Hallstatt lago Áustria Alpes

Desventuras de viagem: Quando eu tive que perseguir um trem pelos alpes em um táxi

Eu estava saindo de Hallstatt. Uma mulher perto de mim comentou “ainda bem que a estação é minúscula, senão como a gente ia saber qual é o trem?” No meu bilhete impresso, tinha o número do trem e o destino, mas no trem mesmo não tinha nenhum dos dois. E não tinha um placarzinho eletrônico que dissesse “Trem para Viena, plataforma 1” ou algo assim. Ainda bem que a estação só tinha uma plataforma.

O trem chegou um pouco atrasado, e chegou um pouco atrasado na cidadezinha onde, segundo minha passagem, eu tinha uma baldeação. Desci do trem, e depois de uns três minutos ele foi embora. Eu me lembro de ter pensado como era estranho um trem ficar parado mais do que um minuto em uma cidade tão pequena, mas quando as coisas dão errado muitas vezes elas são como um romance policial: na hora você não nota os detalhes, mas quando pensa, todos os indícios estavam lá.

De repente eu vejo o agente da estação praticamente gritando com um cara “Eu já te disse!! Esse era o último trem de hoje!!” E eu levantei na hora mostrando o meu bilhete:

“Não pode ser o último trem do dia, eu tenho que pegar o número XXX”.

“Esse era o número XXX”

“Não podia ser, eu vim nele de Hallstatt. Ele era o número YYY”

“Essa é a última estação da linha. Quando os trens param aqui, eles mudam de número”.

 

Eu fiquei olhando para o agente da estação com um misto de negação, indignação, vergonha e raiva. Porque meu bilhete falava de baldeação, se na prática ela não existia? Porque o trem não tinha um número e o destino escritos? Eu ia ver do lado de fora, notar a mudança e a essa hora eu estaria tranqüila lá dentro. Por que eu caí nessa roubada logo quando eu achava que eu era viajante master nível acima de 9000? Eu estava com raiva inclusive do guarda. Claro que não é parte do trabalho dele salvar turistas perdidos, mas ele estava do nosso lado e viu cinco turistas olhando calmamente os trilhos enquanto o último trem do dia ia embora. Se ele tivesse dado um toque, teria sido lindo.

Os outros turistas que estavam na estação todos se aproximaram desesperados. O cara com quem o agente tinha gritado estava lá com a esposa, e tinha duas outras meninas viajando sozinhas, todos coreanos e metade dos quais não falava nada de inglês. Uma das meninas perguntou: “O que a gente faz agora?”, e o agente respondeu “vocês podem dormir aqui”, apontando para o que era, juro, vinte casas. Eu tive vontade de perguntar onde, porque duvidava que tinha uma pousada na cidade.

Nesse momento, o agente resolveu ser prestativo e simpático. Ele falou que os trens não conseguiam ir muito rápido lá perto, porque a estrada era velha, e que se a gente pegasse um táxi, nós conseguiríamos alcançar o trem duas estações para a frente. Ele pegou o celular e foi andando, falando para a gente ir atrás dele. De repente melhores amigos pela desgraça em comum, nós todos puxamos as malas enormes do casal, sem necessidade de nenhuma palavra.

 

No minuto que levou para chegar a parte de trás da estação, o táxi já estava lá. O taxista conversava em alemão com o agente, que apontava em nossa direção, em uma conversa que deveria ser algo como “esses turistas estúpidos não sabem pegar trem e vocẽ vai ter que resgatá-los”. O táxi, aliás, era uma Mercedes enorme e eu comecei a pensar no preço que aquela brincadeira ia me custar.

Nós todos embarcamos e o táxi partiu em altíssima velocidade. Meus olhos iam dos lagos e penhascos, que parecia que evitávamos por centímetros, para o velocímetro, acima de cem por quase todo o percurso, para o taxímetro, que não parava de subir. Uma das meninas me perguntou baixinho “você não acha que ele está indo rápido demais”. A resposta era sim, mas eu disse “amanhã a gente vai rir disso”.

Finalmente, chegamos na tal estação, ao custo de 85 euros, ou seja, 17 para cada, e o taxista caridosamente percebeu como estávamos perdidos e apontou direitinho qual era o nosso trem. O único problema depois disso foi que eu, correndo na estação, claro que caí de bunda, e o casal correndo atrás de mim me levantou e continuou correndo, segurando meus dois braços além de todas as malas.

 

Quando a gente entrou no trem, sentamos todos no mesmo vagão. Um atendente veio oferecer chá e o moço coreano resolveu confirmar: “Viena?”. O atendente disse que sim, e nós tivemos uma crise de riso. No caminho, todo mundo foi conversando, trocando dicas de destinos, e alguém abriu uma caixa de biscoitos e colocou na roda.

Alguns depois em Ljubljana, eu estava contando a história no meu albergue e descobri que não era a única a ter problemas nas cidadezinhas austríacas. Uma menina alemã contava indignada sobre como eles pediam que você soubesse a última estação na Áustria na hora de comprar uma passagem internacional online (se for seu caso, olhe no site alemão, ele mostra horários e detalhes de trens na Europa inteira). Meu orgulho de viajante master se recuperou um pouco. Mas fica a dica: nunca confie em baldeações na Áustria.

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