Volta ao Mundo em Livros: República Tcheca – City, Sister, Silver

Foi difícil escolher um livro para a República Tcheca, como sempre é quando a gente ama muito um país. Quando passei um tempo lá fazendo trabalho voluntário com a AIESEC, fui ao The Globe, uma excelente livraria em língua inglesa, e comprei vários clássicos da literatura tcheca. Passei o inverno lendo Hrabal (o preferido de quase todos os tchecos que conheci, quando eu pedia sugestões sempre era o primeiro citado), Ivan Klima, Jan Neruda, Jiří Weil, Jaroslav Hašek, Václav Hável. Até fiz um post sobre livros e filmes para entrar no clima de uma viagem para a República Tcheca.

Na hora de escolher um livro para esse projeto, resolvi ficar com um sobre o qual tinha ouvido falar muito, o City Sister Silver do Jáchym Typol. Segundo Ivan Klima, ele é a tentativa de expressar, de uma forma profunda e intensamente pessoal, os sentimentos de uma geração inteira. E essa é a geração que era jovem durante a Revolução de Veludo – ele chama o período do romance de Ressaca de Veludo.

A primeira parte do livro, City, apresenta o narrador, Potok, um antigo ator em algum lugar entre a dissidência e a criminalidade, que passa em todos os cafés da moda no caminho. Ele vê a queda do comunismo e tenta se adequar a nova ordem do dinheiro, envolvendo-se com uma gangue que mexe com especulação e tráfico humano. Por causa dessa relação, ele e sua namorada, que ele chama de irmã, tem que escapar de Praga, fugindo por um Leste Europeu de pesadelo. A partir daqui, falar da história do romance fica a cada momento mais difícil, ela é fragmentação, caos, violência, lirismo.

“…my loved one was a bee and a butterfly and knew how to cut with her claws and her tongue, and I tried too … we learned from each other what was good for the other, and that made both of us stronger … running, and the earth turned beneath us, running by graves and leaping across them, avoiding the bones and glassy stares and empty eyesockets … of wolf skulls … and steering clear of traps and snares, we had experience … with falling stakes and poisoned meat … we made it without harm through the red pack’s territory … and met the last of the white wolves, they were wracked with disease … and the big black wolves chased us, but we escaped … we, the gray wolves of the Carpathians, had an age-old war with them, they were surprised we fled, their jaws snapping shut on empty air, they had a hunch it was their turn next, the helicopters were on the way … we ran side by side, our bodies touching … running over the earth as it turned, with the wind whistling in our ears like a lament for every dead pack … and the clicking of our claws made the earth’s motion accelerate … we ran over the earth, a mass grave, running away …”

É um romance incrivelmente inventivo, em que referências a obras clássicas da literatura mundial (Dante, Meyrink) e tcheca se misturam a gírias russas e alemãs e falsas gírias que soam eslavas (olovrant, uma arma usada por um dos personagens, é uma palavra eslovaca para lanche da tarde). Lembra muito os trabalhos de Joyce e Burgess, principalmente quando ele fala sobre os seus droogs. A entrada de Potok em uma gangue também lembra muito Laranja Mecânica.

“Coincidentally the tongue I use is one of the Czechs, of Slavs, of slaves, of onetime slaves to Germans and Russians, and it’s a dog’s tongue. A clever dog knows how to survive and what price to pay for survival. He knows when to crouch and when to dodge and when to bite, it’s in his tongue. It’s a tongue that was to have been destroyed, and its time has yet to come; now it never will. Invented by versifiers, spoken by coachmen and maids, and that’s in it too, it evolved its own loops and holes and the wildness of a serpent’s young. It’s a tongue that often had to be spoken only in whispers. It’s tender and cruel, and has some good old words of love, I think, it’s a swift and agile tongue, and it’s always happening.”

Apesar de incrível, eu não recomendaria o romance para todo mundo, porque ele é bem difícil. Acho que quem vai gostar é quem já tem um conhecimento pelo menos básico da literatura e história tchecas e curte esse tipo de romance experimental. Se você gosta de autores como Joyce e Burgess, vai se apaixonar por City, Sister, Silver.

 

Outros tchecos preferidos:

Too loud a solitude – Hrabal

Love and Garbage – Klima

Mala Straná – Jan Neruda

Mendelssohn is on the roof – Jiří Weil

*A maioria desses romances foi publicada em português, mas deixei os títulos em inglês porque foram as edições que eu li.

3 comentários

Deixe uma resposta