Literatura Russa

O maior motivo pelo qual eu queria visitar a Rússia era minha paixão pela literatura russa. Então quando eu estava lá dediquei grande parte do meu tempo para visitar apartamentos de escritores transformados em museus, lugares onde meus romances preferidos se passaram ou que inspiraram os grandes autores da literatura russa.

Esse é um índice dos lugares que eu visitei, vários dos quais já tem posts dedicados a eles, e outros vão aparecer por aqui em breve.

 

O apartamento de Bulgakov e o roteiro de Mestre e Margarida

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“Proibido conversar com estranhos” – placa nos lagos do patriarca

O primeiro museu-apartamento que visitei – e o mais cheio – foi o “apartamento maldito” de Bulgakov. Além de ter sido a casa do autor, é onde, na obra O Mestre e Margarida, o Diabo em pessoa se hospeda em Moscou, sua sede para criar o caos em uma cidade que não pode acreditar nele. Durante décadas os fãs do autor iam até o apartamento, antes que ele se tornasse um museu, e não podendo entrar, escreviam suas frases preferidas nas paredes. As melhores eram preservadas, então dá para ver várias camadas de tinta nas paredes. Eu visitei o apartamento e depois fiz um tour seguindo os lugares mais famosos do livro.

Leia mais: Roteiro de O Mestre e Margarida em Moscou

 

Itinerário de Crime e Castigo em Petersburgo

A Casa de Raskolnikov Dostoievski Crime e Castigo Petersburgo
A casa de Raskolnikov em Petersburgo

Embora tenha nascido em Moscou, Dostoiévski ficou para sempre ligado a Petersburgo, e nenhum de seus romances mostra tanto o motivo como Crime e Castigo. Raskolnikov perambula pela cidade febril por causa de seu clima inóspito, e eu fui atrás deles procurando a casa da Sônia, da velha usurária e o seu apartamento de estudante.

Leia mais: Crime e Castigo: um romance de Petersburgo

 

O Mito de Petersburgo

Cavaleiro de bronze estatua pedro grande mito petersburgo

Desde que Petersburgo foi construída sobre os ossos dos servos obrigados a transformar pântanos em canais (sério), a cidade tem uma reputação de ser artificial, revolucionária, contra a religião, ou como disse Dostoiévski, “a cidade mais abstrata e premeditada” do mundo”. Nesse post eu falo um pouquinho dos lugares que visitei inspirada por essa reputação na literatura russa.

Leia mais: O Mito de Petersburgo, a cidade construída sobre ossos

 

A Peterburgo de Anna Akhmatova

 

Minha segunda visita na cidade foi ao apartamento da poeta Anna Akhmatova. No início da carreira, Akhmatova já fazia bastante sucesso, mas depois foi quase esquecida, subvalorizada por ser uma mulher que escrevia poemas de amor. Hoje seus poemas são lembrados como um dos testemunhos mais pungentes do terror Stalinista, quando seu marido e seu filho foram presos para coibi-la de escrever. Sem poder publicar, ela fazia com que seus amigos decorassem seus versos, que só foram integralmente publicados depois de sua morte. Seu apartamento mostra a vida atribulada, o medo de escutas e espiões em um apartamento compartilhado. Também vale a pena visitar a sua estátua nas margens do Nevá, voltada para a prisão de Kresty, onde ela ia tentar conseguir notícias do filho.

Leia Mais: A Petersburgo de Anna Akhmatova

 

Dostoiévski ou Tolstói?

 

Depois fui visitar as casas dos dois gigantes da literatura russa e decidir meu lado na rivalidade que, segundo o crítico George Steiner, diz mais sobre você do que qualquer outra escolha. Conto um pouco mais sobre as duas casas de Moscou, a casa em que Dostoiévski passou a infância e a casa da cidade de Tolstói

Leia mais: Dostoiévski ou Tolstói? Peregrinações por Moscou

 

Tchékhov: uma casa dividida

Moscou Casa Tchekhov

O próximo da lista foi Tchékhov, um apartamento dividido. O autor dizia que sua amante era a literatura e sua esposa era a medicina, e o apartamento tem duas alas, uma com seu consultório, onde ele recebia pacientes que não podiam pagar, e outra com sua escrivaninha.

 

As casas Art Nouveau de Górki e Aleksei Tolstói

Moscou casa Gorki rumiantsev escadaria art nouveau

Fui também para a grande mansão Art Nouveau que Gorki recebeu do Soviete de Moscou. Ele não é um dos meus autores preferidos, e na verdade fui mais por ter ouvido falar da casa do que por ele. Mas curti muito a contradição entre o sóbrio Gorki e aquela casa que ele não pediu e não queria aceitar, onde ele viveu anos doentios, com medo do governo que o espiava. Saindo da casa vi a entrada para o museu dedicado a Aleksei Tolstoi, e resolvi entrar também, embora não tenha lido nada dele. Ele recebeu parte da mesma casa em que Gorki vivia, a mansão Riabushinsky. Ela estava quase vazia, e a segurança da sala me levou pelos quartos, explicando a vida do autor, que ela chamava com intimidade não de Tolstói, mas de Aleksei Nikolaievitch. No final ela me perguntou se eu gostei, e acrescentou “nós temos muito orgulho da nossa casa”.

