O que visitar em Varsóvia para aprender a história da Segunda Guerra: a Insurreição do Gueto

A história de Varsóvia durante a Segunda Guerra é particularmente trágica, mesmo quando a gente está falando da Segunda Guerra. Ela foi lugar de vários massacres, e acabou com 90% da cidade destruída, e a maioria de seus monumentos dinamitados e em pedaços. Mas ela é lembrada mais que tudo por dois momentos de coragem em frente ao extremo, que, mesmo acabando em tragédias, conseguiram inspirar esperança em quem lutava contra o nazismo ao redor do mundo. A cidade é mais lembrada durante a época por causa dessas duas insurreições, às vezes confundidas: a Insurreição do Gueto, e a Insurreição de Varsóvia. Então vamos falar um pouco dos lugares onde esses dois eventos são comemorados, e o que ver da época da guerra em Varsóvia.

O Gueto de Varsóvia

Fonte: Stanisław Poznański (oprac./edit.), Walka. Śmierć. Pamięć 1939-1945. W dwudziestą rocznicę powstania w warszawskim getcie 1943-1963, Rada Ochrony Pomników Walki i Męczeństwa, Warszawa 1963 (strony nienumerowane/pages unnumbered)

Ghetto, ou Gueto, eram durante a Idade Média os únicos lugares de uma cidade onde judeus tinham permissão de viver, frequentemente pequenos e lotados, e geralmente com um portão que podia ser fechado à noite. Durante a Segunda Guerra, eles se tornaram os lugares onde judeus eram concentrados por tropas nazistas, muitas vezes antes de serem mandados para campos de concentração. O que confunde muita gente, é que muitas cidades tiveram ambos em épocas diferentes de sua história. É o caso de Cracóvia, onde o bairro tradicional dos judeus era Kasimierz, e ele é confundido com o gueto que ficava em Podgórze, onde a gente vê museus que lembram a época, como a fábrica do Schindler.

Em Varsóvia, a população judaica estava mais espalhada, sendo quase 30% da cidade. Quando os nazistas chegaram, ela tinha aumentado muito, por causa de refugiados que tinham escapado de regiões perto da fronteira com a Alemanha. Eles sofreram restrição após restrição, começando pela estrela de David do lado de fora de estabelecimentos de judeus. Em abril de 1940, eles começaram a construir muralhas ao redor de uma área que tinha principalmente habitantes judeus, forçando com que judeus de outras áreas da cidade se mudassem para lá, e expulsando os gentios. A região, de apenas 3 km quadrados, ficou com uma população de 400 mil pessoas. Em 4 de novembro, os portões do gueto foram fechados, e, com arame farpado em cima dos muros e guardas com ordens de atirar em quem tentasse fugir, as opções não eram muitas. 

O gueto era dividido pela rua Chłodna, uma das mais movimentadas de Varsóvia, e eventualmente uma ponte de madeira foi feita para ligar o “pequeno gueto” ao “grande gueto”. Essa ponte ainda é um dos grandes símbolos da Segunda Guerra na Polônia. As únicas pessoas com permissão de sair do gueto o faziam para trabalhar. A população frequentemente se reduzia, por causa de doenças, da fome generalizada (a comida entregue pelos nazistas calculava 180 calorias por dia por pessoa), e de execuções sumárias conduzidas pelos nazistas. 

A Insurreição do Gueto

Criança se rendendo, uma das fotos que se tornaram símbolo de todo o Holocausto. Fonte: Image:Warsaw-Ghetto-Josef-Bloesche-HRedit.jpg uploaded by United States Holocaust Museum

Quando a Solução Final foi iniciada, em 1942, 100 mil pessoas já tinham morrido no gueto por causa das condições terríveis. De 250 mil a 300 mil pessoas do gueto foram enviadas para campos de extermínio de lá, a maioria para Treblinka. No final do ano, a maioria dos judeus sobreviventes no gueto tinha ficado a par da situação, e eles sabiam que as “deportações” na verdade eram para campos de extermínio. Muitos começaram então a contrabandear armas, e em 18 de Janeiro de 1943, quando guardas entraram no gueto para organizar novas deportações, eles encontraram resistência. Pegando os guardas de surpresa, os membros da resistência conseguiram tomar controle do gueto, e organizar uma rede de bunkers de onde eles podiam se defender. Apesar de estarem famintos e terem acesso a poucas armas, os membros do gueto conseguiram resistir aos nazistas por três meses. Em 19 de Abril, véspera da Páscoa judaica, começou o ataque final, em que 2 mil soldados nazistas sistematicamente demoliram o gueto, explodindo e queimando prédio por prédio. 

Um dos poucos líderes da Insurreição a sobreviver, Marek Edelman, diz que eles sabiam que suas chances eram praticamente zero, mas que eles não queriam dar aos alemães o poder de escolher o dia e o lugar em que morreriam. Eles resolveram morrer nos próprios termos.

O gueto hoje

O gueto foi praticamente completamente destruído, e o Campo de Concentração de Varsóvia foi construído no lugar. Mas hoje a gente vê monumentos que mostram onde as Muralhas do Gueto estavam de pé, e os poucos lugares onde restos dela ainda sobrevivem.

Também no lugar do antigo Gueto, foi construído o Museu Polin, que conta a história dos judeus da Polônia. Infelizmente, hoje em dia essa história faz a gente pensar no Holocausto antes de mais nada, e é um fantasma que está sempre lá. O museu tem esse formato, como se estivesse cindido ao meio, justamente para mostrar como ele foi uma cisão na história dos judeus na Polônia.

Mas ele não se resume ao Holocausto. Na verdade, ele mostra como por séculos em que judeus eram perseguidos em outras partes da Europa, a Polônia foi um lugar que permitiu que a sua cultura florescesse. Uma das partes altas do Museu, por exemplo, é a reconstrução da Sinagoga Gwoździec, construída na então Polônia no século XVI, e destruída pelos nazistas no que nessa época tinha se tornado parte da Ucrânia, em 1941.

Outro ponto alto é a reconstrução de uma rua de Varsóvia antes da guerra, com suas ruas multiculturais com cartazes em polonês e iídiche.

O museu conta também a história do Holocausto na Polônia, e do Gueto de Varsóvia, sua história trágica, e a história da sua Insurreição contra todas as probabilidades. Depois ele também fala da situação dos judeus na Polônia dominada pela União Soviética, e na Polônia de hoje em dia. Judeus que moram em Varsóvia hoje foram entrevistados para um grande projeto sobre identidade, em que eles falam sobre se sentir judeus e poloneses enquanto ainda tem grupos que vêem uma contradição entre os dois. Eles também falam sobre viver na Polônia hoje, época em que uma lei proibiu que se vincule à Polônia ao Holocausto, e onde qualquer discussão sincera sobre antissemitismo e colaboracionismo, mesmo se em um contexto que mencione que também houve resistência, pode te mandar para a cadeia.

Monumento aos Heróis do Gueto, em frente ao Museu Polin

Achei o Museu um passeio maravilhoso em Varsóvia, e resolvi continuar para aprender mais sobre a história da Segunda Guerra em Varsóvia. Mas como o post já ficou enorme, deixei para o próximo contar a história da Insurreição de Varsóvia de 1944, e da minha visita ao museu dedicado à sua história.

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