Como o nosso vocabulário de viagem é marcado pelo colonialismo

A idéia desse post veio de uma conversa que tive com o povo do Monday Feelings no instagram. Foi sem nenhuma dúvida a discussão mais educada e produtiva que já tive em uma rede social, e por isso me fez pensar em escrever esse post para falar sobre como usamos termos sem pensar duas vezes que tem uma história colonialista.

A geografia não é neutra

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Onde fica a Geórgia??

Os termos para descrever um lugar podem parecer neutros. Para começar com um exemplo que já apareceu aqui no blog, Europa Ocidental e Leste Europeu pode parecer a princípio só uma forma fácil de dividir o continente. Mas se a gente presta atenção no mapa, nota que a Áustria e a República Tcheca estão praticamente alinhadas, e Praga está a oeste de Viena. Mas a Áustria é considerada Europa Ocidental, e a República Tcheca é considerada parte do Leste Europeu. Ninguém chamaria a Finlândia de leste, embora ela esteja na mesma latitude da Ucrânia, e até os anos 80 as pessoas não chamavam Portugal de Europa Ocidental, embora o país tenha o ponto mais ocidental do continente.
Na verdade, dividir o continente (ou subcontinente, já que a gente tá complicando a geografia que a gente aprende na escola) é fruto da Guerra Fria, e por isso pode te gerar inimigos por lá. Muitos dos países que a gente chama de Leste Europeu tem uma história enorme de contato com a Alemanha e a Áustria, e não querem ser definidos pelas últimas décadas de sua história.
Também a questão sobre se os países do Cáucaso são parte da Europa, da Ásia ou do “Oriente Médio” é mais marcada por preconceitos do que por argumentos, como eu tentei mostrar no post em que juntei frases que ouvi viajando por lá.
Você sabia que o termo América Latina foi criado na França de Napoleão, quando ele tentou colocar seu cunhado como Imperador do México? Ele achou que o processo seria facilitado se as pessoas acreditassem que não era um imperador estrangeiro, mas de uma nação com laços históricos com a região (engraçado que hoje a gente não considera os falantes de francês do Quebec como América Latina, mas frequentemente incluí os falantes de inglês e holandês no Caribe… de novo, é tudo político). Sudeste Asiático também é recente, vem da época da segunda guerra.
Outro complicado: Oriente Médio. Ele foi criado em uma época em se falava de um Oriente Distante (países asiáticos no pacífico) e um Oriente Próximo (o Império Otomano e os Bálcãs). Claro que ser chamado de oriente já mostra que é uma perspectiva européia. No entanto os outros dois caíram em desuso, agora não se sabe mais meio de quê, mas Oriente Médio continuou, normalmente vagamente confundido com países árabes ou países muçulmanos. E essa confusão é grande parte do problema, que faz com que nossa visão da região seja marcada por estereótipos e generalizações. Por que a gente fala em Oriente Médio e não em Ásia Ocidental, por exemplo?
E falando em Ocidente, é outro termo extremamente político, que incluí a maior parte da Europa, mas não o Marrocos, por exemplo, que está a oeste deles. Ou a gente no Brasil, que acha que é ocidente, mas é só chegar na Europa para ver gente chocada em descobrir que a gente pensa assim. Sabe aquela cena de Bacurau, do povo do sudeste que fala “nós somos mais como vocês”, e os gringos não conseguem parar de rir? Pois é.

Como a gente descreve povos diferentes?

Tribo é um termo muito etnocêntrico. Ele vem das tribos de Roma antiga, e foi usado pelos Europeus ao longo dos séculos para culturas que não tinham nada a ver com ela, como uma forma de marcar outros povos como “parados no tempo”, como se o presente deles fosse no máximo o passado da Europa. Já era problemático, mas hoje a gente continua a usar só para quem não é branco. Se você vive na Escócia, pode ter um clã, se vive na Europa Ocidental, pode falar um dialeto (outra palavra complicada, mais abaixo) ou ser de uma nacionalidade minoritária, mas se é em um país considerado atrasado, é uma “tribo”. A palavra implica um julgamento de valor, mesmo se não é o que você acha pessoalmente. Se você procurar online, vai achar vários exemplos aqui no Brasil de ativistas pedindo que a gente fale, por exemplo, do povo Yanomani, da comunidade Yanomani, até simplesmente dos Yanomani, mas não use essa palavra.
Dialeto também é complicado. Diz a piada que a diferença entre uma língua e um dialeto é que uma língua tem um exército e uma marinha. Ou seja, uma língua geralmente é associada com um Estado-nação, e por isso a diferença entre os dois é tão antiquada como a idéia de Estado-nação.

Eses são só dois exemplos, mas tem muitas palavras sobre a quais temos que refletir mais.

O olhar colonialista

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Orientalismo, um dos livros que eu mais tive que ler na faculdade, é um estudo do Edward Said sobre representações do Oriente Médio no Ocidente. Até hoje a gente usa para falar do exagero da diferença com outros povos de uma forma que pressupõe a superioridade do Ocidente. No discurso colonialista, isso muitas vezes vinha na forma de colocar o Oriente como feminino, exótico e erótico, e o Ocidente, em contraposição, como civilizado e racional (o que também é muito machista, claro, e esse é o ponto: o oriente era feminizado porque o feminino era visto como inferior). Por exemplo: a Argélia era referida pelos franceses como uma mulher exótica cujo corpo devia ser controlado pela França, que seria mais racional.
E a forma como a gente fala sobre o Oriente Médio ainda tem muito desse discurso. Quantas vezes a gente lê textos sobre o Oriente Médio, eles frequentemente falam sobre como eles são místicos, como as mulheres são misteriosas, aquelas fotos de uma mulher coberta com uma burca tentando mostrar a sensualidade secreta do povo árabe, toda a nossa idéia sobre ter um harém, que é muito marcada pela literatura colonialista e escrita por homens, que não tinham acesso a haréns e fantasiavam sobre eles. Falar de mulheres misteriosas de outra cultura é um pouco como falar de mulheres exóticas, que é algo que o feminismo negro no Brasil tenta muito combater. Falar de mulheres muçulmanas reduzindo-as a vítimas também é um estereótipo que mostra que a pessoa nunca ouviu falar de feminismo islâmico.

Acho que a maioria das pessoas que fala em um Oriente místico e sedutor não tem nada disso em mente, é claro. Elas estão só usando um clichê. Mas esses clichês tem uma história, e depois que a gente a conhece, não dá mais para reproduzir essa história cheia de preconceitos. Por isso acho que vale a pena começar essa discussão.

2 comentários

  1. Roberta

    Simplesmente AMEI esse post. Abriu demais minha cabeça e aprendi tanto! Brigada sempre por todo esse conteúdo maravilhoso.

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