Um passeio pelo Rio antigo

Um dos meus passeios preferidos no Rio sempre foi passear pelo centro. Ele é cheio de museus riquíssimos e frequentemente gratuitos, prédios coloniais e livrarias. Resolvi fazer aqui um roteirinho com meus lugares preferidos do Rio Antigo, que acho que vão interessar quem gosta de história. Para quem quer ver no mapa, tá aqui o link para o Maps. Espero que vocês curtam.

Pixinguinha

Começando pelo Mosteiro de São Bento, um dos principais prédios coloniais do país. Ele tem um estilo maneirista, e por dentro é forrado de talha dourada.

A igreja do monastério é famosa pelo canto gregoriano, e aos domingos às 10 horas da manhã a missa é em latim. Preste atenção que tanto para visitar quanto para ver missas eles pedem que as pessoas usem trajes adequados.

Mosteiro São Bento Rio

Depois fica outra igreja, a Candelária. Diz a lenda que ela foi fundada por um casal português que naufragou em um navio chamado Candelária. Eles prometeram que se sobrevivessem construiriam uma igreja dedicada ao navio. Apesar da beleza da construção, a maioria das pessoas deve reconhecer o nome por causa de dois eventos do século XX. O primeiro foi o Comício da Candelária, em 1984. Ele foi parte das Diretas Já e foi um das maiores manifestações políticas da história do Brasil, com mais de um milhão de pessoas. O segundo é o Massacre da Candelária, em que oito moradores de rua, seis deles menores, foram assassinados por policiais militares quando estavam dormindo na porta da igreja. Hoje uma cruz na porta da igreja lembra as vítimas. O massacre teve repercussão internacional.

Candelaria Rio

Do lado da Candelária ficam três centros culturais que sempre tem exposições interessantes, o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), o Centro Cultural dos Correios e a Casa França-Brasil. Sempre dou uma passada por aqui para ver o que tá acontecendo, e já peguei exposições maravilhosas, sempre gratuitas.

Centro cultural correios

A meta agora é chegar na Praça XV, mas isso pode levar um tempinho, já que essa parte é cheia de prédios bonitos e bons restaurantes. É um bom lugar para parar para almoçar, e um dos meus preferidos no Rio para fazer um Happy Hour. Quando a família real se transferiu para o Brasil, cerca de 10 mil prédios foram confiscados para serem usados pela Corte portuguesa, muitos deles nessa região. Eles tinham um sinal de PR, significando Príncipe Regente, colado à porta, mas as pessoas brincavam que o significado real era Ponha-se na Rua.

Centro do Rio 6

Centro do Rio 5

Centro do Rio 4

Centro do Rio 2

A Praça XV é onde fica a Estação das Barcas para ir para Niterói ou Paquetá. A praça tem vários monumentos, o mais recente dos quais é o em homenagem a João Cândido. Ele foi um marinheiro negro que se revoltou contra os castigos físicos ainda comuns na marinha, no que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Esses castigos eram aplicados nos marinheiros de baixa patente, principalmente negros, e por isso a estátua foi uma doação da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, para lembrar essa página da nossa história.

Na Praça também fica o Paço Imperial. Atualmente ele era a residência dos governador do Rio de Janeiro, depois pertenceu ao Vice-Rei, quando a capital foi transferida para o Rio, e depois serviu como residência da família imperial, recém-chegada de Portugal. Nessa época, ela recebeu uma Sala do Trono e teria sido o local de vários eventos históricos como o Dia do Fico e da assinatura da Lei Áurea.

Com a República, ele virou uma agência dos correios, e muito da decoração interna se perdeu. Só nos anos 80 ele foi tombado e houve a primeira tentativa de restaurá-lo à forma original. Hoje ele é um museu e centro cultural, e pode ser visitado gratuitamente.

