Volta ao Mundo em Filmes: Australia – Charlie’s Country

Um dos temas que mais aparece por aqui é colonialismo. Quando eu vi o filme que escolhi para a Austrália, Charlie’s Country, de Rolf de Heer, eu estava lendo meu livro para Antigua, A Small Place, que fala muito da ligação entre colonialismo e turismo. Mas se em muitos desses países nós vemos uma população inteira que é afetada pela herança do colonialismo, na Austrália vemos um país de primeiro mundo, onde a população original é excluída desses benefícios.

O filme conta a história de Charlie (David Gulpilil), que vive em uma comunidade de aborígenes em Arnhem Land. É uma comunidade pequena, com um supermercado que só tem comida super-processada, uma estação delegacia de polícia com a qual eles têm atritos, e um escritório do governo. Charlie era famoso como caçador décadas antes, e ele sente nostalgia pelo passado, e sente que o modo de vida “dos brancos” está estragando a sua saúde. Ele é bem sucedido quando vai caçar com um amigo, em cenas muito engraçadas, mas, na volta, com a carcaça de um animal no carro, a polícia confisca todas as suas armas. Ele tenta fazer uma lança mais tradicional, mas ela é confiscada também, e ele resolve voltar para o Bush, pensando que só lá ele vai conseguir viver da forma tradicional que ele gostaria.

O problema é que lá não existem mais comunidades, e ele se sente sozinho. Sem a força física que ele costumava ter, quando vivia no bush algumas décadas antes, a saúde dele se deteriora ainda mais. Quando um amigo vai em busca dele, Charlie tem que ser evacuado para um hospital. Lá ele é atendido por um médico que pergunta se pode chamá-lo de Charlie já que ele não sabe pronunciar “nomes estrangeiros” e que lhe fala sobre a importância de uma alimentação mais saudável, que ele não consegue pagar.

Charlie sai do hospital contra conselho médico e sai em busca de uma comunidade onde ele pertença, mas o que ele encontra é a cada vez pessoas mais esquecidas pelo sistema. Amigos da Austrália já me contaram que lá existe um estereótipo racista de que aborígenes não trabalham e são todos alcoólatras (não tão diferente de um país em que a gente ouve da “indolência do índio” e da “malandragem do negro”, né?). Mas nesse ponto da história, o que a gente vê é como tanta gente é empurrada para as margens da sociedade e acaba em situações como essa.

O filme fala muito sobre identidade. Sobre ter uma língua diferente, costumes diferentes, toda uma sociedade que não é realmente contemplada pelas leis e pela rotina do governo. Sem acesso ao que outros australianos têm, aborígenes como Charlie se tornam refugiados no próprio país.

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