarto, não pode usar a geladeira.

Também custa bem pouco fazer eventos, e é por isso que a gente tinha voluntários. Em Moscou, no Vagabond, eu organizei noites de filmes, fiz pipoca, sangria, vinho quente, jantares inteiros. Em Petersburgo, no Fly Away, fazíamos jantares, free walking tours, jogos. É sempre bom para conhecer gente e gastar pouco, e é algo que procuro em albergues.

E vale em dobro para trabalhar. Eu ficaria meses em albergues, queria lugares em que me sentiria bem, e por sorte foi o que achei.

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