Volta ao Mundo em Livros: Líbano – Beirut Blues

O romance escolhido para o Líbano foi Beirut Blues, de Hanan Al-Shaykh. Eu tinha lido que era um romance epistolar em que uma mulher tenta explicar porque permaneceu em Beirute durante a guerra do Líbano, e isso foi o bastante para me deixar interessada.
Lendo o livro, percebi que as cartas de Asma não tentam explicar seus motivos para os outros, mas são uma forma dela mesma tentar dar sentido ao que aconteceu. Por isso ela escreve cartas não só a amigos ausentes e antigos amantes, mas para Billie Holiday, para a terra e para a própria guerra.
Asma passa os dias na cama, sem se levantar mesmo quando ouve bombardeios (depressão, ptsd, blues ou oblomovschina?), mas a mente dela tem urgência. Ela fala sobre eventos do passado e sobre o presente, passando de um para o outro rapidamente. Para o leitor, é confuso, às vezes não temos certeza do que ela tá falando, mas cria a atmosfera do romance.
A narradora mal fala dos bombardeios, da morte, de medo. Talvez tudo isso seja óbvio demais. Mas ela fala incessantemente da sensação de que seu país nunca será o mesmo, e do que essa perda representa para ela. Ela me lembra de Nabokov, que lamentava a perda da casa de sua infância embora ela continuasse lá, porque agora ela não tinha o mesmo significado. Mais que um exilado espacialmente, estando fora de Petersburgo, ele se sentia um exilado temporalmente, tendo perdido a cidade de sua infância. E, nesse sentido, ela compartilha com ele o exílio, porque mesmo continuando na cidade ela perdeu sua Beirute linda e cosmopolita. Ela ficou no mesmo lugar, foi o país dela que foi embora. A guerra a sequestrou de sua vida normal, e ela não teve escolha senão sequestrá-lo também, mantê-lo como era nas cartas, aprisioná-lo na memória.

I don’t believe I’ll think about anything beyond the confines of my room. But I have to stop myself sneaking a glance through a gap in the garden wall at a house which is said to be occupied by party members. The night was calm, and everyone was asleep. I saw the fighters sleeping with their families. I could almost hear them snoring. I lowered my head and wondered if I had really been kidnapped. Perhaps I was still having a bad dream. People sleeping peacefully couldn’t be kidnappers. Then I reminded myself that evil sleeps too.

Ler esse romance para tentar entender mais sobre o conflito não será útil. Como diz a narradora, “It no longer interests me to follow the warring factions and put them into categories.” Em outro momento ela diz que não pode falar da situação do país quando sua maior preocupação é o rato na cozinha. O livro não trará fatos, mas fala da melancolia de quem vê seu país destruído por uma guerra, e é muito bem escrito. Achei que foi um bom representante.

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