Volta ao Mundo em Livros: Afeganistão – Syngué Sabour – Pedra de Paciência

O livro Syngué Sabour – Pedra de Paciência, de Atiq Rahimi, foi dedicado a Nadia Anjuman, poeta afegã. Desde a adolescência, ela tinha frequentado um grupo de discussões de literatura, disfarçado como escola de costura já que a pena para discutir literatura era a tortura e enforcamento. Com a invasão americana, ela pode frequentar a universidade e publicou um livro de poemas que tratava da opressão de mulheres afegãs, mas isso era considerado uma vergonha por sua família e amigos.

Atiq Rahimi era leitor dos versos de Anjuman, e foi convidado por ela para ir a um festival de literatura no Afeganistão. Um mês antes, ele ficou sabendo que ela tinha morrido, e que a causa era “motivo de família”. Ele foi investigar e descobriu que ela tinha sido espancada até a morte pelo marido, que passou apenas um mês na cadeia pelo crime.

Três anos depois, Atiq Rahimi publicava Syngué Sabour – Pedra de Paciência. O título faz referência à uma pedra da mitologia persa que seria capaz de guardar as confissões feitas a ela. Um dia, quando tiver ouvido demais, a pedra vai estourar e libertar todos de seus pecados.

Os personagens do livro estão presos em um quarto em uma cidade afegã. Na cama, está um soldado em coma, ferido em uma batalha. Do lado de fora, a guerra continua, e eles ouvem os tiros e explosões. Do lado de dentro, a esposa dele passa os dias colocando o soro no lugar, pingando colírio nos seus olhos, dando banho nele, tentando explicar para as duas filhas jovens do casal o que está acontecendo. Todo dia, ela reza pela sua recuperação. Por 99 dias, ela deve dizer 99 vezes cada um dos 99 nomes de deus para que ele melhore.

Aos poucos, as orações dão lugar para outra fala, quando ela percebe que finalmente ela está livre para dizer o que pensa. Depois de dez anos de casamento, ela finalmente pode falar sem ser interrompida, silenciada, culpada. Com ele em coma, ela pode começar a contar o que tinha calado por sua vida inteira.

Suas confissões se tornam a cada vez mais chocantes, mais viscerais, enquanto ela o transforma em sua pedra de paciência. Ela fala de desejo sexual, de prostituição, de tudo que horrorizaria esse marido que gostava mais da guerra do que da vida em casa, que a repeliu na única vez em que ela tentou imitar os filmes indianos e beijá-lo. A cada confissão, os tiros e as explosões se aproximam mais, e as perspectivas de fugir ficam mais longe.

É uma novela pequena, mas inesquecível, que venceu o prêmio Goncourt, o maior da literatura francesa, em 2008.

 

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