Volta ao Mundo em Livros: Coréia do Sul – The Vegetarian

No começo de The Vegetarian, de Han Kang, vemos um casal que leva uma vida meticulosamente normal. Nada parece destacá-los, e aliás foi por isso que eles se escolheram, até que um dia Yeong-hye, a esposa, tem um pesadelo que a assombra, e joga fora toda a carne da geladeira. A história não parece nada demais, mas se transforma em um escândalo em uma sociedade em que as normas são seguidas tão rigidamente. Algumas pessoas riem dessa “modinha ocidental” que Yeong-hye parece estar seguindo, mas a maioria acha simplesmente inaceitável.

Algo que para a gente é tão pessoal quanto a decisão do que comer é visto como um ato de subversão. É um escândalo que Yeong-hye não prepare carne para o marido, ou que ela não volte  a comer carne depois que o pai dela ordene isso.

Yeong-hye’s voice, which came to her while she was suspended in that halfway state between sleep and wakefulness, was low and warm at first, then innocent like that of a young child, but the last part was mangled, a distorted animal sound. Her eyes snapped open in fright, and she was stung by a waking hatred the likes of which she’d never felt before, before being thrown back into sleep. This time she was standing in from of the bathroom mirror. In the reflection, blood was trickling from her left eye. She quickly reached up to wipe the blood away, but somehow her reflection in the mirror didn’t move an inch, only stood there, blood running from a staring eye.

O primeiro terço do livro é narrado pelo ponto de vista do marido, que se sente humilhado e emasculado pelos pouquíssimos aspectos em que sua esposa se destaca do estereótipo de mulher obediente. E vemos os extremos abusivos a que ele chega para controlá-la.

A segunda parte é narrada pelo cunhado de Yeong-hye, que começa a fetichizá-la ao descobrir que ela tem uma mancha mongólica, uma marca de nascença que geralmente passa sozinha na infância.

A terceira parte é narrada pela irmã de Yeong-hye, a única que permanece ao seu lado quando a situação se complica. Com cada um dos narradores, a prosa muda, refletindo tanto seu estilo como o deterioramento mental dos personagens e das estruturas da sociedade.

No início, eu achei que o foco seria muito na questão da carne. Afinal, o livro se chama The Vegetarian. Fiquei até com medo de que fosse muito propaganda. Mas o livro é muito mais sobre a rigidez da sociedade coreana, conformismo, sobre o machismo institucional de achar que uma mulher não é a última responsável pelo próprio corpo, sobre doença mental. O romance começa com sua decisão de não comer carne, mas se torna a cada momento mais Kafkiano. É um romance muito curto e bizarro, mas que conta muito sobre o país.

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