Volta ao Mundo em Filmes: Itália – A Grande Beleza

Foi difícil escolher um filme para a Itália. Quando o país tem uma tradição cinematográfica tão forte, fico achando que nenhum filme vai conseguir representá-lo sozinho, e não vai mesmo. Até já fiz um post com filmes e livros para quem quer entrar no clima de uma viagem para a Itália, e lá coloquei várias sugestões.

Escolhi A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, uma tragicomédia sobre as classes altas italianas na tradição de Antonioni e Fellini. Aliás, Sorrentino é frequentemente comparado com Fellini. Como ele, tem um estilo operático, um humor carnavalesco, gosta de zombar das obsessões da sociedade em parecer jovem. Por isso, alguns viram A Grande Beleza como uma versão do século XXI de A Doce Vida. Mas o filme tem um estilo próprio, e usa sua história para falar a de um homem, de uma cidade, de um país e de um cinema.

O filme conta a história de Jeb Gambardella (Toni Servillo), que aparece pela primeira vez enquanto comemora seu aniversário de 65 anos. Quarenta anos antes ele publicou um romance, O Aparato Humano, que foi reconhecido como uma obra prima, mas esquecido. Ele foi, como diz na festa “destinado à sensibilidade”. Hoje ele trabalha ocasionalmente como jornalista, e passa a maior parte do tempo em seu terraço com vista para o Coliseu. Ele é mais conhecido como um socialite, alguém que conhece todo mundo que importa.

Pouco tempo depois, ele recebe a notícia do falecimento do seu primeiro amor. É o marido dela que revela o que aconteceu, enquanto as memórias de Jeb da amada nadando invadem a realidade, e os dois se veem sob uma chuva pesada.

As memórias dela estão sempre no fundo do filme, enquanto Jeb anda por Roma, janta com os amigos, e faz reflexões em voice over que soam como confissões. Ele é um flaneur, que observa as pessoas no mundo moderno, que observa uma Roma que hoje em dia foi tomada pelos turistas e que os romanos nem sempre veem. Em um momento ele chega a dizer que as melhores pessoas em Roma são os turistas, talvez porque eles sabem que seu tempo na cidade é limitado e querem absorvê-la toda.

Agora ele observa Roma com um novo senso de amor e de luto, com arrependimento por sua vida mundana, com melancolia intensa. Ele se vangloria de sua vida confortável, mas também espera que haja algo a mais.

O filme todo é uma sobrecarga de tristeza e de beleza, tanto no roteiro como na cinematografia de Luca Bigazzi. Cada cena é construída de forma intrincada, e o filme delicia os olhos.

Não é um filme que eu indicaria para todo mundo. Quem não gosta de filme lento, de filme cabeça ou acha que tem filme “sem história” provavelmente não vai gostar. Mas para quem tá interessado em pensar a Itália contemporânea, Roma, ou a vida contemporânea em geral, é um filme incrível.

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