Volta ao Mundo em Livros – Espanha: Anatomia de um Instante

O livro escolhido para a Espanha foi Anatomia de um Instante, de Javier Cercas. Já tinha lido Soldados de Salamina, do mesmo autor, que se passa durante a Guerra Civil Espanhola, e o tema desse me pareceu muito interessante, então, apesar da grande oferta de livros espanhóis, acabou não sendo uma decisão difícil.

A idéia inicial, segundo o autor, era escrever um romance sobre a tentativa de golpe de estado de 23 de fevereiro de 81, quando 200 oficiais armados invadiram o congresso espanhol durante a eleição do novo primeiro ministro. Depois, ele pensou em escrever um livro de não-ficção, argumentando que a ficção não faria juz ao que aconteceu. O resultado não é facilmente classificável, pois mistura a narração de fatos com a especulação de motivos. Talvez possamos chamar de romance sem ficção, na linha de obras como HHhH, de Laurent Binet ou os romances de Patrick Deville? Apesar de eu não gostar do nome, não tenho uma idéia melhor.

Um dos motivos que fizeram com que Cercas se interessasse pela história desse instante é que o golpe foi televisionado. Nós podemos ver a primeira meia hora, quando os militares entram no congresso e disparam contra os deputados. Enquanto a maioria se abaixa procurando proteção, três deles continuam em seus lugares, e Cercas quer entender suas motivações. Era coragem? Fatalismo? Orgulho?

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O momento do golpe na tv espanhola

O primeiro deles é Adolfo Suárez, um falangista que tinha sido o primeiro presidente da Espanha depois da ditadura franquista e se tornou uma figura chave da redemocratização. Ele tinha se demitido um mês antes, por causa da falta de apoio do rei, que o considerava um arrivista, e tinha pouco a perder. Quando lhe perguntaram porque ele não procurou abrigo como os demais, ele teria dito que era o líder do governo, e o líder do governo não pode se jogar no chão.

O segundo é Gutiérrez Mellado, um general que quando jovem tinha apoiado o levante de 36, origem da Guerra Civil Espanhola. Durante a carreira, ele passou a ter uma posição humanista e a apoiar a legalidade. Quando os militares entraram no congresso, ele se levantou e ordenou ao líder dos golpistas, Antonio Tejero, que lhe entregasse a arma. Tejero tentou jogar o homem de 68 anos no chão, mas não conseguiu, e ele permaneceu de pé durante o atentado.

Finalmente, o terceiro é Santiago Carrillo, presidente do recém-legalizado Partido Comunista. Ele tinha lutado com a resistência durante a Guerra Civil, mas há décadas apoiava um governo de união.

Para Cercas, o 23-F são três golpes simultâneos. Tem o golpe de Antonio Tejero, o responsável por entrar no congresso e tomar os deputados como reféns, que achava que Suárez estava arruinando o país. O de Alfonso Armada, antigo mentor do rei Juan Carlos, que seria o líder do governo. E finalmente o de Jaime Milans del Bosch y Ussía, que colocou tanques na ruas de Valencia e declarou estado de emergência.

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Tejero anunciando o golpe no congresso

Segundo o autor, Armada queria se passar junto ao rei como um mediador, e impor um plano de governo de união entre civis e militares. O rei ficou famoso por freiar o golpe ao dar um discurso na televisão denunciando-o, mas Cercas complica a história, ao mostrar sua insatisfação com Sanchez e como os militares se sentiam próximos dele.

Cercas trata seus “heróis” com ceticismo e pensa suas carreiras até o instante que analisa. É um retrato muito interessante da complicada redemocratização da Espanha, logo depois do fim do franquismo.

 

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