Volta ao Mundo em Filmes: Letônia – Modris

O filme escolhido para a Letônia é Modris, de Juris Kursietis. Ele conta a história de um jovem sem rumo morando em uma periferia de Riga, um lugar completamente diferente do centro antigo e dos prédios Art Nouveau que vi na minha visita. Mas foi por isso mesmo que gostei, por ser uma perspectiva diferente do país, e uma que a gente não vê em uma visita de alguns dias.

Modris (Kristers Piksa) vai a escola, e lá ele tem amigos e uma ficante, mas se sente alienado. Ele mora com a mãe (Rezija Kalnina) em um pequeno apartamento, e constantemente rouba trocados da bolsa dela para jogar em caça-níqueis que ele nunca ganha. Um dia, sem conseguir dinheiro para jogar, ele vende o aquecedor elétrico da casa por uns trocados. Isso no meio do inverno. A mãe dele fica exasperada e chama a polícia.

Para mim ficou bem claro que a mãe dele espera que isso seja a lição que ele precisa para tomar jeito. Ela diz constantemente que não quer que ele acabe na cadeia como o pai dele, que Modris nunca conheceu. Mas no giro de alguns dias, ele é condenado a dois anos de liberdade condicional. O advogado tenta explicar que a Letônia tem uma política severa sobre liberdade condicional, e que pequenas infrações podem mandá-lo para a prisão. Ele já tinha o costume de andar no trem sem pagar o bilhete, pichar prédios, matar aula, e o conhecimento de que o que antes era uma infração administrativa agora pode mandá-lo para a cadeia lhe dá um senso de inevitabilidade. A ameaça pendendo em cima dele não o faz tomar jeito, só o deixa mais perdido.

No fundo de tudo, está a ausência do pai. O pior para Modris é não saber, não ter certeza se  pai realmente está na prisão, se ele realmente nunca quis saber deles, e se ele pode confiar no que a mãe diz sobre ele.

O Modris se sabota, e a gente vê isso principalmente no modo como ele trata a sua ficante eternamente paciente. Mas o que o filme mostra é como uma espiral de auto-sabotagem e alienação são potencializados por um sistema rígido, que só aumenta essas sensações.

O longa foi filmado com os atores só recebendo partes do roteiro de cada vez, sem ensaiar as cenas. O diretor filma longas cenas de uma só vez, em ambientes reais, e isso aumenta muito a nossa sensação de proximidade de Modris. Parece familiar para quem gosta de Ken Loach ou dos Irmãos Dardenne, e provavelmente foi por isso que o filme passou pelo circuito de festivais. Também, como eles, é um filme com uma mensagem política clara.

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