Volta ao Mundo em Livros: Ruanda – Nossa Senhora do Nilo

Já há um tempo tenho vontade de ler os livros da Scholastique Mukasonga, e essa vontade só aumentou depois de vê-la falar durante a FLIP de 2017. Aproveitei a festa para comprar o romance Nossa Senhora do Nilo. Mukasonga é uma sobrevivente do genocídio de Ruanda, em que morreram vinte e sete membros de sua família, e a maioria dos seus livros são sobre essa tragédia.

Esse romance trata de um colégio católico de elite em Ruanda nos anos 80 que se chama justamente Nossa Senhora do Nilo. Ele fica perto da nascente do rio, que as alunas visitam em peregrinação em ocasiões importantes para rezar para a estátua de uma Nossa Senhora Negra que fica lá. As jovens que estudam lá estão sendo preparadas para ser a elite feminina do país, o que significa duas coisas. Primeiro, que elas estão sendo preparadas para se tornarem esposas de políticos e banqueiros. Assim, as aulas de matemática e história podem ser canceladas a qualquer momento para recepcionar um visitante ilustre. Segundo, que elas são educadas de forma ocidental, com desvalorização das culturas africanas e ênfase em ter um modo de vida francês. Para elas, história significava Europa, enquanto geografia significava África. Inclusive a comida do refeitório é francesa, para que elas se acostumem à comida “de gente civilizada”.

A maioria das alunas pertence à etnia dos Hutus, ou, como elas dizem frequentemente, “o povo majoritário.” Duas alunas Tutsis, Verônica e Virginia, são admitidas com base em uma cota, o que é polêmico entre as outras estudantes, e elas são olhadas com desconfiança e raiva pela maioria das alunas.

“A cota funciona assim: de vinte alunas, duas são tutsis. Por causa delas, tenho amigas que são amigas que são ruandesas de verdade, do povo majoritário, do povo da enxada, que não conseguiram vaga na escola secundária. Meu pai vive repetindo que um dia temos que nos livrar dessas cotas, foi uma história inventada pelos belgas!”

Essa frase é dita por Gloriosa, uma estudante que personifica o ódio anti-Tutsis. Filha de um homem poderoso do regime, ela usa sua influência com os professores para propagar o ódio contra a raça que ela vê como privilegiada pelos colonizadores belgas. No entanto, o que vemos no livro é que Gloriosa é uma menina privilegiada, enquanto Virginia, que ela critica, realmente trabalhava nos campos, e Veronica sonha em se tornar alguém acima das raças e dos estereótipos, uma pessoa civilizada. Assim, é bastante irônico que ela se clame como parte do povo da enxada ao invés das duas colegas que ela maltrata.

No livro, seguimos estudantes diferentes em vários momentos. Vemos uma estudante que tem a primeira menstruação, e aprende como lidar com isso em segredo, vemos as ligações amorosas de uma aluna com um embaixador estrangeiro, que ignora as regras rígidas da escola, vemos duas alunas que visitam o santuário de gorilas em Ruanda, irritadas com o fato de que uma mulher branca (Dian Fossey) acha que os ruandeses não podem ter o contato com eles que ela tem.

No início, essas histórias podem parecer pouco conectadas, mas criam um panorama da vida de várias personagens, e se unem no final da narrativa em uma trama única, que fala sobre as consequências do preconceito e do ódio que vimos crescendo no livro. Ele não chega ao genocídio de Ruanda, que aconteceu anos depois, mas nos mostra claramente que ele não surgiu do nada.

 

2 comentários

    1. Julia Boechat

      Fiquei com vontade de ler esse também! E o outro da Mukasonga. Tem países que dá vontade de ler vários, não tem jeito. Acho que você vai curtir esse livro, ele é muito bom. Quem sabe a gente sugere no Leia Mulheres?

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