Volta ao Mundo em Filmes: Curdistão – Memories on Stone

Quando eu escolhi Memories on Stone, de Shawkat Amin Korki, para ser o filme do Curdistão, li que ele contava a história de uma equipe de produção tentando fazer um filme sobre o genocídio curdo causado por Saddam Hussein no Curdistão nos anos 90. Fiquei mais interessada pelo retrato do genocídio, mas vi que o filme fala também sobre o Curdistão de hoje, e em vários momentos ressalta o absurdo cotidiano em que eles vivem.
No filme, o genocídio é sempre referido como Anfal, nome de uma Sura do Corão que foi usada como codinome para a operação por contar a vitória de muçulmanos contra um batalhão de pagãos três vezes maior. A campanha consistiu em bombardeios, deportação em massa, campos de detenção, arabização forçada, assassinatos em massa e uso de armas químicas, talvez a parte do conflito que é mais frequentemente lembrada. 90% das vilas curdas no Iraque foram destruídas. Apesar disso, apenas alguns países, como a Noruega, a Suécia e  a Grã-Bretanha, reconhecem o que aconteceu como um genocídio.

O filme tem um pequeno prólogo em estilo Cinema Paradiso, em que vemos um menino entrar encantado no cinema no qual o seu pai é projetista. Ele vê que vão passar um filme curdo chamado Yol, e depois vê o exército invadindo e batendo nos espectadores, dizendo que o filme é proibido e levando o seu pai.

No presente, o menino agora é um diretor de cinema chamado Hussein (Hussein Hassan), que, junto com o produtor Alan (Nazmi Kirik), quer fazer um filme para contar a história do genocídio. Eles estão filmando em uma antiga prisão que foi usada na época, mas ainda precisam encontrar seus atores principais. Alan quer que o ator principal seja Roj Azad (Suat Usta) um cantor conectado com distribuidores locais, apesar de ele ser um canastrão, porque com ele o filme pode ser distribuído nas quatro partes do Curdistão. O ator é ótimo nesse papel, responsável por muitas das cenas de humor do filme.

Para achar a protagonista, o processo é bem mais complicado. Uma atriz, mesmo adulta, precisa da permissão de um homem da família, e enquanto vemos muitos homens dispostos a participar e “honrar o Curdistão”, é difícil encontrar algum que queira assinar a permissão. Simur (Shima Molaei), uma jovem local, entra na prisão em busca do papel, e logo ouvimos que ela quer fazer isso em memória do próprio pai. Porém o tio dela, Hamid (Salah Sheikh Ahmadi), não quer dar a permissão porque acha que é algo imoral para uma mulher solteira. O filho dele, Hiwa (Bangin Ali), está apaixonado pela prima e só quer dar a permissão se ela concordar em se casar com ele, o que até então ela tinha conseguido resistir, e a situação se complica.

Extras são trazidos de campos de refugiados para fazer grandes cenas na prisão, equipamentos são contrabandeados do Irã, e temos a sensação que todos os personagens sacrificaram algo que não deveriam para fazer esse filme. Não saberemos o resultado do filme-dentro-do-filme, mas o que vemos é uma visão pessoal sobre a história e a mentalidade de um povo, e que mudou em vários aspectos a minha visão do Curdistão.

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