Volta ao Mundo em Filmes: Escócia – Trainspotting

Tem lugares que quando sorteio, tento fugir dos óbvios. Mas em alguns, eles são inevitáveis. E na hora de pensar em um filme escocês, não resisti à tentação de falar de um dos filmes que mais marcaram minha adolescência, Trainspotting, do Danny Boyle.
O filme, assim como o livro do Irvine Welsh em que foi inspirado, conta a história de Mark Renton (Ewan McGregor no início da carreira), um viciado em heroína em Edimburgo, e de seus amigos ( Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle e Kelly Macdonald), vivendo em pobreza na cidade. Ele é muito conhecido pelo monólogo do início, que eu sabia de cor quando era adolescente e que, juro, ouvir repetidamente me ajudou a entender o sotaque escocês quando fui visitar o país.

Choose life.
Choose a job.
Choose a career.
Choose a family,
Choose a fucking big television
Choose washing machines, cars,compact disc players, and electrical tin openers.
Choose good health, low cholesterol and dental insurance.
Choose fixed-interest mortgage repayments.
Choose a starter home.
Choose your friends.
Choose leisure wear and matching luggage.
Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics.
Choose DIY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning.
Choose sitting on that couch watching mind-numbing spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth.
Choose rotting away at the end of it all, pissing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself.
Choose your future. Choose life
But why would I want to do a thing like that?
I chose not to choose life: I chose something else.
And the reasons?
There are no reasons.
Who needs reasons when you’ve got heroin?


Ele é fantástico, eu sei, e dá a impressão de que o filme vai glamurizar as drogas. Mas aí a próxima cena é com o Renton comprando supositórios de heroína para tentar parar de usar drogas e acabando com diarréia no que ele descreve como o pior banheiro da Escócia. Sério, porque campanha anti-drogas fala de overdose e não fala de diarréia? Muito melhor para tirar o glamour. Mais seriamente, podemos dizer que o filme foi tão criticado por defender as drogas quanto elogiado por ser anti-drogas, quando o que ele quer é mostrar a realidade prática de um viciado. A rotina cansativa, tediosa, que leva viciados a fazer trainspotting – ficar na estação contando os trens que passam.
O filme acompanha Renton em várias tentativas, de uma que acaba com ele transando com uma menor de idade que o chantageia, a acabar na estação de trem mais isolada da Escócia, a ser levado de táxi para o hospital com uma overdose, à morte de um bebê com a qual você vai ter pesadelos por semanas.
E em uma tentativa que dura mais e acaba com um trabalho em Londres, mas que faz quem assiste pensar por quanto tempo isso vai durar, e quais serão as consequências quando os seus amigos baterem à porta com uma oferta para vender a heroína mais pura que eles já viram.
Foi um filme que marcou os anos 90, e que envelheceu maravilhosamente. Para nós brasileiros, ele é ótimo por não mostrar a Escócia dos lochs, dos castelos românticos, das rainhas assassinadas, mas a dos viciados e miseráveis tentando sobreviver em Edimburgo e excluídos dessa tradição histórica que admiramos. Por isso ele vale a pena mesmo para quem escolheu a vida, a carreira, e a porra da tv grande.

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