Leia mais: A Mansão Art Nouveau de Gorki e Aleksei Tolstoi

 

Pushkin: a criação de um mito fundador

Petersburgo apartamento Pushkin
Quando Puchkin morreu, alguém escreveu seu nome na porta com um pedaço de carvão, e o grafite foi preservado como lembrança do dia

Finalmente, fui ao museu dedicado a Pushkin. Ele revolucionou a língua russa ao usar uma linguagem que combinava a poética do eslavônico antigo, os galicismos usados pela nobreza e coloquialismos. Ele era visto como pai da literatura russa e uma enorme influência para basicamente todo mundo dessa lista. O museu foi onde Pushkin passou os últimos quatro meses de sua vida, e a maioria da exposição é dedicada ao duelo que o matou e às suas últimas horas. Vemos o sofá para onde ele foi carregado, e que ainda tem vestígios do seu sangue (confirmados recentemente por DNA), o grafite na porta onde alguém escreveu seu nome com carvão, ouvimos a história de suas últimas horas e da multidão que invadiu o pátio e a casa querendo notícias do poeta. Pushkin duelou com o oficial francês D’Anthès por uma questão de ciúmes, depois que ele recebeu uma carta anônima dizendo que ele pertencia à “ordem dos cornos”.

 

Nabokov: um museu dedicado a obsessões

 

Também visitei o apartamento de Nabokov, onde não há tentativa de reconstruir a casa como era, mas um verdadeiro templo dedicado às obsessões do autor. Estão lá tabuleiros de xadrez, borboletas caçadas por ele, inclusive a que ele descobriu e que leva seu nome, jogos de palavras. Também há fotos de todas as casas em que o escritor viveu. Depois de perder sua casa em Petersburgo para a revolução, ele nunca mais quis possuir uma casa, e quando o sucesso de Lolita lhe deu independência financeira, ele preferiu viver em hotéis.

Leia mais: Casa Nabokov: um museu dedicado a obsessões

 

Dostoiévski: os anos de Petersburgo

Petersburgo apartamento de Dostoiévski
A cigarreira onde a filha de Dostoiévski escreveu “papai morreu hoje”

É, tem Dostoiévski de novo nessa lista. Mas em Petersburgo também fiz um tour dedicado a lugares importantes de sua vida, como o Castelo Mikhailovski, onde ele estudou engenharia, o parque onde ele foi condenado a morte por ler livros, a Fortaleza de São Pedro e Paulo, onde ele foi encarcerado, e a casa onde ele escreveu Os Irmãos Karamazovi.

 

Dois diretores que mudaram o teatro moderno

Moscou Casa Mendelssohn teatro maquete peça

Em Moscou, também fui às casas de dois diretores de teatro rivais que inventaram métodos revolucionários de atuação. O primeiro foi Stanilavsky, cujo método de mergulhar no personagem depois ficou conhecido como method acting, e ganha Oscars para vários atores até hoje. A casa é modesta e mostra sua personalidade energética. Depois fui à casa de  Meyerhold, nem de perto tão lembrado quanto seu contemporâneo. Ele foi assassinado durante o Stalinismo, e apagado dos livros de história. A casa mostra as maquetes de suas produções, fala do seu método, a Bio-mecânica, que focava nos gestos e movimentos dos atores, e como eles podiam expressar sentimentos novos e mais cheios de nuance.

 

Gógol: manuscritos não queimam

Moscou casa de gogol

Também fui a casa de Gogol, para ver de perto a lareira onde o autor queimou a segunda parte de Almas Mortas. O lugar também é bem famoso pela livraria de pesquisa, com mais de 250 mil volumes, e pelas salas em que eles reconstituem as tramas de alguns dos seus livros mais famosos.

 

Blok: leituras de poemas durante a Noite de Museus de Petersburgo

Fui ao museu do poeta Blok durante a Noite dos Museus, quando a maioria dos museus de Petersburgo fica aberta até as seis da manhã com programação especial. Eu visitei o apartamento dele, depois a sala dedicada a Os Doze, seu poema mais famoso, e depois aproveitei para ver as declamações e homenagens, feitas por estudiosos, entusiastas e atores fantasiados como o poeta.

Leia mais no post sobre os museus que visitei nessa noite: Uma Noite dos Museus em Petersburgo

 

Como o parque de Catarina, a Grande, tem tudo a ver com a distopia do Dia do Oprichnik

Tsaritsino parque Catarina Moscou 15

Não é sempre que ir a um parque dedicado a uma “Era de ouro” da história e pensa que parece mais com o romance distópico que você está lendo. Mas foi isso que aconteceu comigo em Tsaritsyno, o parque de Catarina, a Grande em Moscou que me fez pensar na paródia do retorno do tsarismo em O Dia do Oprichnik, de Sorokin.

Leia mais: Tsaritsyno – quem controla o passado, controla o futuro.

 

Casa de Puchkin: a união dos escritores russos

Moscou casa Pushkin escritores russos

Outro lugar importante que visitei foi a Casa de Puchkin, a união dos escritores russos. Hoje eles preservam cartas, primeiras edições e materiais de escritores espalhados em várias salas. Tem exposições dedicadas a Pushkin, Lermontov, Gógol, Tolstói, Dostoiévski e para os escritores do Século de Prata.

 

Museu da Música e do Teatro

Petersburgo museu musica teatro modernismo

Um museu em Petersburgo dedicado ao teatro e a música, com maquetes das produções de peças famosas e exibições maravilhosas para quem é fã.