Paço imperial Rio 1

Do outro lado da Praça, você pode notar entre os prédios um trecho em que a arquitetura se assemelha muito à do Paço. É o Arco do Teles, prédio construído na mesma época do Paço, que valorizou muito à região. Como ele bloqueava o acesso à rua do comércio, foi aberto o Arco, embaixo do que então era a câmara municipal.

Lá do lado fica o Palácio Tiradentes, atual Assembléia Legislativa do Estado do Rio. Antigamente aqui era o Senado Imperial, com uma prisão no primeiro andar. Tiradentes ficou preso aqui por três anos enquanto aguardava sua execução, e por isso o palácio de hoje tem o seu nome. O palácio original foi demolido em 1922, e esse foi construído em estilo eclético. A Assembléia Legislativa pretende mudar de sede em breve, e o Palácio Tiradentes se tornará um museu dedicado à história da democracia brasileira.

Palacio Tiradentes com Igreja de São Jose
Palácio Tiradentes com Igreja de São José ao fundo

Andando mais um pouquinho, a gente chega ao Museu Histórico Nacional, agora com acesso mais fácil por causa da derrubada do viaduto perimetral. Lá tem exposições permanentes com mais de 250 mil peças que contam a história do Brasil. Tem carruagens, tronos, documentos, quadros, móveis, canhões, e até a réplica em tamanho real de uma farmácia do século XIX. É um museu subvalorizado, e que merece a visita de quem tá interessado no Rio antigo.

Museu Historico Nacional Rio

A Confeitaria Colombo é um dos maiores símbolos da Belle Époque carioca, e foi eleita pelo U City Guides como um dos cafés mais bonitos do mundo. Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos e Lima Barreto já passaram por aqui.

Depois o caminho continua até o Real Gabinete Português de Leitura, uma das bibliotecas mais bonitas do mundo. Já fizemos um post próprio sobre ele, que você pode ler clicando aqui.

Real Gabinete Portugues de Leitura - bibliotecas mais bonitas do mundo 2

Continuando para o Largo da Carioca, que tem a fama de ser o coração do centro do Rio. Lá fica o Convento de Santo Antônio, um dos conjuntos coloniais mais importantes da cidade. Uma das igrejas lá dentro, a de São Francisco da Penitência, é conhecida pelo interior, todo coberto em folhas de ouro.

No andar de baixo do Convento fica uma exposição permanente com pinturas e fotos da região ao longo dos séculos.

Convento de Santo Antonio Rio

Dali é continuar para a Avenida Rio Branco, aberta por Pereira Passos durante a sua reforma do Rio de Janeiro, com o modelo dos Boulevards Parisienses.

A Cinelândia, que eu visitei em seguida, ganhou esse nome justamente pelo número de cinemas que existiam por lá. Hoje só o Odeon ainda está em funcionamento. Um trecho de 600 metros da Cinelândia foi recentemente fechado para o trânsito de carros e recebeu o nome de Boulevard Luiz Severiano Ribeiro, em homenagem a uma figura fundamental para a construção de salas de cinema no Brasil, inclusive o próprio Odeon.

A praça principal da Cinelândia é cercada por vários prédios importantes, inclusive o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e a Câmara Municipal do Rio.

O primeiro deles a ser construído foi a Biblioteca Nacional. Ela é uma Biblioteca de Depósito, o que significa que recebe uma cópia de todo livro publicado no Brasil, e tem um acervo de mais de 8 milhões de livros. Eles tem duas bíblias de Gutenberg, entre uma coleção de incunábulos. A história da biblioteca começou com os livros trazidos por Dom João quando a corte se transferiu para o Brasil. Durante a Independência, esse acervo foi comprado de Portugal. Existem tours gratuitos para visitá-la por dentro. Para saber mais, olha lá o post sobre ela.

