Um tour sobre o colonialismo alemão em Berlim

Em maio do ano passado, fui para Berlim para um congresso de estudantes de História Global. Entre os eventos que eles organizaram para a gente, teve um tour da história colonial de Berlim com o ativista Tanzaniano Mnyaka Sururu Mboro. Ele começou se apresentando, dizendo que mudou para a Alemanha quando era jovem para estudar engenharia, mas acabou vivendo no país e dedicando a sua vida a descolonizar Berlim.

A Alemanha frequentemente é elogiada pela forma como se lembra do nazismo, e como luta para que isso não aconteça de novo. No entanto, e colonialismo não teve o mesmo tratamento. Em muitos lugares ele ainda é lembrado com a imagem prepotente de um “império”, ou em termos racistas de missão civilizadora, e não como um regime de opressão e violência. O governo ainda está negociando se vai chamar os massacres cometidos na Namíbia de genocídio ou não. E é isso que os ativistas da Berlin Postkolonial, que organiza esses tours, está tentando lembrar. 

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O tour acontece no bairro de Wedding, em uma parte conhecida como o bairro africano. Durante a maior parte do século XX, existiram zoológicos humanos na Europa, que faziam tours para mostrar “selvagens” de outros continentes. Ter esses zoológicos era parte da idéia da época de reforçar a narrativa da superioridade européia, mas também uma forma de exibir o poder do seu país, mostrando as próprias colônias. Um investidor alemão, Carl Hagenbeck, pretendia construir em Wedding um parque temático com pessoas e animais trazidos das colônias alemãs na África, e por isso o nome do bairro. Mbolo andava com uma pasta de imagens para nos mostrar, e uma era uma propaganda de como o parque seria.

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Planos para o zoológico humano permanente em Wedding
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Zoológico humano em que as pessoas alimentavam crianças africanas com amendoim e bananas, em Bruxelas, em 1958

Felizmente, a idéia não deu certo, embora ele tenha feito tours da exposição por toda a Alemanha. Depois, durante a época nazista, as ruas do bairro receberam nomes dos “protetorados” na África, como Togo e Camarões, para honrar o passado colonialista da Alemanha, porque é claro que os nazistas achavam que isso merecia celebração. Nós começamos o tour na rua de Gana, porque ela foi uma exceção: a rua só recebeu esse nome em 1958, quando o país se tornou independente, e honra isso.

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Depois paramos na esquina com Swakopmunder Strasse, que tem esse nome por causa de uma cidade na Namíbia. A Namíbia foi onde os alemães construíram seus primeiros campos de concentração, e onde, entre 1904 e 1908, exterminaram 65 mil pessoas Herero e 10 mil pessoas Nama. Aqui também nosso guia tinha uma imagem para nos mostrar: um cartão postal de soldados preparando os crânios dos Herero para serem enviados para a Alemanha, onde eles seriam medidos por médicos em uma tentativa de classificar as raças – o racismo científico ainda reinava nessa época.

Outra das lutas do grupo de ativistas que prepara esse tour é de receber esses crânios de volta, já que alguns foram devolvidos, mas a maioria ainda está nos arquivos do Hospital Charite. 

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Nós continuamos o tour por Nachtigalplatz, uma pracinha simpática com o nome de um homem que ainda é constantemente referido como “explorador”, mas que foi enviado para a África com a idéia de abrir o caminho para a colonização. E suas missões resultaram diretamente no Togo e no Camarões se tornarem as primeiras colônias alemãs. O grupo Berlin Postkolonial lutou para que o nome da praça mudasse para  Rudolf Duala Manga Bell, em honra a um rei Duala que resistiu ao colonialismo, e que foi enforcado pelos invasores.

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Depois passamos para uma rua nomeada em honra de Carl Peters, um homem tão violento que causou controvérsia até na sua época. Ele invadiu vários países no Leste da África, na área onde hoje ficam Rwanda, Burundi e partes da Tanzânia, e com tanta brutalidade que ele ficou conhecido como “Hängepeters”, Peters enforcador. Na Tanzânia ele é conhecido como Mikono wa Damu, aquele que tem sangue nas mãos. Um debate no Reichstag denunciando seus crimes de guerra fez com que ele perdesse o título de Reichkommisar, comissário do Reich, mas depois ele foi reabilitado pelo Kaiser Wilhelm. O nosso guia não tem dúvidas do propósito de dar esse nome à rua no final dos anos 30: é propaganda nazista.

Desde os anos 80, há protestos dos habitantes dessa rua contra o nome, e com o envolvimento dos locais ele foi “redirecionado”. Quer dizer, a rua ainda se chama Petersalle, mas agora as placas que explicam honram outro homem com o mesmo sobrenome, um médico chamado Hans Peters. Os ativistas tinham sugerido o nome de Mangi Meli, um líder local cujo crânio está entre os levados para a Alemanha e que ainda não foram devolvidos.

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Quando explicava tudo isso, nós paramos debaixo de um prédio para aproveitar a sombra. Depois, quando andamos, alguém jogou um ovo da janela do prédio no nosso grupo. O guia falou que isso acontece todo dia, que às vezes as pessoas até o abordam e o xingam. Como eu disse, o modo como os alemães lidam com o holocausto é muito elogiado, e é chocante o quanto que algumas pessoas resistem a falar de colonialismo.

tour berlim pos colonial quando jogaram um ovo na gente

Continuamos para a rua Lüderitz, que tem o nome de um comerciante que fundou o Sudoeste da África Alemã, a primeira colônia alemã. O grupo sugeriu que a rua mude de nome para Cornelius Frederiks, que lutou pela liberdade da Namíbia.

O tour continua na rua Wilhelmstrasse 77, onde ficava o Palais des Reichskanzlers, um lugar importante para a Conferência de Berlim, em que aconteceu a Partilha da África pelos países europeus. Hoje o palácio não existe mais, mas os ativistas conseguiram, depois de muita luta, instalar uma placa que conta a história do lugar. 

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Mboro depois nos contou sobre outros lugares de Berlim. Um dos principais que eles tentam mudar é Mohrenstrasse, a rua dos mouros, que também é o nome da estação de metrô. Ele também nos contou a história de alguns sucessos, como a rua que honrava o colonialista Otto Friedrich von der Gröben, cujo nome foi mudado para May Ayim, uma poeta, educadora e ativista pela educação.

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Esse tour foi incrível, e recomendo muito. Se você está interessada, clique aqui para ir ao site oficial para ver as opções.

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