Volta ao Mundo em Livros: Bolívia – Tierra Fresca de Su Tumba

Quando fui procurar um livro para representar a Bolívia, eu achei que seria mais fácil. Um país vizinho e grande, imaginei que a gente teria muitos livros traduzidos para o português. É meio triste perceber que mesmo alguns dos grandes clássicos da América do Sul são difíceis de encontrar no Brasil. No final, resolvi ler um livro novo, que já foi até traduzido, mas cujo ebook em espanhol também foi fácil de achar: Tierra Fresca de Su Tumba, de Giovanna Ribero.

O livro é composto de seis contos, que, pelo que vi, vieram em uma ordem diferente na edição brasileira. Na minha, o primeiro já foi um tapa na cara, “La Mansedumbre”, narrado por uma jovem em uma comunidade menonita que sofre abuso sexual, mas que é culpada pelas pessoas ao eu redor, em uma lógica completamente misógina em que as mulheres são vistas como tentadoras, sedutoras. E embora seja um conto pesado, achei que deu perfeitamente o tom do livro: contos macabros, com uma atmosfera meio gótica, em que os personagens estão isolados de quem está a seu redor, às vezes literalmente, como nos sobreviventes de um naufrágio de “Pez, Tortuga, Buitre”, mas mais frequentemente como imigrantes.

Outro dos contos, “Quando Llueve Parece Humano”, também envolve uma mulher de uma comunidade na Bolívia que vive um pouco à parte, a Senhora Keiko, que cresceu em uma comunidade japonesa. A gente aprende que ela dá aulas de origami em uma prisão feminina, que ela tem uma filha e uma inquilina, e que ela cuida do seu jardim, mas mesmo com esses detalhes cotidianos, a autora já consegue nos fazer suspeitar que ela está nos escondendo algo.

Já em dois outros contos, a perspectiva é de bolivianos emigrados. Em “Socorro”, a narradora volta para o país natal e em uma conversa com a tia, que todos têm por louca, acaba desenterrando segredos de família, enquanto em “Piel de Asno”, dois irmãos órfãos são levados para a casa de uma tia no Quebec, onde eles entram em um contato com a comunidade de povos originários do lugar. É dela, e das sensações dos irmãos morando em um país estrangeiro, que vem a frase mais famosa do livro: “A Bolívia é uma doença mental”. E assim como ela começou com um conto mais curto com atmosfera de terror, a coletânea fecha com “Hermano ciervo”, um continho misterioso e com um quê de body horror.

Eu li o ebook em espanhol, mas Tierra Fresca de Su Tumba também está disponível em português, em edição das editoras Incompleta e Jandaíra, com tradução de Laura Del Rey, numa edição com prefácio de Carola Saavedra e posfácio de Paloma Franca Amorim.

Deixe uma resposta