Biblioteca Nacional Rio

Também é de 1905 o prédio do Teatro Municipal. Ele foi decorado por muitos dos pintores e escultores mais importantes da sua época, como Eliseu Visconti e os irmãos Bernardelli, além de artesãos para fazer os vitrais e mosaicos. 280 operários se revezaram em dois turnos para completar o prédio em quatro anos. Desde então ele recebeu artistas como Sarah Bernhardt, Maria Callas, Arturo Toscanini, Villa-Lobos, Stravinsky. Hoje ele tem uma programação que inclui música erudita, dança e música popular. Muita gente faz o tour, mas eu acho que compensa mais assistir um espetáculo lá dentro. Os ingressos para a galeria promocional frequentemente ficam entre 20 e 50 reais.

Teatro Municipal Rio

O Museu Nacional de Belas Artes foi inaugurado em 1938, pela iniciativa do Ministro Gustavo Capanema. Ele era originalmente a Escola de Belas Artes, além de abrigar uma coleção de arte trazida por Dom João. O museu tem entrada gratuita, e seu acervo inclui várias obras que a gente conhece dos livros de história do colégio. Tem pinturas do Debret, a pintura do Victor Meirelles da Primeira Missa, a Batalha do Avaí do Pedro Américo e o Café do Portinari.

cafe portinari
Crédito: wikicommons

A Câmara Municipal, oficialmente conhecida como Palácio Pedro Ernesto, foi um escândalo na época da construção por causa do seu alto custo: 23 mil contos de réis, mais de duas vezes o usado para o Teatro Municipal. Isso levou ao apelido “Gaiola de Ouro”, e ele logo ficou associado à corrupção. Ele foi o palco de debates quando o Brasil entrou na Segunda Guerra, e durante a campanha pela nacionalização do petróleo. Quando o estudante Edson Luís foi assassinado, os estudantes, temendo que os militares escondessem o corpo, trouxeram-no para a Câmara. No dia do seu funeral, Cem Mil pessoas caminharam pela Avenida Rio Branco e passaram em frente à Câmara. Os cinemas da Cinelândia nesse dia colocaram cartazes de filmes que já tinham passado, como A Noite dos Generais, À Queima-Roupa e Coração de Luto.

A Cinelândia também foi o local de comícios do Brizola, eleito governador do Rio em 82, e do Lula. Ela era até chamada por piada de Brizolândia.

Na ponta, ficava outro Palácio conhecido pela beleza, o Palácio Monroe, demolido em 1974. Ele era considerado um marco da arquitetura carioca, e foi demolido com alegações de que impedia o trânsito ou com a desculpa de que atrapalhava a construção do metrô. Ele foi construído para a Exposição Universal de St. Louis, nos Estados Unidos, sendo o pavilhão do Brasil. Ele foi premiado lá com a medalha de ouro. Depois ele foi desmontado e reconstruído no Rio de Janeiro, com o nome de Palácio Monroe em homenagem ao presidente americano criador da doutrina Monroe. Na época em que o metrô foi construído, seu traçado foi modificado para não afetar as estruturas do Palácio, mas o jornal O Globo lançou uma campanha pela sua destruição. O Geisel autorizou a demolição alegando que o Palácio tampava a vista do Monumento da Segunda Guerra, mas dizem que na verdade foi de ódio do Coronel Francisco Marcelino de Souza Aguiar, arquiteto do Palácio, que tinha sido promovido no exército em detrimento dele mesmo. Faz sentido: o Museu foi feito para ser desmontável, por isso conseguiram trazê-lo de St. Louis, e no entanto ele foi demolido e vendido a preço de banana. Está sendo lançado um documentário, o Crônica da Demolição, de Eduardo Ades, que conta a história da destruição, e espero que passe no cinema por aqui.

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Selo antigo. Crédito: wikicommons

O passeio pode começar antes, pela Praça Mauá, ou continuar para a Ilha Fiscal, a Lapa ou Santa Teresa, lugares sobre os quais pretendo falar nos próximos posts.

Clique aqui para ler todos os posts que já saíram sobre o Brasil.

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