Visita ao apartamento de Gogol, e à lareira onde ele queimou Almas Mortas

Com todo o prestígio da literatura russa, Gógol é um autor que ainda é subvalorizado. Na Rússia, ele é um dos grandes, o mestre o grotesco. Dostoiévski uma vez disse “nós todos viemos do Capote”, em referência ao seu conto mais famoso, mas aqui ele parece um pouco eclipsado por nomes como Dostoiévski e Tolstói. Então, na minha viagem literária pela Rússia, a sua casa era uma das que eu fazia questão de ver.

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Nikolai Gógol nasceu em 1809 no Sul do Império Russo, onde hoje fica a Ucrânia. A família dele era de oficiais da pequena burguesia, e eles falavam tanto o russo quanto o ucraniano dentro de casa. Desde que ele estava na escola, ele escrevia peças de teatro e sonhava em ser um escritor. Em 1828, ele se formou e se mudou para Petersburgo, com a ambição de ser parte da cena literária da cidade. Ele publicou uma coleção de poemas românticos sob um pseudônimo mas, quando recebeu péssimas críticas, comprou todos os volumes e os queimou, e jurou nunca mais escrever poesia. Depois ele publicou um volume de contos ucranianos, e dessa vez teve um moderado sucesso. 

Gógol era visto na época como um escritor ucraniano, não russo, e sua prosa era usada para “provar” a diferença entre os dois. Ele começou a se interessar mais e mais pela história e cultura da Ucrânia, e foi nessa época que escreveu Taras Bulba, baseado na história de cossacos ucranianos. 

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Ele passou um tempo ensinando História Medieval na Universidade de Petersburgo, um tema sobre o qual ele não sabia nada, então ele não aparecia na maior parte das aulas. Em 1836, ele publicou O Inspetor Geral, uma sátira da burocracia russa que só saiu por causa da intervenção pessoal do tsar Nicolas I. Nessa época, ele foi “reclassificado” pelos críticos como um escritor russo, talvez porque nessa época ele já tinha mostrado talento o bastante para que todo mundo quisesse clamá-lo.

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Finalmente estabelecido, ele passou alguns anos morando na Europa ocidental, passando pela Alemanha, Suíça, Paris e Roma. Voltando para a Rússia, ele publicou suas obras mais famosas, o conto O Capote, e o romance Almas Mortas, que saiu em russo com o nome imposto pela censura de As Aventuras de Tchitchikov. Ele se mudou para a casa onde hoje fica o museu, uma casa que vinha desde o século XVII e tinha sobrevivido ao grande incêndio de Moscou em 1812, durante as Invasões Napoleônicas. Nessa época, ele começou a se preocupar muito com o conceito de danação, e se a sua obra era um pecado, e seus meses lá foram tortuosos. Em 24 de fevereiro de 1852, ele queimou os manuscritos em que estava trabalhando, inclusive a segunda parte de Almas Mortas. Ele teve uma febre logo depois, começou a recusar toda a comida, e morreu nove dias depois. 

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às vezes os museus russos tem uma atmosfera de luto e veneração, e isso é muito verdade no quarto que tem “A LAREIRA”

Nessa época, ele já era conhecido na Rússia como um grande escritor. Os críticos hoje falam dos toques surreais em alguns de seus trabalhos, ou do tom gótico, mas o que ele é mais conhecido é pelo poshlost’, uma palavra russa que geralmente é traduzida como banalidade, trivialidade, ou mesmo vulgaridade. Ele colocava vulgaridade em situações em que os românticos, que reinavam antes dele, só escreviam sobre o sublime. E foi por isso que influenciou tanto a literatura russa.

Além de falar sobre a vida de Gógol, principalmente sobre os seus últimos meses, que ele passou na casa, o museu ainda tem uma biblioteca de pesquisa enorme, e instalações modernas sobre a obra de Gógol, como essa abaixo.

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Essas são algumas  obras de Gógol que estão disponíveis em português em tradução direta do russo (os links são direto para os sites das editoras, e não trazem nenhum dinheiro para o blog. Mas sempre sugiro que quem puder compre direto na editora ou em livrarias independentes):

Almas Mortas, em tradução de Rubens Figueiredo – o precursor do romance clássico russo, segundo a editora 34. O romance conta a história de Tchitchikov, um especulador que chega a uma cidade de província tentando comprar “almas mortas”, ou seja, servos que tinham falecido depois do último censo. Ela é considerada uma sátira mordaz mas afetuosa do povo russo, e a edição vem acompanhada de vários textos de Gógol em que ele fala do seu processo de criação.

O capote e outras histórias, em tradução de Paulo Bezerra – Dostoiévski uma vez disse “Todos nós saímos do Capote”, e não tem frase que mostre melhor a influência que esse conto teve em toda a literatura russa que veio depois. Ele é acompanhado de outras de suas histórias mais conhecidas, como O Nariz e Diário de um Louco, além de alguns contos do ciclo ucraniano, e por isso é uma ótima introdução a Gógol. 

Taras Bulba, traduzido por Nivaldo dos Santos – a novela de Gógol sobre os cossacos, os soldados ucranianos. Ela conta a história das sangrentas batalhas entre a Ucrânia e a Polônia no século XVI, e trouxe muita popularidade ao autor. 

Teatro Completo, traduzido por Arlete Cavaliere – Os textos para o teatro de Gógol são considerados alguns dos seus trabalhos mais originais e inventivos. No início do século XX, vários deles tiveram montagem do revolucionário diretor de teatro Meyerhold, cujo apartamento em Moscou eu também visitei. O livro inclui sua peça mais famosa, O Inspetor Geral

Avenida Névski, edição bilíngue traduzida pela Svetlana Kardash – essa edição da Ars Poética acho que hoje em dia só é encontrada em sebos. “Não há nada melhor que a Avenida Niévski, pelo menos em Petersburgo; para essa cidade ela representa tudo.”, diz Gógol, e a avenida é o personagem principal do conto, um lugar vivo que representa a metrópole onde “o próprio demônio acende os lampiões apenas para tudo mostrar sob uma falsa aparência”. Um ótimo conto e uma ótima experiência para quem tá indo para Petersburgo. 

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Terminando com uma foto de um micro-escultura do nariz que fugiu de um personagem de Gógol e tomou vida própria, em uma rua de Petersburgo.

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